segunda-feira, 17 de junho de 2013

Hoje sou professora, também!

Hoje sou a professora Emília, gorduchinha e de saias compridas, a andar de salto alto no chão de madeira da escola. A professora que me acompanhou nos quatro anos em que se chamava escola primária e não primeiro ciclo do ensino básico, porque eram primárias e fundamentais as aprendizagens, as ferramentas e os valores que ali se adquiriam. Hoje cheira-me a aparas dos lápis de carvão, no afia gigante, que funcionava a manivela, em cima da lareira da escola "salazarista". 
A professora Emília sabia os nossos nomes de cor, os dos nossos pais e irmãos, sabia quando um dos nossos animais ficava doente e no dia a seguir perguntava-nos se eles estavam melhores, sabia quem eram os meninos que, como eu, não tinham pai para oferecer prenda no Dia do Pai e propunha sempre uma alternativa melhor. A professora Emília, gorduchinha e de óculos, tinha energia e tempo para brincar connosco ao mata à hora do recreio e todos os dias nos ia verificar os cadernos, zelando pela sua limpeza e pela letra bonita, que ainda hoje me elogiam. 
A Professora Emília não tinha 30 alunos dentro de uma sala, por isso, também por isso, permitia-se a "gastar tempo" esclarecendo, sem pressas, todas as nossas dúvidas, certificando-se que ficávamos esclarecidos e a aprendizagem solidificada. Chamava-se a isto, qualquer coisa como "apoio individualizado". Era importante para nós, alunos.
A professora Emília trabalhava menos de 40 horas semanais na nossa escola mas nós sabíamos que, tal como nós, levava trabalhos de casa, composições e cópias para corrigir, fichas de avaliação para pontuar e aulas do dia seguinte para preparar. A Professora Emília, para nós, sempre trabalhou tanto, muito mas nunca por obrigação, nunca com medo das ameaças de despedimento, de ter que ir trabalhar para 200 Km longe da sua casa, nunca com medo de ver o seu salário reduzido no mês seguinte sem justificação, nunca coagida, o que lhe permitia ter boa disposição para se juntar a nós no recreio e, também por isso, morar num cantinho da nossa memória quentinho e feliz. Porque não era regida pela cultura do medo, o fantasma do desemprego e ideia do "dá-te por contente ainda teres emprego".
A minha professora da primária fez-nos alunos felizes porque era professora, gostava de ser professora e era feliz com a sua escolha. E isso fez de nós- de mim- alunos melhores. 
Depois da Professora Emília, no liceu e no secundário tive outras professoras de referência: a professora Leonor de Ciências da Natureza, a professora Sónia de Português, a Maria de Lurdes de Matemática, a professora Dalila de Português B e o professor António de Filosofia. Entre muitos outros.
Hoje sou cada um deles, na luta pelos direitos não dos professores, mas dos alunos, dos mesmos alunos que merecem professores com dignidade, professores que lhes passem na vida e deixem na memória os mesmos valores primários, de continuidade, que aprendemos naquela escola primária, que isto dos primeiros ciclos do ensino básico a mim não me diz nada. 
Hoje sou cada um destes professores, que estão o dia todo a ensinar os alunos- amanhã a minha filha-  e que têm que dar seguimento ao que muitos pais fazem ou, em muitos casos, infelizmente, a substituir o papel de muitos pais: o de educar. 
Hoje sou professora. 

31 comentários:

matilde disse...

Like.

Pandora disse...

Olha aqui a bloger quadripolar tímida que acompanha a ursa há séculos e nunca se manifestou (manifesta-se no facebook). Obrigada Polo por este post. Comovi-me. Revejo-me na aluna de primária que foste, recordo a Professora Gabriela e a Professora Fátima, grandes referências para mim. Provavelmente foram elas que despertaram a vocação em mim. Sou professora. Sempre o quis ser. Mas graças às políticas de cortes no ensino, sou professora sem escola, sem alunos, sem futuro. Ainda assim permaneço na luta. Com garras e dentes. Pelo futuro da educação neste país, porque os alunos merecem muito melhor do que aquilo que têm e isso depende das condições de trabalho dos nossos professores.
Obrigada por hoje seres professora nesta luta!

Nossa Senhora da Procrastinação disse...

Pólo, se um dia o critério para a Ana fazer exame ou não for a letra com que o seu nome começa (como aconteceu hoje em tantas escolas...) pode ser que compreendas que, por muitas razões que possam ter, esta greve foi extremamente mal gerida por ambas as partes.

Pólo Norte disse...

Infinitiva,

Acho que mais importante que a minha filha deixar de fazer um exame e ter que o fazer posteriormente, será ela aprender os valores da democracia.

Cabia ao Governo, em caso de não garantir a equidade, remarcar o exame. Para mim é simples!

Mas quando a luta política e o medir forças governamental pesa mais que o respeito pela democracia, é nisto que dá...

Beijinhos

Maria disse...

