Quando uma morte te rouba alguém crucial há um receio inconsciente de que nada voltará a ser como dantes (e não volta) e de incerteza face ao futuro sem aquela pessoa.
No entanto, quando pertences a uma família para quem o conceito de família nuclear engloba dez pessoas e com uma cultura minhota, tipicamente matriarcal, o medo de como se reorganizará a família depois da morte da geração mais velha agudiza-se.
Quando o meu avô morreu penso que todos sentimos isto. De como ultrapassaríamos a tristeza do lugar vazio à mesa, o silêncio em vez das gargalhadas após cada anedota, o comando parado e a televisão sem zapping. De como passaríamos a gerir a vida sem o "pai de todos", a pessoa que resolvia os problemas maiores, que fazia as coisas acontecerem de uma forma tão natural, que parecia uma espécie de Deus da família, amuleto de todos nós. Penso que, cada um à sua maneira, foi aprendendo a lidar com o vazio e a dor, embora a noção de família nunca estivesse posta em causa, porque havia a avó, estoicamente a mulher das vidas de todos e de cada um de nós, a pessoa que, mesmo velha, continuava a juntar as pessoas, a ligá-las, a servir de porto de abrigo e ponto de encontro para todos nós.
Com a morte dela, na missa de 7º dia, olhei em redor e tive muito medo de deixarmos de ser a família, orfãos que estávamos de um denominador comum. Olhei para a minha mãe, meus tios e prima e vislumbrei cada um isoladamente e senti um calafrio. O clã estava fragmentado, fragilizado, saqueado do seu bem maior.
E esta sensação corroeu-me durante dias, semanas. Já não havia um lugar marcado para nos encontrarmos, uma razão para estarmos juntos, uma pessoa que nos fizesse convergir. Cada um passou a dispor do tempo que antes era para todos de uma forma mais isolada e a reorganização da vida de cada um foi feita à medida das necessidades individuais.
No domingo passado, como diria o Sérgio Godinho, "foi domingo no mundo". Não houve combinações prévias, marcações de hora. Ao acordar, apenas uma saudade imensa do barulho da família, das vozes a sobreporem-se umas às outras, do cheiro dos que são nossos. Telefonei a cada um deles e, a pretexto de umas iscas, à uma da tarde, à volta da minha mesa. lá estávamos todos, sobreviventes de um amor maior.
Na cozinha, fechei os olhos e ouvi o burburinho. Ao longe reconheci as expressões típicas e adivinhei os tiques e gestos próprios de cada um, enquanto falavam. Ouvi os risos e os planos. Ouvi a alegria de se acreditar que a vida se reinventa. E que há coisas que nunca mudarão.
E senti, com uma paz profunda, que a minha avó fez um bom trabalho. E deixou um legado para sempre: uma família.
27 comentários:
E não há coisa melhor que uma familia!
bonito, miúda
beijo
Minhota de gema, a minha famíia sempre foi matriacal e lembro-me de em 2009 ter pensado exactamente o mesmo aquando da morte da minha avó.
Mas, tal como contas, a família manteve-se unida. Os tios estão cá, os primos continuam primos-irmãos e os agora 13 elementos continuam a ser a minha casa. A minha avó também fez um bom trabalho.
Beijinhos Pólo Norte, há muito que é uma rotina ler o que escreves.
Ó Ursinha mai linda. Um grande beijo. Gosto muito desse teu lado :-)
A tua avó, lá em cima, deve estar a rebentar de orgulho.
:) isso é que é bom... a família poder unir-se, celebrar o amor, a união familiar... A saudade fica, claro, mas o amor da família também permanece.
E os lenços aqui para a chorona?!
Lindo texto.
Este texto, tal como os outros que tens escrito desde a morte da tua avó, deixa-me com o coração apertado.
Perdi há quase 2 anos o meu avô, há quase 6 meses a minha avó. Foram assim, partiram de repente apesar das doenças que os consumiram e levaram lentamente. Nos dias de velório e funeral da minha avó, organizamo-nos de maneira a duas ou três pessoas preparem as refeições para os restantes, iamos revezando-nos na Igreja... o almoço após o funeral foi tão estranho para mim. Ali estávamos, cada um consumido na sua própria dor, mas a partilhar, a conversar e também a rir. Porque a família continua, porque o legado dos meus avós, de ambos, continua através desta parte da família que realmente importa (porque os outros, que são supostamente do mesmo sangue mas já não comungam da mesma união há muitos muitos anos, esses já nem contam...).
Os avós irão sempre fazer-nos falta e deixar saudades... mas a maior prova do nosso amor é mantê-los vivos na nossa união, na forma como perpetuamos o que eles construiram.
E é engraçado, somos minhotos também :)
Tão bom:)
Fogo, pah! Fizeste-me chorar. :)
Sei tão bem do que falas e, às vezes, até pode demorar anos a encontrar-se esse equílibrio, mas encontra-se e sabe tão bem e é tão bom e, acima de tudo, tão caloroso. :-) Tão, mas tão familiar! Sei tão bem do que falas... :-)))
Como eu te entendo. Cá por casa, esse lugar era da minha mãe, o pilar desta família... ainda hj o meu filho mais velho(20 aninhos) sente-lhe a falta que até doi ouvi-lo falar dela... a melhor maneira que temos para honra-los é sermos como eles... humildes e simples... :)
uma beijoka para ti
bonito! e isso é a força que nos leva sempre em frente!...
Minhota, transmontana ou algarvia, quando a família é o nosso bem maior e o nosso porto de abrigo o sentimento de vazio e perda é comum. Conseguir manter a contas juntas quando o fecho da pulseira se perdeu é realmente o mais difícil! Obrigada por tornares o meu dia mais quente...
Não podia estar mais ligada ao teu texto....
Não seria possível estar mais "ligada" ao seu texto....
vou repetir o que já foi dito... acabei de chorar baba e ranho. e que familiar é esse sentimento e medo que descreves. perdi o meu avô, o meu mais que pai, e agora agarro-me com todas as forças à minha avó o pilar da familia.
obrigada pela partilha. é bom e reconfortante saber que tudo se acaba por resolver.
Quando a minha avó morreu, matriarca que geria com punho de ferro as reuniões familiares, (8 filhos/as + 8 enteados + 24 netos), tudo se eclipsou.
Era ela que segurava as pontas. Actualmente não vejo alguns dos meus primos à mais de 4 anos.
Tens de facto muita sorte. :)
Parabéns à tua Avó. Penso que cumpriu e bem a maior benção de uma mulher....a família.
Cadês
Almofariza
Boa cachopa! Gosto quando escreves assim... :)
:) beijos no coração
Minha querida, há 11 anos perdi um dos pilares da minha vida e ainda hoje sinto que não recuperei.
Infelizmente as coisas mudaram desde que ele morreu.
Beijo grande
Beijo enorme miuda, não te sei dizer mais nada, apenas que acredito que enquanto recordarmos as pessoas com amor elas vivem connosco nesse amor.
Tocou-me muito este post. Porque entendo perfeitamente o que sentes...
Caraças, que me puseste a chorar!
Percebo-te.
http://almadarkangel.blogspot.com/2012/01/fazes-me-falta-tanta-falta.html
Que lindo post. E é verdade! Havendo amor e união tudo se reorganiza, e possível reinventar novas formas de estar juntos.
Foi bonito isto :)
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