sexta-feira, 17 de abril de 2015

O Bairro, ela e as dicas dela sobre dias como os que gozam a Maria e o Miguel


A Menina é, provavelmente, a mãe mais ternurenta da blogosfera. Daquelas pessoas de quem nos apetece mesmo, mesmo, ser amigas, pedir conselhos, trocar ideias, fazer programa com os putos todos.
O blog "Eu, ele, a Maria e o Miguel" é, na minha óptica, o melhor blog sobre maternidade de toda a blogosfera. O único que é realista e que nos faz identificar com esta mãe- cabelos despenteados, sujidade limpa com cuspo, pés assentes no chão, terra-a-terra- mas, ao mesmo tempo, sendo, incrivelmente, inspiracional: todas nós queríamos ser como esta Menina-mãe-fada.
A Menina irá dar um workshop ao Bairro do Amor.
O workshop "Estes dias" acontecerá no dia 9 de Maio, entre as 09h e as 13h, em Lisboa. A Menina irá, durante 4 horas, partilhar com os participantes o seu projecto "Escola em casa", revisitando algumas actividades, projectos, ideias, programas e brincadeiras que partilha no seu blog com todos e que podem ser replicados ou inspiradores para outras mães.
O público-alvo serão pais e, na óptica do "Dá cá 5!" metade da turma será frequentada por utentes do Bairro do Amor, neste caso, mães/pais desempregados e que são estão com os filhos em casa.
As incrições deverão ser feitas através dos emails de sempre bairrodoamor@iol.pt  ou bairrodoamor.ass@gmail.com e são limitadas.
 
Quem se junta?

O Mundo divide-se entre quem gosta de ler Lobo Antunes e os outros

"Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem
- Pega nos talheres como deve ser
ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta
- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?
ou a resposta
- Um dia falamos sobre isso
quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:
 - Porque é que as mulheres fazem por uma escova?
e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo
- João
e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor
(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)
não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico
 - E depois, nos intervalos, escreves
como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:
- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.
Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género
O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada
ou, comparando-me com o meu irmão
- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.
Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos
- O António tem faísca, o António tem faísca
e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:
- Tenham misericórdia de mim.
Sentada na sua cadeira, na sua sala:
- Tenham misericórdia de mim.
Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios
- Lembras-te daquela história da escova?
e o meu pai a responder
- Ah
que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas."

O meu pedido de desculpa a todas as leitoras veteranas deste blog a quem vou desapontar com o post que se segue

Eu não ligava nenhuma a sapatos. Tooooda a infância de botas ortopédicas, o que eu gosto mesmo é de pés descalços. Não ligava nenhuma, boi, zero, nicles, a sapatos. 
Mas depois nasceu a Ana e... senhor, perdoai-me porque eu (ainda hoje) pequei:


(E cheiraaaaamm tããaooo bem!)



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Para todos os que querem ajudar o menino e a avó

O primeiro passo é tornarem-se sócios do Bairro do Amor (sim, sim, isto é um link: carregai!).
O processo estava loooongo e demorado e pouco prático. Agora não, podem preencher aqui a ficha de inscrição online e fazerem a transferência do valor das quotas e respondemo-vos com o numero de sócio atribuído e um recibo que confirma o pagamento.
No caso de haver pessoas desempregadas que queiram ser sócias basta preencherem a ficha de inscrição e anexar um comprovativo que ateste a situação de desemprego e serão considerados sócios não pagantes. Aqui ninguém fica de fora!
O valor total das quotas é dividido pelo número de meses do ano e, durante este ano, o valor correspondente a cada mês é entregue a uma família com filhos que necessite de um "empurrão" para se reorganizar. Queremos ajudar pessoas que não precisem de uma ajuda continuada (não temos recursos para o fazer e existem imensas IPSS vocacionadas para esse tipo de ajuda) mas de uma ajuda pontual que lhes seja suficiente para se reestruturarem e seguirem, de forma autónoma e sem dependência de instituições, em frente, tendo vistos resolvidos os problemas específicos e concretos que as fizeram contar com a ajuda desta vizinhança.
 
 
Recebemos emails e mensagens de cinco pessoas que se disponibilizaram para fazerem o pagamento integral da dívida desta avó. Emocionámo-nos com a capacidade de resposta, com a prontidão e a generosidade. Iremos responder a estas 5 pessoas ainda hoje convidando-as a dividirem este valor pelas 5, no espírito comunitário que caracteriza o Bairro. Todas as outras que queria, de alguma forma, contribuir, estão convidadas a vir morar cá dentro, no Bairro. Há tanta gente a precisar de um empurrão...
Existem mais casos (infelizmente muitos) como o desta criança. Queremos envolver-vos neste Bairro, queremos que nos ajudem a ajudar e a forma mais fácil para o fazerem é fazendo parte, sendo sócios e acompanhando o dia-a-dia deste Bairro.
Ah, só para rematar: as receitas do evento de sábado servirão para podermos assegurar o pagamento das mensalidades até ao final deste ano lectivo. Assim, ajudamos todos!
Há tantas oportunidades de mudar a vida de quem está por perto, de ajudar, de contribuir para o Mundo ser um lugar um bocadinho melhor.
 

Mãegyver: Dois anos, oito meses e sete dias e ela descobrir-me-ia ao primeiro toque


quarta-feira, 15 de abril de 2015

E agora vamos falar de coisas importantes...



