quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Tratado de defesa das pessoas com filhos

Em resposta a isto, acrescento:

As pessoas sem filhos anseiam por sexta-feira. As pessoas com filhos também: para terem tempo de ver um filme até mais tarde com o companheiro no sofá, para, de vez em quando, dispensarem o banho das crias antes de jantar porque pode ser dado sem pressas na manhã seguinte, porque tem montes de programas giros para fazer com os filhos durante o fim-de-semana, porque os jantares com amigos com e sem filhos costumam ser aos sábados à noite, porque continuam a ser gente e a precisar da alegria de ser sexta-feira à noite e dos dois dias de descanso semanal que se seguem: para descansarem ou para o que lhes der na real gana. 

As pessoas sem filhos têm cartões de cinema ilimitado. As pessoas com filhos têm cartão IKEA family, mini-preço, Continente, Chicco, Pré-Natal, cupões de desconto e também de cinema ilimitado. Que não vão ilimitadamente tal como não vão as pessoas sem filhos. Que dão jeito para ver os filmes onde também entram as crianças e os filmes para adultos, sempre que as crias ficam entregues aos cuidados dos avós. E sempre que as pessoas com filhos vão ao cinema gozam mesmo o momento: sozinhas ou acompanhadas. Porque não deixam de ser gente. 

Para relaxar as pessoas sem filhos vão para o ginásio. As pessoas com filhos vão para o ginásio também, se lhes apetecer, ou ler um livro depois de adormecerem as crias, ou ler blogs ou ver montras à hora de almoço, ou conversar com outras mães enquanto as crianças vão à natação. Ou trabalhar, caso os seus trabalhos sejam daqueles que as ajudam a relaxar. Tal como o poderão fazer as pessoas sem filhos em trabalhos análogos. 

As pessoas sem filhos escolhem o restaurante em função do menu, do preço, do chef, da decoração ou da localização. As pessoas com filhos também, tendo o cuidado de providenciarem o conforto dos seus filhos sempre que estes as acompanham, tal como as pessoas sem filhos providenciam o seu próprio conforto e os das suas companhias. Coisas de pessoas que se preocupem em usufruir de uma refeição como uma experiência global em que todos os que se juntam se sentem confortáveis e a aproveitar a ocasião. Porque filhos também são gente. 

Ao sábado à noite, as pessoas sem filhos vão jantar fora, ao cinema e a um bar. As pessoas com filhos vão jantar fora, muitas vezes a casa de amigos também com filhos, onde as crianças até se podem juntar a brincar enquanto os crescidos cozinham em conjunto, bebem um vinho e jantam, depois de lhes dar de comer. Onde há camas para todos os filhos se ajeitarem e o convívio é global. Outras vezes, as pessoas com filhos também, podem ir jantar fora, ao cinema e a um bar, deixando os miúdos pequenos com os avós, os tios ou os primos, ou levando os filhos mais crescidos com eles. Mas, sim senhora, é verdade as pessoas com filhos vão à cozinha aquecer restos no microondas, vêem meio episódio de uma sitcom e adormecem no sofá. E os sem filhos também. I've been there. 

As pessoas sem filhos comem cereais, torradas, sumo de laranja e café ao pequeno-almoço... nas novelas da Globo. 

As pessoas sem filhos sentam-se no sofá a ler um livro e a beber um chá. As pessoas sem filhos esperam que os miúdos adormeçam para...  se sentar no sofá a ler um livro e a beber chá. É todo um mundo de diferenças, está visto...

As pessoas sem filhos vão ao supermercado, fazem compras e regressam a casa. As pessoas com filhos,  também o fazem no caminho entre o trabalho e casa, onde o parceiro já chegou e já adiantou o banho da cria, como resultado de uma dinâmica familiar que sofreu ajustamentos para funcionar, sem esforços, mas com a naturalidade de quem vê o seu projecto de família acolher novos membros. Ah, e as pessoas com filhos aderem ao Continente online (afinal, têm cartões para além do do cinema ilimitado, só vantagens, han?).

As pessoas sem filhos vão domir. As pessoas com filhos vão fazer óó. E também dormir. E também fazer sexo. Pinar. E até procriar mais filhos, porque o trauma das pessoas com filhos não é assim tão grande que as faça todas ficarem-se por filhos únicos. São umas grandes malucas, as pessoas com filhos!

As pessoas sem filhos acordam com o despertador. As pessoas com filhos gostariam de acordar com o despertador mas, muitas vezes, acordam com vozes entusiasmadas a chamarem-nos de "Mãããeee" e "Paiiii" e com braços pequeninos estendidos que depois se enrolam nos seus pescoços e com beijinhos de bom dia. Um inferno!

