quarta-feira, 12 de junho de 2013

A boina do meu avô no 59 para Chelas

Vinha à minha frente no autocarro. Sentei-me, sem prestar atenção e, quando levantei a cabeça, dei de caras com a boina. Castanha, quadriculada, muitos diriam que ribatejana. Para mim: a boina do meu avô. 
A psicologia explica com o efeito de halo e o Diabo a quatro. A mim, continua-me a maravilhar que sempre que me cruzo com uma criança estrábica, como a Joana- a minha melhor amiga da primária- sorria, de imediato, com uma ternura pueril que a idade já não me permite. O mesmo se passa quando vejo uma senhora de carrapito, melhor ainda se tiver aquela rede a prendê-la como a menina Maria, avó da minha vizinha Cláudia. Para mim, qualquer carrapito tem sempre o cheiro a doce de tomate, o mesmo que comíamos às colheradas na mesa castanha da cozinha da minha vizinha.
Novamente ali à frente, o meu avô naquele banco, respiro devagarinho como que a prolongar aqueles segundos de reencontro, o cheiro a pedra cortada na serração do meu avô, o macio do mármore, o som dos amendoins a estalarem-lhe na boca, a vida num sorriso imperfeito quando ali gargalhava. Ali, com o rosto bronzeado do sol do trabalho assente naquela boina. 
E hoje, passados cinco anos de me ter morrido, encontrei, no 59 para Chelas, memórias num turbilhão, à distância de um sopro, de um estender de mãos. E não fiquei triste.
Porque talvez seja isto que substitui a dor lancinante, estes pequenos reencontros, estes avivares de memória em coisas banais, do dia-a-dia, sem necessidade de datas ou efemérides a pontuarem.
Hoje o meu avô viveu ali. Naquela boina, num fim de tarde, dentro do 59 para Chelas.


9 comentários:

Analog Girl disse...

Percebo-te tão bem. Às vezes vejo um vislumbre de alguém parecido, que usa uma camisa semelhante, ou caminha com igual graça... e fico deslumbrada. O meu avô está ali. E só eu é que o vejo. Ver a minha mãe é que é mais raro. Mas por vezes vejo-a no espelho.

Pedro disse...

Não sabia que a psi tb explicava essas coisas.

O meu avô também usava dessas boinas :)

Gisela FFale disse...

eu também gosto desses "encontros"...ainda há dias à porta do McD, um sitio improvável, muito improvável para ela..."vi" a minha Mãe...ela vestiria assim...e os seus cabelos loiros... à primeira olhadela, podia ser ELA...:)

Cláudia L. disse...

Estas acontecem para nos apaziguar a alma. A saudade quem vem é das boas, das que nos conforta e não das que fazem doer e apertar a garganta.

É uma boa sensação e devemos alimentar-nos dela, para recuperar as saudades de sorriso nos lábios.

Mamã Petra disse...

O meu consolo é ver a minha mãe todos os dias no espelho.

The Queen disse...

.... e nos sorrisos.... nas gargalhadas..... em pequenos gestos escondidos.... principalmente escondidos nas malandrices do meu filho, e nas suas reguilices. :)
E nos cheiros.... Gosto.... És uma parva por me fazeres chorar.... PARVA! Odeio-te !!!!!! :P

CoriscaRuim disse...

Chama-se efeito de halo?
E eu que, sempre que vejo um homem de boné e fato de treino azul, sustenho a respiração, à procura do meu pai, que eu sei que já não mora ali ou em lugar algum, que não na minha memória e no meu coração...

E o meu avô usava sempre boinas aos quadradinhos.

Close Up! disse...

Escreves tão bem Pólo!
Não consegui conter as lágrimas nesta parte final, também eu me lembro do meu rico avô sempre que vejo uma boina ou algum senhor de idade a mancar...a saudade corrói mas estes pequenos bocadinhos ajudam a suavizá-la e a imaginar os nossos entes queridos ali connosco, nem que seja por uns breves momentos!

Unknown disse...

Adorei este post... senti cada palavra. A boina do meu avô, também. As memórias nas pequenas coisas, nos cheiros, nos fins-de-tarde, no ar. Recordações e associações só nossas, que ficam para sempre. O cheiro a salsa é um dos meus preferidos, leva-me sempre para a minha infância, para o meu quintal.

Bom fim-de-semana,
Diana A.
http://ositiodesempre.blogspot.co.uk/

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