Foi sinalizado junto do Bairro do Amor o caso de uma criança orfã de pais, ambos de Leste a viver em Portugal. Aquando da doença terminal da filha, a avó veio cuidar desta e do neto e ficaram ambos a residir no nosso país após a morte da mãe do menino.
Esta avó, trabalha noite e dia nas limpezas para sustentar o pequeno, neste momento a frequentar o 4º ano. No entanto, deixou acumular uma dívida de 105€ de ATL do miúdo que corre, agora, o risco de não poder continuar a frequentar esta componente não lectiva da qual usufrui e que é a única forma da avó conseguir trabalhar durante o periodo após o término das aulas.
A avó tem vindo a saldar a sua dívida acumulado, mediante as suas possibilidades, com o dinheiro que lhe resta no final do mês: 2€ num mês, 3€ no outro.
O Bairro quer pagar esta dívida e deixar a avó numa situação de conta corrente limpa, porque a mesma garante que consegue gerir o pagamento mensal, o que não consegue é mesmo pagar o que está em atraso.
A Alice Vieira irá fazer uma tertúlia para o Bairro no próximo sábado, entre as 10h e as 13€, em Lisboa. O valor que o Bairro cobrará é de 15€ (5€/hora) a quem se quiser juntar. Todo o dinheiro angariado com esta acção servirá para que esta avó consiga continuar a trabalhar para que nada falte ao neto. E para que esta criança possa continuar a ter acesso ao direito de frequentar uma componente não lectiva, onde brinca, joga e lê livros. Incluindo livros da autoria da Alice Vieira.

(Inscrições para bairrodoamor@iol.pt ou bairrodoamor.ass@gmail.com.)

(Quem não for de Lisboa e queira tornar-se sócio do Bairro do Amor contacte a Associação pelos mesmos e-mails).

terça-feira, 14 de abril de 2015

Chamemos-lhe, hipoteticamente, Pat ou Patucha ou Patxoca, por exemplossss!

Um dia descobres quem é a tua hater de eleição.
E que até a conheces ao vivo e que, se bem te lembras, as duas vezes que se cruzaram foste bastante cordial com ela. Que a senhora te queria conhecer ao vivo e tudo, que foi ao teu encontro nas vezes que se viram ao vivo, que numa altura em que escreveste sobre a Ana estar com problemas respiratórios ofereceu-se para te ceder uma máquina de aerossóis e tudo (não chegou a fazê-lo).
Mas que, um dia, com pouco que fazer senão estender os tapetes no Parque das Nações, decidiu criar um blog com um título parasita, tentando ganhar protagonismo e visitas através de comentários no teu blog que não aprovaste, pois não dás palco a abutres.
Na altura, ainda que sob pseudónimo, trataste de lhe responder via email ao alter-ego explicando as razões pelas quais não lhe darias palco, mas entre as férias na neve, as reuniões na associação de pais e dondoquices várias, não quis entender..
A partir daí uma fixação fofinha, com posts seguidos a falar sobre ti, os teus posts, as tuas ideias, os teus status, enfim, uma fonte de inspiração que sou para a senhora, mas sempre cheia de confiança e com a sensação parva e ingénua de que ninguém a descobriria. Em paralelo, ofereceu-se como voluntária para a festa da Ana (onde esteve a ajudar) como se nada fosse... Quão doente se pode ser?
Sem moral, sem ética mas com muito tempo livre, talvez porque trocar o certo pelo incerto em termos profissionais não terá sido a melhor escolha, porque a Católica ensina muito mas não educa ninguém, esta pessoa, para quem sempre fui cordial ao vivo, que adicionei na página de facebook da Pólo Norte como amiga, é, afinal, a mais insossa. E se pimenta branca no meu cu já era refresco, agora é, apenas, uma pequenina e insignificante Petazeta que me faz rir de tão ridícula e parva que é.
(Agora identificava-a lá na página de FB, onde ainda a conservo, depois de ver fotografias dos putos, das férias, nome dos irmãos e tudo mas como tivemos, claramente, educações diferentes eu, ao contrário dela- que num comentário a um post escreve o meu primeiro e último nome de forma a aparecer a minha relação com o blog numa pesquisa simples de google, disponível a pessoas da minha esfera profissional e acha isso normal- fico só a pensar como se deve sentir uma pessoa tão poucochinha assim...)

Vimos o primeiro episódio do Game of Thrones e continuamos ren-di-dos!


domingo, 12 de abril de 2015

Mãegyver: "Tradições de família: yes, we can!"

Às vezes não damos por elas mas as tradições de família estão lá: o meu pai, na minha primeira infância, a fazer magia e a aparecerem do céu chocolates Nestlé, a minha mãe, enquanto tomava banho, no caminho para o café ou da escola, a cantar comigo, cantávamos sempre, desafinadas, músicas infantis que ambas gostávamos, a minha avó a fazer lanches de pão com Planta aquecido nos bicos do fogão e leite com cevada e cacau numa mistura que nunca mais consegui reproduzir, o meu avô sempre sentado no mesmo lugar, os desenhos com bonecas sexys da minha tia, as sandes com flores feitas com tomate do meu tio, os Natais sempre barulhentos na sala pequena com pequenos espectáculos representados por mim ou pela minha prima, a aletria com desenhos escanifobéticos feitos a canela a enfeitarem-na e os mexidos a arrefecerem na mesa da casa do tio Necas. 
A infância é feita de muitos pequeninos pedaços de acções com pessoas, espaços e tempos concretos, certezas absolutas que naquele sítio, naquela ocasião específica e na presença daquela pessoa determinadas coisas mágicas e boas irão acontecer. Certezas boas, emocionantes ou apenas aconchechegantes, as tais tradições do dia-a-dia ou das ocasiões especiais. 
Na minha família nunca houve qualquer tradição pascoal. No entanto, decidimos que cá em casa a caça aos ovos passa, oficialmente, a fazer parte das memórias que queremos embrulhar em papel de fantasia para um dia a Ana desembrulhar, no futuro, com o coração aconchegadinho e um sorriso nostálgico feliz. 
E este ano foi assim: