segunda-feira, 13 de maio de 2013

Tal mãe, tal filha


Gostava de ser daquelas bloggers que usa sapatos de salto alto todo o dia, com cara de anúncio de penso higiénico- weeee e tal, que confortáveis que são estes stilleto (nem sei escrever a palavra, valha-me Deus!). Que usa sapatos altos para ir à piscina, para uma caminhada na serra, na calçada portuguesa a correr para não perder o autocarro. Sempre com ar fresco e fofo, que bom que é ver o mundo dos meus saltos altos e tal. Isso e de usar camisolas de gola alta, que elegante e esguia que fica a figura, que esbelto o tronco, que gira e distinta. Outra coisa que também me pelava era de não gostar de comer, de comer por obrigação- ai que já estou há cinco horas sem meter nada à boca, que até me esqueço de comer com o stress, vou ali buscar uma bolachinha de água e sal (partindo-a ao meio e comendo-a aos bocadinhos, como se fosse uma maçada de se comer, tanta bolacha para mastigar, minha Nossa Senhora!).
Gostava que a minha filha fosse daquelas filhas de bloggers que não precisa de babetes. Que não se baba, não se emporcalha e não encharca a roupa com baba. Ou que usasse camisolinhas com gola à Camões, cheias de folhinhos, e não reclamasse, tentando arrancar a golinha.  Isso e que não gelasse das pernas, dispensando as collants e usando só meias finas até ao joelho e sandália inglesa, que distinta, que elegante a bebé. Também seria feliz se ela aguentasse laços do tamanho do próprio pulso na cabecita, com um ar de espanholita que sai na "Hola!", que querida, que fofa. 
Mas não, a última vez que usei saltos altos foi no baptizado da cria e os três centímetros de salto lixaram-me completamente os costados e esfarraparam-me o pé, que tinha acabado de ser submetido a uma cirurgia. Foi lindo, parecia que se tinha feito a matança da própria vaca da alcatra do menú do baptizado em cima dos meus pés. Uma lindeza que só visto! Camisolas de gola alta fazem-me espécie no pescoço, dão-me coceira, falta de ar, calor, começo a somatizar e a arfar- Ai que aflição, vai-me dar um fanico, dêem-me Zyrtec ou algum comprimido para a menopausa, que é um mau estar tipo afrontamento com asma, um horror! Gosto de comer até não haver mais, de enfardar- ah que satisfeita que estou!- não se deixa comida no prato porque desde pequena me ensinaram que os meninos em África têm tanta fome e nós a desperdiçar comida, nada disso, come para dentro, miúda! Normalmente, como com galga, com larica, com vontade, com fome. Se estou contente apetece-me comer, se estou triste vingo-me na comida, uma canseira. Nunca por obrigação, sempre, sempre, por prazer. 
Já a miúda produz mais baba que um camelo no deserto, corre em fio- ah é dos dentes?, desculpas de pobre, porque as filhas das outras têm dentes e não babam assim, é o que é!. Usa, por isso (e também porque é badalhoca e se lhe dou metade de uma bolacha Maria para a mão faz um bolo de bolacha em cima do peito, com pão nem se fala, é confrangedor o ar de miúda barracosa com que fica, cheia de migalhas e açorda de pão com baba em toda a extensão da sua roupa) babetes.. A única vez que lhe experimentei uma daquelas camisolas à Camões- para não fazer desfeita à amiga dondoca que ma ofereceu- enfureceu-se de tal forma que começou a tentar arrancar a gola da camisola. Não contente, tentava mordê-la, parecia um cão com raiva, tal e qual. E assim que o sol espreitou e fui a um evento em que a minha filha era a única a usar collants (vá lá, que naquele dia eram novos e não tinham borbotos), não quis provar o amargo sabor da exclusão materno-social, e pu-la de pernoca ao léu, com meias pelo joelho mas tinha as coxas tão geladas e a pele a ficar arroxeada de frio que desisti na hora. Laços à espanholita no cabelo são o trauma da miúda, que tem um cabelo lisinho, lisinho, fininho que dói e que aguenta os ditos 1 minuto e meio (já cronometrei) antes de escorregarem como lêndeas nos pentes que trazem as embalagens de Quitoso. Cheguei a vê-la com um laço a cair para o olho o que, juntando às camisolinhas de gola à século XVI, me fizeram ter declamado durante meia hora todos os cantos dos Lusíadas para adormecer a miúda, tamanha birra a que tinha. 

Não sei se fique triste porque nunca seremos uma mãe e filha dignas de um fashion blog; se alegre por perceber que a genética é uma coisa 

Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...