quarta-feira, 1 de outubro de 2014

4'33 (quatro minutos e trinta e três segundos)


John Cage foi um compositor que, certo dia, decidiu entrar numa câmara anecóica para experimentar o silêncio profundo. Uma câmara anecóica é usada muitas vezes para testar a precisão dos microfones, aparelhos auditivos e outros instrumentos de trabalho com o som. Depois de Cage entrar na câmara saiu frustrado: afinal, tinha ouvido dois sons- um alto e um baixo. Assim que saiu da dita câmara inquiriu os cientistas que o acompanhavam acerca da falta de precisão do silêncio e dos dois sons que tinha ouvido, pelo que,lhe foi explicado que o ruído mais alto era o do seu sistema nervoso central a trabalhar e o mais baixo do seu fluxo sanguíneo a circular.
Cage quis ir mais longe na experiência e decidiu compor "4'33" para poder transmitir a complexidade do silêncio. A composição trata-se precisamente de mostrar que a música também é feita de pausas, de silêncio, pelo que o silêncio também pode ser intercalado por música. Assim, "4'33" é uma música que não possui nenhuma nota, sendo composta inteiramente por pausas.
Na primeira apresentação pública desta obra, o pianista convidado para interpretar a peça entrou no palco, abriu a tampa do piano, e permaneceu sossegado; interrompendo o silêncio em alturas próprias e com convicção apenas para mudar a página da partitura.
Numa primeira fase, o público permaneceu imóvel e sereno à espera do´início musical da composição. Depois ficou meio absorto, tentando compreender o porquê do silêncio, mas passados alguns segundos começaram a ouvir-se tossidelas, sussuros, conversas, e, finalmente, o protesto colectivo.
Posteriormente, o compositor explicaria que "4'33" não é uma música composta apenas de silêncio. A música, na realidade, era formada pelos sons ambientes dentro do teatro: pelas tais tossidelas, sussurros e pelo burburinho.
Ou seja, "4'33" é uma música única, pois é diferente de cada vez que é apresentada dependendo dos barulhos da audiência que assiste ao concerto.
Com isto Cage quis provar o que tinha aprendido quando da sua experiência na câmara anecóica: que não só é mais difícil fazer silêncio do que música, de que todas as pessoas conseguem fazer música e de que onde há matéria nunca pode haver silêncio absoluto.

11 comentários:

Pulha Garcia disse...

Muito bom, ma bear. Do melhor que tenho lido aqui.

Salvador disse...

O John Cage (prefiro o John Cale) e os '4,33' estão para a Música como o João César Monteiro e a 'Branca de Neve' para o Cinema. Para mim, que não tenho sensibilidade nenhuma a determinadas expressões 'artísticas', nem os 4.33 são música nem a Branca de Neve é cinema. Mas imagino que aos autores lhes deve ter dado um gozo tremendo observar as reacções do público.

Um bom dia, Polo ))

Prezado disse...

A que devemos este interlúdio intelectual?

Fernando Vasconcelos disse...

É uma obra polémica ... uma coisa é certa o silêncio faz parte da música. Se "apenas" silêncio é música ou se os "sons" são música é um debate no qual não vou entrar :-) Admito que desse ponto de vista sou demasiado conservador :-) ... Esta peça tem de ser vista em meu entender como um "statement" uma experiência se quisermos e não como uma obra "per se" - mas é claro que existem pessoas que não concordam comigo a começar possivelmente pelo seu autor.

Menino da Mamã disse...

Era também o advogado meio avariado n'Ally McBeal.

DeLítio, Puro DeLítio disse...

Silêncio absoluto? Só mesmo no vácuo.

Cuca disse...

A ursa é uma blogger tão completa que até nos dá música e tudo. Muito bom.

João disse...

e há uma, apenas uma salinha dessas em Portugal!

Susana S' disse...

dei disto no meu primeiro ano da universidade! no curso de design.....

Loba das Estepes disse...

O vídeo não existe... :(

Emília Castilho disse...

Sou professora de Educação Musical e no sexto ano de escolaridade, quando chegamos à parte da matéria dedicada ao século vinte, faço questão de colocar o vídeo desta obra aos alunos e levá-los a serem espetadores....é muito interessante ver as reações deles e depois é muito engraçado explorar com eles o significado da mesma. Creio que é fundamental mostrar coisas diferentes às crianças, principalmente quando são de um meio interior e raramente conseguem ter acesso a espetáculos musicais, além de que acredito que é preciso levá-las a ouvir o mundo de outra maneira, sem preconceitos. Obrigada, adorei o texto.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...