quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nos últimos 10 anos

Tive que lidar com a velhice dos meus avós. Trabalhei na Casa Pia de Lisboa. Estive lá mais de dois anos e adorei o trabalho mas detestei a instituição. Apanhei um processo disciplinar interno e orgulho-me disso. Assisti a um show de dança do varão. Arrependi-me veementemente de ter seguido Psicologia. Fui madrinha da Tatá. Cortei o cabelo. As minhas melhores amigas piraram-se para a Guiné-Bissau e Luxemburgo. Voltei a Londres e aos Açores mais que uma vez. Descobri que o sítio mais bonito do Mundo é a Caldeira de Santo Cristo, em S. Jorge. Coleccionei avidamente relógios da Swatch. Desisti de ser Psicóloga Social. Tive vontade de trabalhar não por gosto mas por dinheiro. Tornei-me membro activo de uma associação. Fui a Cabo Verde com uma amiga e não morri de amores pela Ilha do Sal. Comecei a fumar.Trabalhei 60 Km longe de casa e demorava 2 horas e meia para cada lado no trajecto casa-trabalho para ganhar experiência em Psicologia Organizacional. Fui madrinha de casamento da Cláudia. Fiz o meu primeiro blog com quatro amigas. Casei. Tirei o piercing. Aluguei a minha primeira casa. Mudei de estado civil mas nunca no bilhete de identidade. Devorei revistas de decoração.Tive o meu primeiro carro: um Citröen AX potentíssimo. Li centenas de livros. Viajei para a Tunísia e ainda trago o cheiro do jasmim a embrulhar-me a memória. Vi o nascer do sol mais bonito de sempre em pleno deserto. Deixei de gostar dos relógios da Swatch e tenho quase cem a tiquetar numa gaveta lá de casa. Fiz um inter-rail com a minha prima e visitámos Madrid, Barcelona, Andorra, Paris, Côte d'Azur, Mónaco, Turim e Roma numa famigerada auto-caravana. Vi dezenas de filmes. Apaixonei-me quando não o devia ter feito. Engordei. Fui a festivais de Verão. Fiz arranjinhos entre amigos e acumulei três casais consumados no curriculum. Fui a Barcelona quando estavam a rodar o "Vicky Cristina Barcelona". Quase que tive a minha primeira experiência lésbica numa casa de banho das Ramblas. Deixei de falar com o João. Transferi a tara dos relógios da Swatch para as contas da Pandora. Experimentei drogas novas. Tive aulas de escrita criativa particulares demasiado "produtivas". Odiei o namorado da minha mãe. Conheci pessoas da net que permanecem como amigos e outras que nunca o deveriam ter sido. Descobri que a vodka tónica é a melhor bebida alcóolica do Mundo. Enchi duas pulseiras da Pandora e quando começaram a estar na moda fartei-me e arrumei-as. Separei-me. Pintei o cabelo de castanho. Dei sangue. Trabalhei numa empresa com os melhores colaboradores do Mundo. A empresa faliu. Roí as unhas até ao sabugo. Caí num enredo que mais parecia uma novela mexicana e agora rio-me disso. O meu avô morreu. Pensei que ia morrer. Deixei de fumar. Experimentei sushi. Mudei de empresa e mudei essa empresa. Fui a festivais de Verão. Comprei dezenas de óculos de sol. Fiz novos amigos. Estive prestes a cometer um homicídio qualificado de 1º grau. Viajei sem destino. Tornei-me viciada em sushi. Fiz mais uns blogs até ter o Quadripolaridades que é O blog. Consultei pela primeira vez um psicólogo. Bem como um astrólogo. Dei esmola a pessoas velhinhas sempre que me cruzei com uma que pedisse dinheiro na rua. Passei a gostar do namorado da minha mãe. Voltei a beber ginger-ale. Pensei em emigrar. Sonhei em ser proprietária do Aya. Reconciliei-me com a vida que tinha e fiz dela a vida que eu quero ter. Viajei para a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo, a Alemanha e a França. Fui muito feliz em Orval. Bebi um Cosmopolitan no terraço do Sofitel. Penso no meu avô todos os dias mas já não dói quando o faço. Voltei a deixar crescer o cabelo e voltei a ser loira. Viajei clandestinamente e adorei. Nunca dei esmola a um arrumador de carros que fosse. Senti o tempo passar rápido demais. Despedi o meu Director Geral. Pensei deixar tudo para trás e começar de novo mas depois arrependi-me. Fiz praia como há muito não fazia. Reencontrei o meu pai passados quase dez anos. Traí. Apanhei algumas tosgas. Coloquei unhas de gel (sem brilhantes) mas ainda assim arrependi-me. Fui traída.  Voltei a roer as unhas. Pensei em ser mãe. Deixei de fazer planos. Comprei uma Bimby e aprendi a cozinhar. Não me apeteceu fazer 30 anos mais do que uma vez. Encontrei o meu primo. Comecei a coleccionar máscaras. Soube que ia ser tia num restaurante suiço em S. Martinho do Porto e criámos a tradição do "moche à prenha". Consegui preparar uma festa surpresa genial sem me "descoser". Fiz uma road trip pela Escócia com a minha melhor amiga e o homem que amo. Fiz uma lipoaspiração não invasiva. Vi focas em pleno oceano Atlântico. Tomei o pequeno almoço na Garret tantas vezes quanto me apeteceu. Apaixonei-me pela ilha de Skye. Bebi whisky de quase 50º. Fiz nudismo numa praia do litoral alentejano. Comecei a usar uma aliança simbólica no dedo anelar direito. Despedi largas dezenas de pessoas. Chorei, pela primeira vez, ao despedir uma em especial.  Fui desrespeitada como nunca tinha sido antes. Voltei à Vidigueira. Levei seis anestesias gerais. Percebi que tenho amigos com quem posso mesmo sempre contar. Dei entrevistas a revistas da minha especialidade. E a jornais generalistas. Voltei a andar de gaivota. Consegui lugar no qual me encaixo a cem por cento no colo de um homem. Fui tia da Catarina. Aderi de vez ao Skype. Fiz uma viagem pelos caminhos de Portugal com uma mochila às costas. Apaixonei-me pela Barragem do Alqueva. Deixei de me preocupar antes das coisas acontecerem. Estive numa praia fluvial pela primeira vez. Fui o mais feliz que já experimentei ser num restaurante em Monsaraz. Comecei a olhar para os tintos do Douro com outros olhos, traindo o meu amor exclusivo aos tintos Alentejanos. Ainda não enjoei de ovos moles de Aveiro. Nem de doces em geral. Fui a tribunal e ganhei um processo judicial. Estive num clube de Swing. Vi o pôr-do-sol na Barragem do Alqueva a dois, com gargalhadas cúmplices. Gastei rios de dinheiro em restaurantes. Perdi a minha vesícula. Vivi a selecção natural das espécies aplicada aos amigos e eliminei gente que não cabia na minha vida. Bebi tantas kimas de maracujá quanto pude. Inesperadamente nasceu em mim um sentido instinto maternal. Mudei de área profissional e voltei às origens.Percebi que antes de ser Directora de Recursos Humanos, sou Psicóloga. E que antes de ser Psicóloga, sou mulher. Herdei uma casa. Tornei-me menos ansiosa e mais tolerante. Nunca perdi o sentido de humor. Revi as minhas prioridades. Passei um Natal no hospital. Completei 30 anos. Conduzi um carro "follow-me". Conheci a ilha de Santa Maria. Coleccionei muitas milhas de avião em trabalho. E muitos Km de carro. Preferi sempre o comboio. Comprovei a generosidade do povo açoriano e fui às festas do Divino Espírito Santo. Lá fiz amigas que conto serem para a vida. Vi o Guernica ao vivo. O meu blog permitiu-me conhecer, em Madrid, um par de novos amigos. Comi mulles em Bruxelas. Pedi desculpa à Susana. Fui feliz em Bruges e andei de comboio a cantar músicas pirosas a caminho do Luxemburgo. Ajudei a minha sobrinha Catarina a apagar as velas do seu primeiro aniversário. Comprei um termómetro kitsch na Floresta Negra. Apaixonei-me pela Alsácia. Fui ao Jardim das Borboletas. Comemorámos outro Natal em Agosto. Vi quadros de Magritte ao vivo. Fui tia da Mariana. Fui feliz nas Termas de Monchique. O Aya fechou. A Cláudia divorciou-se. Dos três arranjinhos que fiz entre amigos já tenho menos um no curriculum. Fiz franja e arrependi-me na hora. Tentei pedir desculpas ao João. Recebi centenas de postais de Natal. Enterrei o assunto João definitivamente. Troquei prendas de Natal inúteis. A minha avó morreu. Voltei ao maldito cemitério. Eu, enquanto neta dos meus