Clap, clap, clap!
Muito bem.
É por isto e tanto mais que o seu blogue é uma referência!
Um beijinho
Maria

Isabel Margarida Simões disse...

Obrigada por este post. Como professora (em greve) e mãe de um aluno do 12ºano que hoje não fez exame de Português , hoje estava mesmo a precisar de um mimo destes. ;) Vou partilhar!

Nossa Senhora da Procrastinação disse...

Só que é muito difícil o exame ser remarcado. O já "famoso" dia 20 é dia de exame de Filosofia. Só na minha turma tenho dois colegas que o querem fazer e se inscreveram para tal em fevereiro - e fazer exame de Português e Filosofia no mesmo dia roça a tortura... A partir daí, os dias estão completamente ocupados (exceto o dia se S.João, que por causa do feriado em muitos sítios também não é opção). 27 é greve geral, não vale a pena marcar. Dia 28 é a primeira alternativa justa (se é que é justo eu ter feito exame hoje e outros fazerem daqui a 11 dias...). Isto para exames cuja correção tem de ser feita até 10 de julho - se não for esse dia, tem que se adiar a 2.ª fase de exames, e por aí em diante. Os sindicatos sabiam que não havia nem há uma boa alternativa ao exame de hoje, e marcaram a greve à mesma - e depois tentaram transferir as culpas para os outros!

Compreendo as razões da greve, mas ambas as partes geriram-na muito mal. O caos ainda agora começou...

Espero que a democracia não seja isto! ;)

Beijinhos

Tixa disse...

Obrigada! Sou professora PRIMÁRIA, pela 1ª vez este ano sem escola, e fiquei bastante comovida com este post! É caso para dizer : " GANDA URSA"


* beijocas

Morpheo disse...

Professor agradecido pelo post. Obrigado.

Morpheo disse...

Professor agradecido pelo post. Obrigado.

Carol disse...

A minha professora chama-se Ana Cristina. E relembro cada pormenor que falas. Mas hoje quem saiu prejudicado não foi o governo e sim os alunos. E isso não me parece correcto. Se a greve faz sentido? Faz, todo. Também eu quero que os meus filhos se lembrem do nome dos professores e pelas boas razões. Também eu quero que os professores marquem a diferença no futuro de cada um. Mas hoje não era o dia para a greve. Hoje era o dia para os alunos fazer um exame que nesta fase é o exame mais importante para eles, que pode também definir o inicio do futuro. É o fruto do trabalho do ano que passou.

Richter disse...

Pólo Norte,

O ministro/ministério da Educação, sabe MUITO BEM aquilo que faz. A convocação de TODOS os professores não foi em vão. A recusa, e o braço-de-ferro, não foram em vão. Objectivo? Deixar passar a imagem que são os professores QUEM querem prejudicar os alunos, quando é o próprio governo que faz tudo para destruir o ensino!
Vergonhoso são os pais e os demais que se contentam com o que ouvem/vêem na comunicação social e se põem do lado do governo dizendo mal dos professores. Dizendo mal daqueles que nos dão as bases para um dia sermos alguém.
Hoje fiquei ainda mais fã do teu blog :)

Ana disse...

Os dias de greve têm mesmo de ser em dias que se faça sentir o valor das pessoas que a fazem. No meu tempo de exames também houve greves, por outros motivos claro, também houve a polémica de remarcar exames e não deixei de os fazer e de compreender o porquê de assim ser.
Hoje também estou do lado dos professores. Não sou professora porque nunca tive colocação (se calhar hoje digo ainda bem), mas sou filha de uma professora que ao fim de mais de 40 anos de trabalho leva com cortes a torto e direito e sem direito a reclamar! A greve é um direito e não se pode baixar os braços!

Pólo Norte, obrigada por este texto, mais uma vez estou rendida a este blog!

rosa do deserto disse...

Mais uma vez, neste "estaminé", gostei de ver que ainda existe alguém que não vai atrás da carneirada e que pensa pela própria cabeça...

Como professora (em greve) gostei muito do que li...

rosa do deserto disse...

Mais uma vez, neste "estaminé", gostei de ver que ainda existe alguém que não vai atrás da carneirada e que pensa pela própria cabeça...

Como professora (em greve) gostei muito do que li...

Barbara Moreira disse...

Hoje és (somos) mais professores que os próprios professores, que não aderiram a esta greve como deveriam. É certo que há escolas onde os exames não se realizaram mas também as há onde os exames foram feitos e os professores apareceram como se nada estivesse mal, como aconteceu na minha escola, o que para mim é muito triste. Não me sentiria de todo prejudicada por ter de realizar o exame noutro dia, pois quem estuda e sabe dia 17 também sabe dia 20, 21, 22, o que seja e não é um drama fazer exames num curto espaço de tempo como tantos dizem, na faculdade vão se ver gregos. Esta era ou é uma luta pela educação, onde fazem parte professores mas também alunos. Sentirmo-nos prejudicados, como alunos, com esta situação não faz sentido, pois esta "luta" é por eles e por nós. E se é por todos a greve deveria ter sido feita em força. É a minha opinião.

ana disse...

