"Hoje é dia do Pai e diz-se que a lua parece maior. Curioso como a visão que tenho do meu pai é como a lua: foi tendo fases.
Quando era pequena, o meu pai era uma lua cheia. Ensinou-me a vencer a timidez, a não ter medo, a ser imprevisível. Mostrou-me o calor do colo e o quão alto eu podia ascender, a começar pela altura dos seus ombros, sempre que me empoleirava às suas cavalitas. Fazia-me rir com cócegas sem fim e disputava comigo concursos de quem comia mais batatas fritas. Fazia "magia" com chocolates da Nestlé que caiam do céu e foi o meu Pai Natal até aos 8 anos, quando os meninos da escola primária já gozavam comigo por eu acreditar na mítica figura. Era o melhor pai do meu Mundo e isso tornava-me mais forte, mais completa: a filha do meu pai.
Depois partiu, num dia de Setembro, tal quarto-crescente. Durante anos não o vi e a lua- outrora cheia- foi esvaziando, progressivamente, as memórias boas. O som das gargalhas em uníssono foi esquecido. O cheiro do seu rosto barbeado foi sendo confundido com outros odores. Os dias em que me carregava às costas enquanto nadava na ria de Aveiro foram sendo apagados, ao mesmo tempo que as fotografias foram ganhando pó, por ninguém querer sequer tocar nelas. A memória tratou de seleccionar os episódios e o tempo foi somando dias e dias à minha existência como orfã de um pai vivo.
Dez anos de ausência e o meu pai era como o quarto-minguante. Uma figura cada vez mais imaginada, menos real. Cada vez mais vazia de sentido e significado. De emoção. De amor?
Foi preciso crescer para aceitar o meu pai. Não para compreender, não para o conhecer mas para o aceitar. Talvez tenha seguido Psicologia com o verdadeiro desejo que pudesse chegar este dia. O dia em que consigo ver o meu pai com a distância do tempo passado, das feridas cicatrizadas, da racionalidade: como um homem.
Sim, hoje é apenas um homem. Lua nova de pai."
Pólo Norte (19-03-2011)
7 comentários:
O meu sempre foi o homem! :s
não percas o que é teu.
Lindo e cheio de sentimento este texto! Inteligentemente escrito!
Parece que foi escrito por mim, podia ter sido, pois passei exactamente pelo mesmo e quando eu tinha 8 anos ele foi embora e deixou-me a mim e ao meu irmão, agora há 5 anos voltou, e consegue ser um avô fabuloso, mas para mim, é apenas isso o avô, e não o meu pai, os remorsos não são suficientes para eu esquecer, perdoei, mas não tenho amnésia e na minha cabeça e coração não existe o meu pai.
Vou escrever uma notinha para não me esquecer de reler este texto até ao dia da mãe. E quando o dia da mãe chegar pode ser que doa menos!
Parabéns pelo texto!
Adorei o teu texto!! ;)
Que texto tão sentido. Sou uma sortuda: o meu pai sempre foi uma lua cheia.
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