avós, morri de vez. Fiquei numa tristeza sem fim. Inscrevi-me como dadora de medula óssea. Cortei relações com uma das minhas primas. Não tive Natal. Fiz um filho. Voltei a jogar Monopólio. Penso nos meus avós todos os dias. Descobri que estava grávida. Levei a minha afilhada ao Jardim Zoológico. Sinto orgulho, todos os dias, no pai que escolhi para a minha filha. Adorei dar a notícia da minha gravidez à minha mãe, tia, Daniela, Catarina, Xana, Cláudia e Rosa. Jantei no terraço mais cool de Nova Iorque. Conheci o sósia do Joaquin Cortés e a minha alma gémea ab fab. Fui parar a um Hilton onde pernoitei de borla à custa da avaria de um avião da Ibéria. Emocionei-me ao ouvir um coração numa ecografia. Consegui um livro autografado pelo António Lobo Antunes. Descobri que ia ser mãe de uma menina. Alcancei a serenidade familiar e conjugal com que sempre sonhei. Decidi que ia dar o nome da minha avó à minha filha. Baldei-me ao trabalho para acompanhar uma amiga a um exame médico. Decorei, a dois, um quarto de bebé. Comemorei um aniversário colectivo numa data em que ninguém fazia anos. A Inês e o Pedro casaram e eu não pude estar presente.  Aumentei, com a ajuda dos amigos, a minha colecção de máscaras. Contribuí para ajudar a família de uma menina com leucemia. Recebi prendas de pessoas que só me conhecem pela escrita e fiquei emocionada. Senti o tempo passar devagar demais. Assisti à transformação da minha mãe em avó. E adorei. A minha franja cresceu. Fiz planos priorizando aspectos que nunca tinha equacionado. Escrevi tracinhos que simbolizavam dias, colei-os no frigorífico e fui-os riscando à medida que foram passando. Senti-me impaciente. Odiei estar grávida. Diverti-me com a sensação de ter uma criança a mexer-se na minha barriga. Mudei a forma como encaro a minha vida profissional. Comi marisco com as minhas pessoas preferidas no Portinho da Arrábida. Pari. Vi a minha casa ser assaltada. Fui feliz em Coimbra. Ganhei uma cicatriz no baixo ventre.  Roubaram-me todas as colecções de relógios da swatch e de contas da Pandora. Fiz várias sessões de fotografias com a minha bebé. Apresentei queixas à polícia três vezes. Fiquei com uma barriga não tonificada. Arranquei um coto de cordão umbilical enquanto dava banho a uma bebé. Fui pagar uma promessa a Fátima. Conheci bloggers que admiro muito. Comi sopas do Espírito Santo nos Açores. Fui tia do Pedro. Ajudei a organizar brigadas de recolha de medula óssea. Fiquei muito mais calma e tranquila. Recasei-me. Viajei com uma recém-nascida. Bebi muitas kimas de maracujá. Organizei um baptizado. Dormi num colchão no chão um par de meses. Fui operada a um pé. Mostrei os Açores à minha filha. Sobrevivi a um sismo. Saí do anonimato na blogosfera mas por uma boa causa. Frequentei um workshop de culinária. Escrevi muitas cartas à minha filha. Fiz novos amigos. Livrei-me de gente com más energias. Mudei de casa. Consegui manter vivas ervas aromáticas, durante meses. Mostrei o mar a um bebé. Fiz um alisamento marroquino. Mudei de casa. Fui a uma benção das pastas para além da minha própria. Comecei a frequentar festas de aniversários de crianças. Fui muito feliz em Montargil. Comi muitos caracóis. Comecei a gostar de cozinhar. Vi a minha coluna ancorar-se. Recebi a minha primeira prenda do dia da mãe. Andei de roda gigante. Mudei de trabalho algumas vezes. Apazigoei a minha relação com os meus sogros. Deixei de coleccionar coisas. Assinei um termo de responsabilidade para receber alta de um internamento. Passei a preferir a serenidade e a paz à agitação e à intensidade de emoções. Organizei duas festas de aniversário para a minha filha. Partilhei a cama com duas pessoas durante meses. Fui feliz na Régua. Fui feliz em montes de sítios. Consegui rodear-me de gente que me faz feliz. Tenho uma vida, extraordinariamente, boa. Já não digo tantas asneiras mas nunca perdi a capacidade de me rir. 

