quinta-feira, 22 de junho de 2017

[ verdade ou consequência? ]



[I'm not a people person. Durante anos achei que sim: que gostava de pessoas. Que gostava mais de pessoas que de animais. E, já para o fim, percebi que quanto mais conhecia os outros mais gostava de mim. Criei um grupo no facebook com esta frase e juntaram-se 2012 pessoas. 2012 é um belo número. Tenderá a decrescer, estou certa.
Mas voltando ao fim- ao passado pintado de fresco- fartei-me de pessoas. O que é chato tendo em conta que a matéria-prima da minha profissão são esta espécime de seres vivos. Irei à falência em breve por saturação da dita matéria-prima. Não perco o sono com essa possibilidade.
As pessoas falam muito. Eu, inclusive. Falo demais e quando quero parar de me ouvir parece que não tenho qualquer controlo sobre a matéria e falo até me doer a cabeça, de tanto me tentar escutar. De me ouvir por dentro e por fora. Sim, por dentro. Se tapar os ouvidos e continuar a falar, as palavras surdas fazem-se ouvir à força como se debaixo de uma água de pensamentos altos e ensurdecedores. Uma voz interior maior. A borbulhar. A verdade é que não é pelo facto das pessoas falarem muito que me aborrecem. É, essencialmente, por não dizerem nada de jeito. E por acreditarem que sim. Percebi que a realidade não existe, existem meras especulações.
 minha livraria preferida fechou. O Pedro logo dissertou horas a fio sobre as causas de encerramento da dita: que os donos eram dois burguesesinhos que trabalhavam para aquecer, que se endividaram porque quiseram ter uma livraria numa zona chique da cidade, que eram especialistas das palavras mas péssimos no que dizia respeito aos números. Quando inquiri o João sobre a fonte daquelas afirmações, não me soube precisar. "Ouviu dizer por y, x e z que conhece o primo do cunhado da nora da empregada da ex-dona da livraria" e, entretanto, a verdade - que é o que é e não o que se vai ouvindo dizer aqui e ali- perdeu-se algures. E o mais grave é que isso não interessa a, rigorosamente, ninguém. As meias-verdades chegam-nos. Somos do século em que interessam mais as opiniões que os factos, as deduções/intuições/especulações que as evidências.
 Talvez porque as evidências são tramadas de se encontrar: dão trabalho que se farta. Talvez por isso as pessoas continuem a falar do que não sabem, sabendo que com isso matam as verdades. Vive-se em quintais de verdades plantadas por uns, regadas por outros quando a verdade é uma erva-daninha. Nasce por geração espontânea e é o que é: a verdade selvagem que nasce ao pontapé em terrenos baldios.
Lembro-me dele.
O Gustavo gostava de dizer algumas verdades. As suas verdades. Dizia-se directo. Mas fugiu quando sentiu que era hora de as ouvir.
 Falar dá jeito, ocupa espaços de silêncio, distrai. Ouvir os outros não tem graça, podemos não ter tempo de nos defender, ainda que na maioria das vezes não haja defesa possível porque- lá está- a verdade dos outros nem sempre coincide com a nossa. Passa a ser uma mentira, portanto. 
Aborrecem-me as suas justificações, aborrece-me que ele precise tanto de se ouvir e precise que eu sirva de espectadora naquele monólogo monótono e entediante. Fartei-me dele. Como tantas outras vezes me fartei de pessoas que acreditam que a verdade delas é a verdade universal. Não tenho pretensões de acertar nos atalhos da vida e nos temas de conversa discutidos nas mesas dos cafés. Gostava só que me apresentassem factos reais e não interpretações. 
Nestas alturas lembro-me porque escolhi o agrupamento científico e não humanidades no liceu. Somos do século da supremacia das opiniões e das verdades absolutas instantâneas. 
 Neste jogo, prefiro sempre a consequência.]

[repost]

11 comentários:

Joana disse...

Gostaria apenas de dizer que estas letras são uma tortura para os olhos. De qualquer forma, bem vinda de volta à blogosfera!

The Love Coach disse...

Este texto lembra-me o porquê de me ter apaixonado por Ti.

Bem-hajas querida Ursinha*

Abraço,
The Love Coach

Carla disse...

Brutal, simplesmente. Parabéns!
Não me é possivel concordar mais!

O Peru Ressabiado disse...

Tão bom, tão bom!
Welcome back!

m, disse...

estamos num mundo em que não se questiona a consistência do que se diz .. a verdade é que metade das coisas são menos consistentes que gelatina . realço : bem menos .

Bigodes de Nata disse...

Onde é que eu já li isto? Ou melhor, em que ano escreveste isto? Eu sei que já li isto!!!

Bem, passando à frente, o FB já não chegava, apesar das ideais geniais que tinhas para pôr o pessoal a dizer palermices. lool

Beijinhos daquela que tem um nome esquisito.

Almofariza disse...

É a terceira vez que leio este teu texto e acho que não vai ser a última. É daqueles a reler.
Acho que é a idade que nos faz mudar tanto...

Cadês
Almofariza

Pólo Norte disse...

Bigodes de nata,

Leste isto na volta ao verão em quadripolaridades... :)))

(Adoro o teu nome)

Pólo Norte disse...

Almofariza,

Está assim tão confuso??? :P

Ana Filipa Matos Silva Oliveira disse...

"Gostaria apenas de dizer que estas letras são uma tortura para os olhos." Assino por baixo. Acho que são pequenas demais, magras demais, com pouco espaço entre as linhas... demais... Mas se calhar é opinião a mais ;-)

Filipe Gomes disse...

Cara Pólo Norte,

Muito, muito, muito obrigado por isto. Especialmente pelo excerto:

"E o mais grave é que isso não interessa a, rigorosamente, ninguém. As meias-verdades chegam-nos. Somos do século em que interessam mais as opiniões que os factos, as deduções/intuições/especulações que as evidências.
Talvez porque as evidências são tramadas de se encontrar: dão trabalho que se farta."

Tenho andado para escrever sobre isto mas ainda não encontrei a forma certa de pegar no tema. De qualquer modo, muito obrigado por partilhar este texto.

Filipe Gomes.

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