As pessoas sem filhos vão a esplanadas e ao cabeleireiro. As pessoas com filhos vão a parques infantis e ao pediatra. E conhecem, nesses sítios, também pessoas com filhos que não as acham uns ETs porque decidiram procriar. E que conhecem as melhores esplanadas para que os miúdos os possam acompanhar e circular em segurança e que trocam dicas de cabeleireiras low-cost que fazem alisamentos marroquinos bem em conta para que se escuse de andar sempre no cabeleireiro para se ter um ar apresentável. 

As pessoas sem filhos não sabem quem é a Xana Toc Toc. As pessoas com filhos preferiam não saber quem é a Xana Toc Toc mas concedem esse desgosto como contrapartida de ouvirem pequenas vozes desafinadas a trautearem as suas canções e terem serões coreografados com danças trapalhonas. 

As pessoas sem filhos comem sobremesas. As pessoas com filhos comem sobremesa e o resto das sobremesas deixadas pelos filhos. Toooooomem!

As pessoas sem filhos viajam com uma mochila. As pessoas com filhos viajam como entendem mas preferem não ocupar as costas com mochilas porque elas fazem muitas faltas para oferecer cavalitas!

As pessoas sem filhos praguejam como estivadores. As pessoas com filhos reviram os olhos quando lêem clichés sobre parentalidade e pensam com alguma inteligência emocional: "aproveitando a minha experiência, deixa-me lá explicar isto como se quem acredita nisto tivesse três anos... foda-se!"

Comer, orar e amar sem sair de Lisboa: solução do enigma

Fica na Rua D. Estefânia bem no coração de Lisboa. É uma cantina, à laia de refeitório, mas com uma aura de restaurante gourmet, daqueles que fazem tudo para parecer despretensiosos. Só que não. É zen, cool, claro, arejado e ... genuíno.
Mais do que um restaurante (que não é), este é um verdadeiro espaço espiritual, que alberga um templo desta comunidade de monges que gere todo o espaço (o da comida do corpo e o da comida da alma) e que aqui vive em comunidade. 
A cozinha é indiana vegetariana (cozinha ayurvédica)em regime de buffet e o menu é único e muda todos os dias, pelo que, nos basta sentar e esperar que nos sirvam em malgas de inox enquanto gozamos a paz que envolve os vários espaços do edifício: a sala do restaurante, a esplanada do pátio, a loja contígua e o templo. O preço também é fixo (7€) por refeição completa e só estão abertos ao almoço.  
Mesmo para quem não tem este carácter espiritual vale a pena uma visita ao REFEITÓRIO HARE KRISHNA para poderem comer, orar e amar... sem sair de Lisboa. 

Se tiverem sorte de irem num dia que haja sopa de amendoim, deliciem-se! E não digam que vão daqui!






Um dia escreveste-me isto e hoje já me faz sentido # 4

["As primeiras chuvas: fazem-me lembrar que, hoje e sempre, nem tudo aquilo que parece, na verdade, é. Há uma ideia primitiva, quase ilógica, que flasha o nosso interior quando nos lembramos das pessoas, e daquilo que elas, mesmo sem as conhecermos de mão para mão, podem representar para nós.

As primeiras chuvas. Com elas, quando olhamos para nós vemos os outros, que nos sabem talvez mais tristes, mais incertos, mais débeis, incapazes de fazer vergar, sobressaltados, o nosso esqueleto perante as coisas do mundo, sempre resistentes (e irresístiveis) ao corpo. Possamos estar sentados, fisicamente débeis perante o mundo, e o mundo de nós se vê nele: somos frágeis, o mundo é frágil. Somos nós e o mundo, e nós, de regresso a nós, de passagem pelas coisas.

O mundo sabe de nós como se soubesse dele, e acolhe-nos na inevitabilidade das suas reservas quentes, da sua concha profunda. As cidades aquecem-nos, diria Quasimodo. O nosso sabor é bom, um sabor de bondade.

Esquece-se, porém, o mundo que somos maus. Muitos maus. Que cuspimos Dante e Maquiavel. Que somos o mundo, que estamos feitos em mundo, que somos, repito, maus. Que somos hominídeos. Que somos de pau. De células. De cromossomas frios. De restos do que fomos. Que somos inevitalmente, irremediavelmente, implicitamente nós. Carne fresca. Que somos - e como é bom e fresco! - maus de mundo, em mundo, no mundo."]
 
(JC)

Um dia, o turismo dos Açores distingue-me como açoriana honorária



Quem não foi, não sabe o que perde...

Isto é vi-ci-an-te!

Daqui.