30 comentários:

Pedro disse...

O melhor está sempre para vir :)

Felizes anos velhos :)

Inês Mendes disse...

Tu fazes-me quase sempre chorar, ou de rir muito, ou de "tristeza" por me identificar com tantas coisas que sentes e consegues escrever! É fenomenal a forma como passas para palavras o que sentes! e como te lembras de coisas de há 10 anos! e também tenho um João, sou um pouco mais nova (não sei se isto é indicado de escrever num post a seguir a ter sido o teu aniversário! :P) mas espero mesmo encontrar a tal paz que dizes ter encontrado com a idade, e também um amor perfeito para a estabilidade que tens hoje! Sigo o teu blog não há muito tempo, tens o dom da escrita mesmo, e uma memória fantástica, e um sentido de humor espectacular! obrigada por partilhares a tua vida connosco!

mary disse...

tudo isso nos últimos 10 anos?
sou 10 anos mais nova do que tu, tento imaginar-te com a minha idade, como eras, se fazias ideia que tudo isso ia ainda acontecer-te!
e olho para mim e penso que tenho, efectivamente, tanto e tanto e tanto ainda por viver... belíssimas experiências Polo!

RAQUEL MARK disse...

Extraordinária Mulher! Um exercício de escrita criativa muito bem conseguido. Parabéns!

mariana disse...

poesia e exemplo.

RAQUEL MARK disse...

Extraordinária Mulher! ...e um exercício de escrita criativa muito bem conseguido.Parabéns!

Fio a Pavio disse...

Simplesmente fantástico... Uma mulher real!

Solana disse...

Tão bom!
E a Régua no coração, melhor ainda!

Pipoco Mais Salgado disse...

(Deslumbrei-me a observar a elegância do Pipoco a beber gin tónico...)

Anónimo disse...

espero com essa idade ter um historial tão grande quanto o teu :P principalmente de coisas boas, mas as más acabem sempre por vir de qualquer das formas...

Caquinho disse...

Adorei este post! Absolutamente brilhante. Parabéns pelo blog!

Sophia disse...

E que venham mais 10, sempre em alta Ursa :) Parabéns atrasados :D

... disse...


Boa tarde,

Nunca comentei o seu blog, sigo-o há bastante tempo.
Este texto está extraordinário, uma retrospetiva de vida tão simples e tão cheia de emoção e genuinidade.

obrigada por partilhar

Sofia Loves disse...

Adorei! Uma síntese boa de se fazer, a dada altura, na vida de cada um.
- outro desafio quadripolar? :)

Subscrevo a Inês, que bem que escreves!
Bjs

Elisabete disse...

Nunca tinha conseguido ler um post tão denso e longo como este, sem me fartar a meio. E ainda me emocionei... logo eu, que nunca me emociono!

Dia - a - Dia disse...

Ena pá, que vida de agitada. Quando for grande quer ser como tu, prinicpalmente no ponto que diz que ficaste mais serena com o passar do tempo, que já não doi quando pensas em algo menos bom e que és feliz. Sim, é o meu maior sonho ser feliz.

JustNuts disse...

Nunca comentei o teu blog, Pólo, mas na altura em que me encontro, aparentemente sem expectativas nenhumas quanto ao meu futuro e depois de ter levado com umas valentes desilusões, é bom saber que há tantas coisas que nos podem acontecer em apenas dez anos. É sempre inspirador ler-te, adoro a tua ironia e sarcasmo!

Bicharocos Carpinteiros disse...

Assim, sim, vale a pena!
Parabéns pelo aniversário, mas principalmente pela forma como vives a tua vida.
Parabéns!!!

Ana disse...

A Ursa é fantástica! E eu, muito mais velha, admiro-a! Aqui estarei para festejar o balanço dos próximos 10 anos, sim porque o melhor ainda está a caminho!
Felicidades Ursa. Bjs. AnaDD

Titanices disse...

Feliz ano novo!!! Para o ano tens mais uns quantos parágrafos de coisas boas para crescentar aqui!! Beijinhos

Filipa Garcia disse...

O que adoro ler-te!!:) E gostava de te conhecer, de ter essa tua energia que um dia já tive...FG

O Sexo e a Idade disse...

And the best is yet to come!

Sofia disse...

Obrigada por me teres lembrado que ainda há tanto para viver, que o que agora é tudo um dia não há-de ser nada, e que a vida muda o quanto nós quisermos que ela mude. E parabéns atrasados ;)

A Bomboca Mais Gostosa disse...

Percurso maravilhoso e inspirador, às vezes a vida passa e as pessoas não dão conta e percebem que não fizeram metade do que queriam. Importante é viver e apreciar cada momento, já começo a pensar um pouco como tu, no que diz respeito a preferir a paz e serenidade em vez do turbilhão de emoções. Só a vida nos ensina isso ;)

osmimosdamae disse...

Muito bom!
Parabéns! Por tudo. Pelo aniversário, pelo post, pelo blog!

Pedagogia do Terror disse...

Xi... Fui a Algés. E também fui à Cruz-Quebrada/Dafundo... e tenho 35...

ffiffas disse...

Estes teus post "anuais" são maravilhosos (não são os únicos, tens uma vasta colecção deles, mas adoro estes)

Márcia disse...

Olá,apesar do silêncio sempre estive a te acompanhar.(Aceitas parabéns atrasado?)

Anónimo disse...

Que pena não teres gostado da Ilha do SAL...eu como salense de gema fico triste. A ilha só tem piada se saires do circuito turistico e ires acampar nas praias que não aparecem nas brochuras. Passo por cá sempre que posso ou seja gosto.

Joana Mendonca disse...

Uns cheios 10 anos! Que os próximos sejam pelo menos, igualmente bons!

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