domingo, 24 de maio de 2015

Batemos no fundo

A nova música preferida da minha vida é uma música caipira brasileira que fala de um Macaco Simão. 

Repito: cai-pi-ra. 
Nem sei que diga.

Imagine all the people living life in peace


Casameto gay aprovado na Irlanda.

Fotografia: The Independent

Ideias quadripolares: tricota esta ideia

O desafio lançado ao Município da Amadora e a vários outros do país foi o contributo de quadrados de lã de 30 x 30 cm, feitos em tricô ou croché, que serão unidos e expostos, a partir de 17 de Junho, na Exposição Colectiva de Trabalhos do Programa AmaSénior|Viva+ na Amadora. 

 O “Tricota esta Ideia” tem o fim previsto para Outubro de 2015 com a candidatura ao Guiness World Book of Records, contando ter a Maior Manta do Mundo, feita por um país inteiro. 

Os quadrados deverão ser entregues ou enviados até 5 de Junho para: 

 Município da Amadora 
Divisão de Intervenção Social Centro da Juventude Multigeracional da Amadora 
Travessa de Santa Teresinha 
Brandoa 
2650-118 Amadora 



 Para mais informações pode contactar: 
Tel.: 214369053 
Fax: 214920577 
E-mail: accao.social@cm-amadora.pt

Deixei de beber leite há 5 meses: as vantagens de deixar de beber leite


Tenho que confessar que não senti mudança, rigorosamente, nenhuma.

sábado, 23 de maio de 2015

Maternidade: definição quadripolar

Quando ela é feliz o meu coração pula como quando passamos depressa de carro numa lomba e a seguir há uma descida íngreme.

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 29


Museu dos coches em directo

Agarraram nos coches e despejaram-nos aqui, estacionados num edifício onde ficam meio perdidos, num espaço descaracterizado, sem história e que mais parece um armazém.

Ainda bem que hoje não se paga bilhete.
Ia ficar a chorar o meu dinheiro o resto do mês.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Amor a dobrar

 

 
 
O Bairro do Amor vai, durante o mês de Maio, e ao abrigo do seu Movimento 12:12 apoiar o início de uma família a estrear. Uma família que se vai tornar família porque à mãe se juntarão os gémeos que estão prestes a nascer. Dois pequeninos, prematuros, que se farão anunciar assim que os médicos derem o ok, garantindo a maior segurança de todos os intervenientes. Deve ser esta semana.
Esta mãe é empregada doméstica e tem muitas limitações não só a nível financeiro mas também ao nível das suas competências de parentalidade acrescidas ao facto de não ter uma rede social de suporte familiar consistente.
Ora, o Bairro já tratou do mais importante: uma vizinha enfermeira vai acompanhar, durante um mês, esta família em termos de apoio domiciliário e será a "madrinha do Bairro" destes bebés. E estará sempre disponível, num regime de tutoria, para ajudar esta mãe.
Posto isto- que é o mais importante- o Bairro usará todo o seu orçamento do 12:12 referente ao mês de Maio mais os donativos dos dois últimos meses da marca Mirtilo (obrigada Raquel!) e ainda mais donativos que chegaram, propositadamente, para este efeito para tentar comprar um carrinho em segunda mãe de gémeos. Os carrinhos custam os olhos da cara na Kids to Kids e na OLX mas pedimos a todos os possíveis particulares que leiam este post que nos ajudem a encontrar uma solução exequível. Queremos mesmo resolver esta questão! Idealmente o carrinho deveria ser da Pré-Natal pois temos dois ovos de oferta desta marca que seriam compatíveis, poupando-nos dinheiro.
Já temos banheira, roupinha (mas mais será bem-vinda), temos um esterilizador a frio da Chicco, temos mantas e roupa de cama, temos toalhas. Temos dois berços.
Falta-nos creme muda fraldas, compressas/toalhitas, fraldas às carradas, fraldas de pano, mala de passeio ( para transportar fraldas e mudas de roupa, etc). É capaz de a mãe vir a precisar de uma bomba de leite para extrair em casa se os bebês ficarem internados mais tempo que ela e sacos de congelação próprios - se alguém puder emprestar a bomba era boa solução. Soro fisiológico, aspiradores nasais. A mãe pode precisar de discos de amamentação, também.
Como sabem o Bairro do Amor não foi criado numa perspectiva assistencialista.  Não iremos sustentar esta ou outra família ad eternum. O Bairro do Amor foi criado para ensinar a pescar, para dar um empurrão na vida de pessoas e de ajudá-las a estruturarem-se com os recursos que têm.
É isso que queremos fazer este mês: ajudar esta mãe no seu novo papel, ajudar esta mãe nas despesas iniciais de forma a levar já um balanço para os tempos que se avizinham e ajudar estes bebés a um início de vida mais leve, para que todas as preocupações desta mãe, nesta fase, se resumam a descobrir em si o que é o amor de mãe. Neste caso, para melhorar tudo ainda, a dobrar.
 
