Ontem, depois de ter lido a sua crónica no Público, não pude deixar de ir à estante, olhar para todos os livros da sua autoria, perfilados e esquizofrenicamente arrumados por data de publicação e sabia ao que ia: aquela capa com a Maria João a segurar uma couve.
A Maria João de quem, tantas vezes tive ciúmes em abstracto - não da Maria João mulher mas da Maria João musa, a Maria João destinatária de todas as suas palavras, mesmo aquelas que não lhe dedicou directamente, a Maria João dona do amor de um poeta, mulher petrarquista talvez.
A Maria João, receptora de um amor maior, de um amor de capa de livro, do livro com mais páginas, e- ainda que não chegasse- a Maria João a quem o dedicou em exclusivo porque há alturas em que o amor não pode ser dividido, por ser- lá está...- um amor maior.
Li todos os seus livros. Todos. Acompanhei cada paixão implícita nos textos mais antigos, cada projecção de amor secreto nos que se seguiram. Até que chegou a Maria João, personagem de muitos textos, figurante de todos os outros, dona do poeta, enfim. A Maria João que se materializou naquela capa, olhos de mar, livros doutos na estante que serve como pano de fundo à fotografia, cabelo apanhado e sorriso genuíno, cá da terra, como a couve Portuguesa que segura nas mãos.
Ao ler a sua crónica, não pude deixar de me lembrar do meu primeiro Dia dos Namorados depois de casar. O meu avô também aí estava internado e naquele 14 de Fevereiro jogava o Benfica. Depois da hora da visita nocturna, ele pediu-me que ficasse um bocadinho mais, a ver com ele o jogo de futebol. Olhei para o homem que mais amei até hoje e não foram precisas palavras.
E, de repente, uma paz profunda. Voltei a olhar para a fotografia da Maria João musa, a Maria João de sorriso rasgado, a Maria João que veio contrariar a premissa que o "Amor é fodido". E sei que se tirássemos folha a folha daquela couve, como se faz com os mal-me-queres, a resposta seria "Bem me quer" porque é assim que todos queremos a Maria João. E sabemos que vai correr bem.
Envie-lhe um beijo por nós, leitores desse amor maior. Porque, sim, o IPO pode ser um sítio romântico- atesto-lhe eu- ainda que vivido a três e com o Benfica a jogar como música de fundo.


