Obrigada, do fundo do coração. :)

cantinho disse...


Bom post, e ótimos comentários.
Admiro-a muito, Pólo Norte.

Maria

maria eduarda disse...

Obrigada por também ser hoje "professora."
Eu já o sou há bastantes anos,por vocação, por vontade, por gosto.
Hoje, não sei o que dizer...
Bem haja!
Beijinhos.

Anónimo disse...

Obrigada.

MDRoque disse...

Tenho uma professora em casa... só posso concordar.

Helena disse...

Pólo,
Concordo com quase tudo o que dizes, não fosse o pequeno senão de alguns alunos que não fizeram hoje, adiando a conclusão do 12º para Julho, comprometerem a sua candidatura a universidades estrangeiras por este ano por não entregarem os documentos dentro do prazo de candidatura. Em Lisboa, este fenómeno pode não ter grande expressão, mas é uma realidade muito comum no norte e no interior, e em alguns casos, face ao aumento galopante das propinas nas universidades portuguesas nos últimos anos, é mesmo economicamente mais em conta.

Cris disse...

Infinitiva - já está marcado.
Pólo Norte- que a própria estrela vos ilumine:)

Pode não parecer mas o que estamos a fazer não é nada fácil.

Quando conto ao meu irmão o estado das coisas - a indisciplina, o abandono, os NEE cada vez com menos, as turmas grandes com vários NEE e agora como lhes "acudo" e por aí fora...ele pergunta-me sempre " E eles não sabem disso?!" E eu acho que da secretária e/ou do automóvel ou mesmo das visitas para politiquices...eles de facto não sabem, não podem saber, eles nunca estão cá, os alunos são estatística. Como podem saber se não descem o tempo suficiente.:(

CoriscaRuim disse...

Apenas apetece-me deixar-te um grande sorriso e dizer-te que a minha professora primária, a mesma que ficou triste por eu ter abraçado a mesma profissão (achava que eu seria o prémio Nobel de algo, só pode!) se chama Maria do Carmo, é uma verdadeira senhora e, ironicamente, minha vizinha. Continuo a adorá-la com todas as forças, mesmo quando ela me olha de lado e me solta um "estás bem a ver aonde vieste calhar? Tu eras tão inteligente que poderias ter sido qualquer coisa!" :p

Mamã Petra disse...

Valorizar os professores nunca é demais, por aqui tenho 3 estudantes nenhum no 12º ano mas todos valorizam os professores, sabem que trabalham quase 24h por dia e vivendo numa aldeia com uma escola primária das antigas com apenas 80 alunos e 4 professoras todas cá da terra, mas que já comeram o pão que o diabo amassou, uma delas assim que acabou o curso foi para Rabo de Peixe nos Açores, uma experiência unica e que a deixa sempre de lágrimas nos olhos, hoje eu também sou professora.

Feliz disse...

Oh Pólo...só tu!
Adorei o teu texto. Puxa a lágrima, aviva o sentimento de frustração que habita em mim por não ter a minha turma. Tal como uma menina escreve em cima, também a minha professora primária me avisou...também ela, ainda hoje lamenta a minha escolha. Mas não poderia ser diferente, não saberia ser diferente.
Estes senhores que acham que os professores não gostam dos seus alunos, pouco ou nada sabem do que nos move! Português tem memória de peixe.

Beijinho gigantone!

Nossa Senhora da Procrastinação disse...

Cris, eu só quero ver como é que as notas de 18.000 exames feitos no dia 2 de julho são afixadas dia 10. :)

Isabel Valdeira disse...

Infinitiva, os exames estarão corrigidos na data prevista da mesma maneira que as minhas 4 turmas de testes do ensino profissional (cada uma com 25 alunos) que vieram comigo para casa hoje vão estar corrigidas na 6º feira. Com muitas horas de trabalho, muitas vezes pela noite dentro.
Porque a greve num dia de exame era a única maneira de se falar de ensino e escola pública. Muitas coisas se fizeram antes e não serviram para nada.

Nossa Senhora da Procrastinação disse...

A ideia que os meus professores me transmitem é que um exame demora mais a corrigir que um teste normal. Se a Isabel me diz que é possível, mesmo que mantendo algum cepticismo, acredito...

Petra disse...

E ao ler-te lembrei-me da minha professora primária, que era tal e qual a tua Professora Emília, a minha professora Ema que aprendeu Braille por minha causa...
Mas não só ela, tal como tu tive no ciclo e no liceu professores maravilhosos que ainda hoje são um pouco daquilo que sou.
Concordo sem tirar uma vírgula!

vanda disse...

Um aplauso de uma (um dia) professora, que seguiu este rumo movida pelo mesmo amor a quem, em tempos a ensinou e que, visava, contribuir da mesma forma para o futuro de outros... Tentativa frustrada, mas, jamais me arrependerei de ter lutado por um sonho!
Bem hajas ursa por hoje falares por nós!
Mulher do catano!! ;)

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