quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A melhor peça de jornalismo que li nos últimos meses

"
Quando a polícia entrou no apartamento, havia já 18 dias que o casal estaria morto na cama. Tudo indica que terão premeditado o fim a dois
Nenhum sinal de vida. Corpos: escuros, com presença de larvas, sombras alienígenas do que terão sido. Hora e causa do óbito: por apurar. Quando a polícia e os bombeiros entraram finalmente no apartamento e encontraram os corpos na cama, a filha de Manuela, de que ninguém sabe o nome, trancou-se no carro, enorme nos seus remorsos e culpa, e dali não saiu. Do outro lado da rua, Sandra e Paulo, que tinham passado dias e dias a ligar para a PSP a pedir socorro, mal viram um agente vir na sua direcção tiveram a certeza: "Eles estão mortos."
Manuela e Ludgero Matias, ela com pouco mais de 60 anos, ele já nos 70, tinham sido vistos pela última vez havia 18 dias. Nesse sábado, ao fim da manhã, Manuela chegou ao café da esquina com um novo corte e uma nova cor de cabelo, mais avermelhada, mas desta vez pouco falou. A Sandra e Paulo pediu apenas que cuidassem do Dusty, o seu pequeno cão branco arraçado de minitoy, até quarta-feira, data em que ela e o marido regressariam de uns dias em casa do irmão. Entregou-lhes um saco, passou a trela para a mão de Paulo e abalou sem uma festa no cachorro. Os dois entreolharam--se: "Então mas não nos pergunta se podemos ficar com o cão (...)" "
 
 
O resto da notícia/crónica/peça jornalística, comovente, crua, verdadeira e incrivelmente bem escrita aqui.
 
Bravo, jornal I!

19 comentários:

rititi disse...

Pois olha que eu não gostei. É uma bonita prosa, um lindo conto, mas não é um artigo objectivo.

Ana disse...

Só que isto não me parece jornalismo, é um romance feito a partir de um facto.

Ana Chagas disse...


Li o artigo há um par de horas, e o segundo aspecto que mais me marcou, foi a qualidade do texto. Gostei.
Obviamente que o aspecto mais marcante, foi a história em si. Mas essa nem precisa de comentários.

Melissinha disse...

Então só seria jornalismo se fosse "Casal encontrado morto em casa após 18 dias"?

Same Old Guy disse...

É um texto fantástico e muito triste, mas isto não é jornalismo!!

Gostei muito de ler, apesar de...

Mirone disse...

Sim senhor, uma bela prosa, mas não é jornalismo, parece-me um bocadinho assente na base do "suponhamos".

xilre disse...

Há uma ideia, muito difundida, que se a prosa não for analítica, factual, não é jornalismo a sério: é outra coisa, romance, novela, "flash fiction". Mas a prosa analítica e factual encontra-se, nos "papers" académicos, que são lidos pelos pares e pouco mais. Aí, a objectividade obriga a que se deixem à porta todas as emoções. O jornalismo, o bom jornalismo, deverá ser capaz de transmitir factos e emoções. Não cometamos o erro de Descartes ao acreditar numa razão separada da emoção. Um caso destes não pede uma notícia de obituário. Pede o que aqui está escrito: a vida e a morte, pelos olhos da jornalista -- que interpretam os factos à luz das suas emoções. Como acontece a todos nós.

Boa tarde.
xilre

Madalena disse...

Acho que é um texto bonito mas parece-me fantasioso! Não que ache como alguns comentários dizem que jornalismo tenha de ser uma descrição fria de factos mas aqui nada indica que o que a jornalista descreve tenha sido a realidade dos factos. Dá a sensação que parte da realidade deste duplo suicídio para um suponhamos...

margarete disse...

tem graça (sem graça), não li o texto até ao fim porque a determinada altura começou a soar-me a chorrilo de cusquices :/

desabafosemrodape disse...

não tenho formação jornalística para debitar sentenças sobre os critérios que assistem à publicação de uma peça, artigo, sei lá eu o nome técnico!o que eu sei, é que houve muita cuidado na maneira como o óbito foi apresentado. se a autora conhecia ou não o conto de António Sérgio "filémon e báucis" não sei, mas, esta história, pode perfeitamente ilustrar a teoria que uma notícia desta natureza não tem que ser fria e estatística.é só uma opinião. boa noite.

rititi disse...

No momento em que a filha esconde no carro cheia de vergonha já nao é jornalismo. Falta-lhe a presunção. Falou com a filha? Não. Fica melhor como adorno literário? Sim. O texto é bonito, muito no estilo muito americano. E gosto do estilo, mas nunca consideraria jornalismo objectivo.

rititi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anabela Julião disse...

Não estamos habituados a este tipo de relato de factos no jornalismo e logo no início soa a história de ficção. Mas aconteceu de verdade e até me arrepiei...

Cristina disse...

O texto é terrível! A narrativa é péssima e de gosto duvidoso.
E claro que não é um texto jornalístico.

Bjs

Sandra Silva disse...

Fiquei completamente sem piu! :(

Saloia 2.0 disse...

É notícia, acho que é real, logo não pode ser um conto.
Nós jornalistas não temos que relatar tudo a preto e branco, temos de dizer a realidade preto no branco, mas a vida tem cor, os sentimentos existem e as pessoas por detrás das histórias - e por mais tristes que sejam as histórias - merecem que esse sentimento por vezes se transmita na forma como se narra, e neste caso em particular, o fim da vida.
Eu gosto deste tipo de jornalismo, arrojado e liberto, porque contar histórias também é uma arte e aí o i fá-lo como ninguém.

Beauty and the Beast disse...

Eu achei precisamente o contrário. Achei mais uma peça de jornalismo sensasionalista, que particularmente não aprecio. É mais comum, vê-las (na TV) do que lê-las... Mas como a leitura, pelo menos a mim, toca-me mais profundamente, o desagrado demonstrou-se mais rápida e intensamente.

Gaja Maria disse...

Sem dúvida um texto muito bem escrito uma história muito bem contada...

Adriano Assunção disse...

Muito bonito mas parte do texto nem sequer corresponde à verdade dos factos. Por exemplo, a filha nem sequer estava presente quando foram descobertos os corpos. Também não é verdade que não tivessem o apoio da familia porque a familia deu-lhes todo o apoio possível.

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