[O meu avô morreu.
No Verão. Ninguém devia morrer no Verão. Nem na Primavera sequer.
Dói-me ainda a alma. Dói-me o pai sobressalente, dói-me o o meu avô. Dói até à medula. Sente-se um gelo no corpo e nas mãos, mesmo que seja Verão lá fora.
Não passou, é mentira quando nos dizem que vai passar. E o tempo também não vai ajudar coisa nenhuma. Primeiro vem a incredibilidade, a sensação que somos os únicos lúcidos e que anda tudo louco e a pregar-nos uma partida de mau gosto. Depois, vem a raiva. Principalmente a raiva por eles nos terem feito esta desfeita, por nos terem deixado, por terem permitido que o coração parasse, mesmo sabendo que os nossos corações estavam ligados umbilicalmente ao deles. Depois, o evitamento: não querer recordar as memórias, mesmo as boas. A fuga do pensamento para evitar sofrer.
O que vai acontecer, depois, é que se acaba por ter que aprender a viver muito a custo com o coração amputado. Podemos continuar a viver, mas nunca da mesma forma que antes. Podemos arranjar muletas emocionais, ortóteses para a alma, cadeiras de rodas para nos ajudarem a ultrapassar as barreiras arquitectónicas dos dias, mas nunca mais o nosso coração correrá da mesma forma. Mas não nos resta mais nada, senão continuar.
E falam do meu avô no passado e ele nunca me vai passar.
Sei-o tão bem, agora.]
7 comentários:
Beijinho grande...acho que consigo perceber-te tão bem...Continuo a sofrer a ausência da minha avó, mas sabes, acho que fomos sortudas em ter assim avós tão especiais nas nossa vidas...
Não há nada nem ninguém que preencha o espaço que fica na nossa vida quando morre alguém que amamos! Resta-nos multiplicar o espaço que preenchem no nosso coração, esse tal que não é músculo voluntário! Beijinhos
E todas - TODAS - as alegrias da vida daí para a frente são agri-doces, porque ele não está lá para as partilhar.
Lindo texto, muito mesmo. Beijinho. Há-de estar contigo, onde quer que esteja. E isto ajuda a que passe, porque é verdade e tu sabes.
O meu grande Homem, nascido em 1900. Ainda hoje estaria avançado no tempo. Ainda hoje está.
"Olha o meu ganhão..", disse-me. Sorrimos, sabendo que ali era a despedida.
Identifico-me mais com esse texto do que possas pensar...
Nunca passa, mas melhora :)
Beijo*
Viver com o coração amputado. É isso!
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