Como é sobejamente sabido nestas lides eu não sou uma 'ssoa que ligue, por aí além, a sapatos. Pronto, crucifiquem-me!
Já o expliquei por duas vezes
aqui e
aqui e não faço intenções de voltar a falar no assunto.
Mas vá, era o dia do meu casamento e achei que deveria levar dois pares de sapatos: uns de 20 cm para entrar na Igreja (assim com'ássim ia de braço dado e sempre me apoiava no braço do padrinho) e umas sandálias baixinhas para andar na "cobóiada" no copo d'água. Dito e feito.
No dia da boda acordei, às 10h da manhã, com uma sms do noivo "Tu vais aparecer, NÃO VAIS?". Um espirituoso, enfim.
Casar a seguir ao almoço foi a melhor decisão que tomei: tive tempo para adormecer com as minhas primas depois de muita risota, fiz um belo sono de beleza, acordei, fui ao cabeleireiro e depois maquilhadora em take away.
A galhofa começou de manhã: fomos a um cabeleireiro de shopping. Provas de penteados? Apanhados? Cachos e canudos? Espera aí que já te atendo: "Queria fazer um brushing, sff!"- pedi à cabeleireira.
A moça assentiu que sim e inquiriu as damas de honor "E as meninas, querem fazer o quê?". Cada uma pediu um penteado mais elaborado e lá tiveram que explicar que iam para um casamento. A cabeleireira, olhando com um ar desenchaibido para mim, exclama: "E a menina também foi convidada? E só vai esticar o cabelo???".
Resumindo, ficou cheia de pena de mim quando lhe disse que a puta da noiva não me tinha convidado porque em tempos tinha dormido com o agora noivo dela mas que, assim com'ássim, fazia companhia às minhas amigas na ida ao cabeleireiro e sempre dava um jeitinho ao cabelo. Resultado: 15 € de brushing e não digas que vais daqui!
Chegada a casa realizei um velho fétiche: cantar a música "Estou na lua" vestida, ou neste caso, despedida a preceito. "Toda nua só com um véu, só com um véu, só com um véu...".
A maquilhadora foi lá a casa e encheu-me de betume. Enfiei o vestido e desatei-me a rir. Tive a clara sensação de que estava mascarada e senti-me como em pequena a ver-me ao espelho vestida de sevilhana, divertida com aquela persona que eu encarnava.
"Ála" que se faz tarde e fui para a Igreja. Ao longe a minha mãe vestida de... encarnado (nota para as interessadas: não incluir a minha mãe nos preparativos da manhã foi, igualmente, uma ideia de génio! Dei-lhe tempo para tratar da sua beleza e não me stressou a minha!). Sim, a minha mãe levava um Fátima Lopes encarnado... de umbigo à mostra! A minha sogra de cinzento rato e preto a contrastar. A asa de grilo alugada do noivo passeava-se no meio dos fumadores à porta da Igreja. Tudo normal, portanto.
Sai Pólo Norte e damas de honor, avista-se a passadeira encarnada e ao fundo a marcha nupcial magistralmente tocada pelo meu amigo Vitor (dica parcelar: descubram quem dos vossos amigos sabe tocar piano pois aprender a tocar orgão era comum nos anos 80. Incumbam-no da tarefa de vos tocarem a marcha nupcial, poupando uns bons eurinhos!).
Pólo Norte agarra-se ao padrinho de casamento, peito para fora, barriga para dentro e... ZÁS!
Ao quarto passo parte-se o salto do sapato esquerdo e sai um católico e nubente "FODA-SE!" da boca da noiva. A marcha continua a tocar, os amigos soltam uma gargalhada, Pólo Norte desenvencilha-se do sapato e deixa-se- literalmente- arrastar pelo padrinho armada em Cinderela num elegante passo "está fundo, está raso".
Olha para trás e o sapatunfo no chão, as damas de honor a contornarem-no e os amigos a sorrirem, divertidos. Mãe com ar de pânico e sogra- sonsa- perdida de riso.
"Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré!. Quem me mandou comprar sapatos com salto de 20 cm e nem ter treinado andar com eles antes da cerimónia? E agora, toda a gente a rir-se, que vergonha!"- pensaria qualquer noiva. Pólo Norte, não.
Afinal, a vantagem de se pagar a própria boda é que não se convidou ninguém por frete, porque ficava bem ou porque os pais faziam questão. Olhei para trás e a Igreja estava repleta das minhas pessoas preferidas de sempre, das que me conheciam tão bem a mim e às minhas trapalhadas, das que sabem que a minha vida é uma festa, das que só me desejam o bem e das que se iriam lembrar, com gargalhadas, daquele momento para sempre.
Descalcei o outro sapato, enfim.
"Descalça, foi para o altar. Pólo Norte armada em madura. Foi descalça... Ah, mas foi segura. "
Dica nº 3- Tenta ir tão bonita quanto confortável. Assegura-te de que sentes o chão que pisas. Se te acontecer um percalço não te atrapalhes. Olha em redor e sente-te confortada por estares rodeadas das pessoas de quem mais gostas no Mundo. Desembaraça-te do que te embaraçar. E sorri. Sorri porque, independentemente de tudo, sabes que vais"fermosa e segura".