terça-feira, 8 de outubro de 2013

À Rosa, por ocasião dos seus 33 anos

Querida Rosa, 
Pensei escrever-te em nome da Ana mas, em boa verdade, sempre achei ridículos aqueles pais que escrevem em nome dos filhos "Olá, sou o Tomás e nasci com 5 Kg" ou as mulheres que se dirigem aos maridos em nome dos filhos "Ó pai, podes mudar a fralda aqui ao Joaquinzinho, podes, podes?"; por isso, desisti e pensei falar-te em meu nome. 
Não foste a minha escolha primeira para madrinha da Ana mas foste uma das poucas amigas que convidámos para o baptizado lá longe, nas ilhas, porque contigo sabemos que não há salamaleiques, nem mariquices, nem obstáculos que não se ultrapassem, que contigo há determinação e obstinação, força e vontade, mais actos que palavras, a acção de quem faz acontecer. 
Não foste a minha primeira escolha para madrinha da Ana mas no momento imediato em que te convidei, a minutos da cerimónia para ocupares o lugar da Daniela, da Catarina, da Xana e da Cláudia, impossibilitadas de chegarem a São Jorge, naquele Abril inesquecivel, no segundo a seguir a convidar-te com receio de que te ofendesses por não seres uma escolha primeira, uma segunda escolha, uma escolha de emergência, depressa percebi que não podias ter sido melhor escolhida para o cargo. 
Seres madrinha da minha filha dá-nos um laço para sempre, indissolúvel e eu fico grata para que a tempestade, a greve, o mar revolto, a natureza, enfim, o destino se tenham encarregado de seres a minha única amiga ali, naquele dia, no meio do Atlântico, testemunha única de uma aventura que iremos recordar para sempre, palco de inúmeras gargalhadas, uma cumplicidade que se constrói e fortalece desde o dia em que nos conhecemos. Agora, para sempre, com mais certeza e vontade que seja para sempre. 
E eu sei que não há madrinha melhor no Mundo que tu, sempre presente e atenta, participativa e activa, com colo de matriarca, voz de educadora, olhar de segunda mãe. Sei que tal como naquele Abril em que não desististe de chegar ao destino da tua viagem, por terra, por ar, por mar, tudo farás pela minha Ana, se um dia eu lhe fizer falta e precisar que alguém lhe fale de mim, de nós e da história do dia em que te contei que estava grávida com a mesma naturalidade que quem come um tremoço, do dia em que fomos aos santos populares sem sairmos de casa por eu a ter no bucho, do dia em que na maternidade a conheceste e tão bem encaixou, logo, assim, no teu colo, nos braços, nas mãos e tu sorriste com aquele ar ternurento que disfarças tantas vezes, do dia em que enquanto testemunhavas um dos primeiros banhos me viste a arrancar-lhe o coto do cordão umbilical e acorremos juntas para as urgências do hospital, tão taralhoucas e assustadas, depois apenas divertidas e hormonais, do dia em que naquele altar, de peito inchado e um orgulho que se via nos teus olhos, marejados de Atlântico, foste, por mérito, afinal, a escolha perfeita para seres a madrinha Rosa. A madrinha. 
E a escolha não podia ter sido a melhor. 

Feliz Ano Novo, porque o mereces. 

Um beijo enorme da tua sempre amiga e agora comadre. 

10 comentários:

desabafosemrodape disse...

nas minhas andanças, dei com este post, do qual me senti muito próxima.Trabalhei nos Açores, onde fiz uma grande amizade para a vida. curiosamente, essa amizade é madrinha da minha filha. apesar de não nos falarmos todo o dia,eu estou cá(continente),ela,(são miguel)de cada vez que o fazemos, é como se ainda há bocado tivéssemos estado juntas. ainda bem que vamos conseguindo conhecer pessoas assim.

Sara ProfissãoMãe disse...

Sabes gostei do teu post, mas discordo da coisa de colocar os filhos a falar pelos pais, fiz isso no meu convite de casamento e até correu muito bem...mas tb ela já tinha 1 ano e falava lololo

Os amigos a sério, onde nós estivermos são amigos para a vida mesmo :)

Silent Man disse...

Recentemente, tive um pedido para padrinho. Não de uma criança, mas de uma adulta. Padrinho de casamento. Na altura chorei e escrevi sobre isso. Hoje, ao ler esta mensagem tão bela, fiquei com vontade de fazer o mesmo, um dia. Mas no meu caso, só lá para 2014... :p

Ursa, tu podes ser meio louca e meio variada. Mas as letras estão contigo!

Gaja Maria disse...

Tu és um espectáculo Ursa. Gosti

Cristina Oliveira disse...

Texto comovente, que só pode vir de quem sente tudo tão sinceramente.

Cristina Oliveira disse...

Texto comovente, que só pode vir de quem sente tudo tão sinceramente.

Cristina Oliveira disse...

Texto comovente, que só pode vir de quem sente tudo tão sinceramente.

Cristina Oliveira disse...

Texto comovente, que só pode vir de quem sente tudo tão sinceramente.

Jo disse...

Adorei.

A Mãe Filósofa disse...

Já tenho lido alguma coisa deste blog e nunca comentei, mas este fez-me ficar de lágrimas nos olhos, nem sei porquê, mas fez, e nem sequer passei por nenhuma experiência semelhante, mas fiquei assim, como diz o angolano, de lágrima no canto do olho.

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