Contamos convosco?
 
 

No último fim-de-semana fomos muito felizes

Quando o Ô Hotels & Resorts nos convidou para um fim-de-semana "aventura" torci o nariz. Eu não sou uma mãe radical e mámen também nem por isso. Por outro lado, custa-me sempre o compromisso subjacente de ter que ser simpática com as marcas ou os sítios que me dirigem convites caso não goste dos respectivos produtos ou serviços. Aquela coisa de educação: dizer que se gostou muito quando se achou uma seca ou dizer que foi maravilhoso quando nem por isso, não é para mim. Disse isso logo ali, de manhã, à Vanessa e à Bianca que me endereçaram o convite. Expliquei-lhes também que este blog (e esta família) não são inspiradores nem aspiracionais. Somos reais, o blog é um blog de identificação para muita gente sem glamour nenhum como nós e a nossa família não é família capa de revista. Insistiram que nos queriam proporcionar a experiência e saber, genuinamente, a nossa mais sincera opinião. E eu pensei "caraças, ou não conhecem a minha tão crua franqueza ou são mesmo valentes..."
E confirma-se: são mesmo valentes! Aqui vão as 10 grandes dicas para quem quer passar férias em família num sítio espectacular em BBB (bom bonito e barato):
 
1- O Ô Hotel & Resorts, mais conhecido na região como Hotel Golf Mar, fica a 50 Km de Lisboa. É por esse nome que devem perguntar aos transeuntes no Vimeiro para não correrem o risco de irem parar ao cu de Judas no meio de nenhures. Entrámos numa terriola lá perto e- perdidos- tivemos o seguinte diálogo, num café à berma da estrada:
Eu- "Olhe desculpe sabe-nos dizer onde fica o Ô Hotel?"
Senhor do café-" Desculpem?"
Eu- "Errr, o Golf?"
Senhor do café- "Só um bocadinho que vou ver se ele ainda cá está"
Senhor do café aos groitos para o cozinheiro- "O Golf ainda está por aí?"
Senhor da cozinha aos gritos para o senhor do café- "Não, pá, já saiu!"
Senhor do café para mim- "Já agora podia-me dizer porque está à procura do Golf"
Eu- "Para lá ir dormir?"
Senhor do café- "Com o Golf?"
Mámen a olhar muito sério para mim- "Com quem? Dormires com quem?"
Eu- "Queremos saber do hotel perto do golf, o Hotel Golf Mar, está a ver?"
Senhor do café- "Ah, credo, já não estava a perceber nada! É que nós temos um colega a quem chamamos golf, sabe? Estava-me já aqui a meter num caladinho que ele é casado..."
Parecia um skect do Little Britain, juro.
 
 
 
2- Não se deixem enganar quando virem que é um hotel de 3 estrelas porque o serviço, o conforto, a oferta de pequeno-almoço e das outras refeições, o spa, as piscinas, a vista e os parceiros são 5 estrelas e meia. Este hotel é a nossa cara por ser BBB: é bom, é bonito e é barato. E somo sabem eu sou pelintra, pelo que, quando digo que a relação qualidade-preço é tão boa que até o pobre desconfia vão por mim: vale mesmo a pena.
 
3- É um hotel que mais parece uma casa e que estamos entre família. Depois de três dias já a sabíamos que as gémeas que nos serviam no restaurante se chamavam Ana e Susana e elas já sabiam que nós gostamos de rosé fresquinho (e a quem a Ana cantou os parabéns porque acha que sempre que há velas numa sala é porque alguém faz anos e desta vez lembrou-se que a Susana era a aniversariante, coitada da senhora!), que a menina do spa tinha tirado termalismo nas Caldas da Rainha e que tinha estagiado no também maravilhoso Grande Hotel das Caldas das Felgueiras e ela já sabia que eu gosto de massagens com força no lombo, que o Abílio do Clube Aventura tem uma pronúncia que denuncia que nasceu em Ponte de Lima e que ele conhece a terra dos meus avós e que o Clube Aventura é o quarto dos brinquedos ao ar livre para os miúdos que ali se hospedam com duas amigas de brincadeira maravilhosas: a Cármen e a querida Francisca, que a Ana queria trazer para casa à laia de recuerdo. Nós tivemos ainda um bónus: encontrámos o padre que nos casou e do qual mámen é amigo depois de alguns anos desencontrados e foi um encontro tão mas tão feliz com o padre Cruz que, nem que fosse só por isso, já tinha valido a pena. O que prova que se o Cruz escolhe aquele hotel para os seus retiros espirituais então o hotel só pode mesmo ser top.
 
 
 
4- A vista do mar é inspiradora e propícia à prática da procriação. O hotel fica numa falésia mesmo em cima da praia de Porto Novo, muito pertinho de Santa Cruz. À noite ouve-se o mar e de manhã a luz sobre o mar é inspiradora. A Ana olhou pela varanda assim que acordou e lançou um poético "Olha mãe, as ondas estão a chegar!" Tendo em conta a quantidade de bacoradas que a minha filha diz por minuto só se pode acreditar que o hotel inspira mesmo. Até os mais incautos.
 
 
 
 
5- A comida é brutal. Pronto, como sabeis "este corpinho de sereia" não se alimenta de coisas detox e sumos light. Eu gosto de comer. E de comer coisas boas. E apesar de adorar os pequenos almoços de hotel genericamente, na verdade as refeições costumam ser coisas muito mixurucas e gourmet- nhecas. Aqui foi tudo bom: o pão de alfarroba receita do próprio hotel devia ser patenteado, a ideia de ter uma pessoa só encarregue de fazer crepes ao pequeno-almoço deveria ser massificada e o bacalhau com broa que comi no almoço de domingo foi, provavelmente, das melhores coisas que já comi na vida. Escusado será falar nas sobremesas. A tarte de frutos silvestres era divinal, a mousse caseira era fabulosa e a Ana- que nem é fã de doces- provou os morangos com chantilly e disse que era "neve com açúcar" (cit.). A última vez que bati chantilly cá em casa a Ana cuspiu-se toda de enjoada. É para verem... Agora à laia de intriguistas: vimos o padre servir-se de sobremesa 4 vezes. Repito: quatro. E se alguém deste calibre arrisca desta forma no pecado da gula, caraças, então é porque tem mesmo que valer a pena...
 
5- Tem piscinas para todos os gostos. A piscina interior é espectaular, enooooorme e quentinha. A exterior é fantástica, imeeeeensa e geladinha. Único problema: as toucas que lá se vendem são super apertadinhas e fazem-nos parecer ter cabeça de anti-conceptivo masculino e dão-nos um ar de tonhós: tragam as vossas de casa!
 
6- A praia é a 50 metros. E há uma praia mais concorrida mesmo do lado esquerdo e uma de acesso difícil e mais deserta e maravilhosa do lado direito (desculpa, Sofia, tenho mesmo que revelar o segredo da tua praia!). O areal está limpo, o acesso à praia é bom e dá para pessoas com mobilidade condicionada mas a água é geladíssima. Botei um dedinho do pé e ia morrendo. No dia seguinte, logo pela matina, fui à varanda e vi novamente o padre a tomar um banho de nascer do dia nas águas. Acho que foi a sua penitência para a gula da véspera... ;)
 
7- Tem spa. Tem uma massagista querida que me identificou contusões várias e não sei como não desatou a correr assim que viu as minhas costas. e que me fez feliz durante uma hora. Tem ginásio para quem gosta de ginásio (passo essa parte). E tem um club de surf com aulas para família e uma dinâmica muito gira para quem é dessas coisas. Tem, portanto, um manancial de actividades que não nos convidam a sair do perímetro do hotel que se torna, assim, bastante completo e familiar.
 
8- Tem a coisa mais maravilhosa de todas: o Vimeiro Clube Aventura que organiza actividades para toda a família: escalada e rapel, paintball e slide para os mais afoitos (nós não, pois está claro); passeios de bicicleta (e, sim, ainda não me esqueci de andar e soube-me mesmo bem, apesar da solidão já que mámen não sabe biciclar yô o meu marido não é fá de bicicletas); passeios de canoa pela lagoa de Óbidos, tiro com arco, birdwatching e - o auge para a Ana- um espaço fun kids. E foi bonito de ver a Ana descalça na relva a jogar à bola, a saltar ao trampolim, a escorregar nos insufláveis, a roer maçãs, a encostar-se ao colo da Francisca (a melhor monitora do Mundo) sem a conhecer mas com a intuição de quem se pode confiar enquanto via um passarinho bebé que caira do ninho (e de quem, mais tarde e já em casa, com a sensibilidade que puxou a mim, se lembrou que deveria ter trazido consigo para... o comer!), a fazer desenhos, a pintar, a rebolar na relva, a sujar-se e a dar gargalhadas. Já se sabe que quem meus filhos faz feliz minha alma adoça e o Clube Aventura- com a Carmen, a Francisca e o Abílio- veio no nosso coração (faremos aí uma festa de aniversário da Ana: é uma promessa!).
 
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9- Beba-se água da torneira ou da garrafa há uma garantia gourmet: bebe-se sempre água do Vimeiro. E que bem que sabe, caramba!
 
10- Porque assim que chegarem, aconteça o que acontecer, serão acolhidos na recepção pela Cristina Ferreira. A própria. E mais não digo.
 
 
Obrigada, Ô Hotel Golf Mar e Vimeiro Clube Aventura! Adorámos.
 
Voltaremos nas férias. Já sem convite. A pagar. E essa é a prova mais que justa de que gostámos mesmo. E voltaremos para a renovação dos votos no próximo ano: promessa feita ao padre Cruz! Que , afinal de contas, mais do que qualquer blogger que possa dizer coisas fixes acerca de vós e sem receber nada para além de uma mesa de sobremesa apetitosa, é, afinal o vosso mais confiável embaixador!
 
Afinal, têm mesmo razão para serem valentes!
 
 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

No último mês cresci.


A mudança tem sido gradual. Não silenciosa que dou por ela como aquelas dores na parte de trás das pernas quando estamos a crescer. Dói mas tu sabes que vais passar e que, quando passar de doer, vais estar mais alto, mais desenvolvido, melhor.
De repente começas a pensar numa série de coisas de senso comum, óbvias e que sempre estiveram lá, mas que não são prática comum. E apetece-te experimentar, deixar de ter medos, arriscar e tentar fazer diferente. E depois vês que assim és mais feliz, que entre ter que estar sempre certo ou fazer certo, preferes a última, e que a paz tem um valor incalculável. Que na vida nem tudo tem que ser competição, que as tuas vitórias não podem estar dependentes da derrota dos outros, que as tuas vitórias são mais vitórias quando há outros de quem gostas e que ganham contigo, comemoram contigo e que as diferenças devem ser celebradas. Que se duas pessoas pensam igualzinho, têm a mesma opinião, então uma delas é dispensável à discussão, que os diferentes pontos de vista fazem-te chegar a sítios onde, sozinha, nunca conseguirias chegar.
No último mês decidi que ia construir uma missão, uma visão e valores para a minha vida. Caramba, se as empresas precisam disso para as orientar, para saberem onde querem chegar, como o vão fazer para alcançar os seus objectivos, com que princípios se devem reger, porque não transportar esta visão para a minha vida. Fi-lo.
Não é um mantra (não acredito muito em mantras). Não é uma verdade absoluta (deixei de as ter). E- provavelmente- não é nenhuma receita universal para os outros. Mas é a minha missão:-é onde eu quero chegar, é o que eu quero ser:
"Ser a pessoa que a minha filha espera à porta quando nos reencontramos no final de cada dia".

Tanto e tão pouco.

sábado, 16 de maio de 2015

(Des)acordo ortográfico

" texto de João Pereira Coutinho

PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO
(10 JANEIRO 2012)
Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?
Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?
A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras
ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os
portugueses.
Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.
Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.
Questão de educação.
Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.
A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.
A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.
Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?
Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista,
que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.
Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.
Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.
Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.
Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.
A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos;
faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.
Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.
Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.
Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.
De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?"


A família é a minha casa

(ilustração: Martisses)


A minha mãe é os meus alicerces. As fundações de mim, seguras e inabaláveis, à prova de sismos e intempéries, a base que sustenta tudo, o que ficará e restará se tudo o mais ruir.
Os meus tios e prima (e avós) os pilares que ajudam a erguer-me, a apoiar a base, a sustentar o telhado.
Ele é as minhas paredes, tudo o que me protege, tudo o que me acolhe, elemento contentor.
A Ana é as portas e as janelas, maçanetas coloridas, peitoris com flores, vidros transparentes, ar a entrar para arejar a minha vida, cortinas às pintinhas, tapete de entrada da minha vida.
As minhas pessoas albergam-me. Eu habito nas minhas pessoas.
Eu moro na minha família.