segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"O que é que ainda aí estás a fazer?"- perguntou-me o meu pai

E o meu pai talvez me tenha perguntado isto porque, infelizmente, sabe muito pouco de mim. O "aí" dele referia-se a Portugal e a pergunta vinha no desenvolvimento de uma conversa acerca de carreiras promissoras no estrangeiro, o quanto ela acha que eu me estou a desperdiçar por "aqui" e o Mundo de oportunidades que conhece em todo o lado, nomeadamente, no país para onde ele próprio emigrou há uns bons anos atrás. O meu pai diz-se um cidadão do Mundo: já viveu em Inglaterra, na Nova Zelândia, em Nova Iorque e, agora, mudou-se de armas e bagagens para São Paulo. E acha que este país não me merece, que eu tenho tanto, imenso potencial, que sou boa demais para aqui viver. "Estares aí é dar pérolas a porcos"- diz-me.
O meu pai sabe muito da vida profissional, de trabalho, de negócios, de oportunidades mas sabe pouco de amor, talvez- só assim justifico- por isso insista em perguntar-me via chat "O que é que ainda aí estás a fazer?"
Acho que nunca deve ter lido aquela crónica do Miguel Esteves Cardoso onde a sua mãe lhe incita que olhe para o ar de felicidade dos turistas assim que chegam nos autocarros vindos do aeroporto e descem no Estoril, respirando o ar com maresia, semi-cerrando os olhos desabituados que estão do sol e lhe relembra que ele vive no sítio maravilhoso para onde muita gente poupa um ano inteiro para poder passar férias. Sinto o mesmo.
A conversa com o meu pai continua. Falo-lhe do amor. Ele confunde-se, é matéria da qual ele sabe pouco, este homem sem raízes, sem gente que ama, sem passado. Pergunta-me se o que me prende é a minha mãe e fala-me do skype e de viagens em companhias low-cost, relembra-me que os meus avós já morreram e que nada me prende, efectivamente, a Portugal, sublinha que mámen tem uma especialidade altamente empregável e termina com o argumento de que a Ana é pequenina e portátil, ainda não está em idade escolar, e que depressa se adaptaria à vida em qualquer outro lado "melhor".
Eu gosto da minha vida no meu país. Não aspiro aos parâmetros de qualidade de vida que levaram muitos dos meus melhores amigos a emigrarem. Não os coloco numa hierarquia em que sinta que o que tenho em Portugal é altamente lesivo. Em que me sinta em posição desfavorecida. Para dizer a verdade sinto, precisamente, o contrário.
Aqui tenho tudo o que preciso para ser feliz: a minha mãe à distância de 2 minutos de casa se precisar de um colo para chorar, a Marginal todos os dias quando regresso do trabalho, o mar como companheiro, o cozido à portuguesa aos domingos na casa da minha tia, a luz de um céu irrepetível (não se trata de calor, é a luz e eu sou uma pessoa muito dada a "foto-depressões"), o crescimento da minha prima, quase adulta, os rituais de sempre nos sítios que sempre me pertenceram, o pastel de nata de manhã no café do Sr. Augusto, os bolos de aniversário da Alves e Alves e os fins de semana de manhã a ir buscar bolos à Sacolinha, quinzenalmente aos domingos o mercado, os gelados do Santini enquanto desço a Rua Direita, um concerto do J. P. Simões à mão de semear, o passeio entre o Guincho e o Cabo da Roca em tardes de telha, o parar para comprar fruta da época não normalizada em vendedores ambulantes na berma da estrada e o pão com chouriço no caminho para a Ericeira.
O meu pai não percebe. "Com o dinheiro que ganharias fora daí, podias ter uma vida muito melhor: uma casa maior, um melhor carro, não tinhas que te preocupar a contar dinheiro e a fazer escolhas para comprares o que te apetece. A miúda tinha apoios estatais na área da saúde, educação, poderias ter acesso a muitas outras coisas, uma vida melhor."
Talvez peque por, aos olhos do meu pai, ser poucochinha e pouco exigente no que peço da vida. Claro que se passasse necessidades, se a minha qualidade mínima de vida estivesse comprometida, seria obrigada a partir. O que o meu pai não percebe é que eu não procure uma vida "melhor", desconhecendo ele que não aspiro a nada que me pudesse fazer tão mais feliz que compensasse a minha mudança de altitude e latitude.
"Não preciso de ter acesso a mais nada: sou eu que vivo no sítio para o qual tu poupas para vir passar férias. Tu desejas um travesseiro da Piriquita o ano todo, eu não salivo de cada vez que penso em algo que comi numa qualquer viagem que tenha feito. Posso ter memórias boas delas mas não salivo por um cupcake do Magnólia, onde está a minha amiga Eileen, nem sinto saudades que me façam o coração apertado por voltar a Vianden, perto do sítio onde mora a minha amiga Xana. Porque eu não tenho o coração biforcado entre o sítio onde pertenço e o sítio que escolhi. Porque eu escolho permanecer aqui, no sítio onde pertenço."- remato.
Imagino-o a ruminar "não tem acesso a uma data de facilidades, a uma data de coisas..."
O único acesso a que eu faço questão de ter direito é aquele pedonal que liga o bar do Guincho à praia, pés na areia no Verão, manta sobre os ombros no Inverno, beijos na fronte dados pelo homem que escolhi,  olhos no céu estrelado para ensinar a minha filha a magia de se pedir desejos às estrelas.
Ele continua a achar-me "conformada" como se isso fosse uma coisa má. "Sedentária" e revira os olhos- sei-o bem. Não percebe que não é uma questão de conformismo mas de escolha. Calha eu conseguir, sem esforço, ser feliz no sítio onde pertenço, reitero.
"O que é que ainda cá estou a fazer, pai?" Estou a ser feliz com o muito que tu achas pouco.
Não sou nómada, nasci para ficar.  

19 comentários:

Formiguinha disse...

Hum.... Como se chama o teu pai????
Soa igual ao meu até no "Oi??!!!"...
Se calhar têm as suas razões, mas dessas não fazem parte os laços que nos prendem aqui...
Bêjos

Sónia disse...

Olá Polo!!!
Sigo-a com muita regularidade, mas é a primeira vez que comento um post!!!
Adorei o que escreveu, estou a morar no Brasil há 9 meses e conto os dias que faltam para poder voltar a Portugal. Não há dinheiro nenhum no mundo que pague a presença das minhas pessoas, dos meus lugares e dos nossos sabores.
Obrigado por me deixar sempre bem disposta sempre a leio.

Fuschia disse...

O meu diz o mesmo. Sinto o mesmo, mas nunca digo nunca, caso me visse no desemprego acho que não teria outra alternativa senão me virar para fora. E pronto era aí que queria chegar, é triste ter de ir sem querer. Longe vai o tempo em que iam os aventureiros.

Ni Luz disse...

Não são muitos os que percebem... felizmente vou encontrando alguns que me compreendem!

Joana Sousa disse...

Perfeito. Post absolutamente pesrfeito. Tenho que o mostrar a todos os que me reviram os olhos de cada vez que digo que, quando acabar o curso (Eng. Civil, não há grandes empregos agora) prefiro ganhar 500€ a trabalhar no Pingo Doce do que ganhar 2000€ em Angola ou no Brasil. És grande :)

Helena disse...

Uns nascem com asas e voam como borboletas, pousando de flor em flor, e outros nas nascem flores, sorvendo da terra o que ela tem de melhor, ergendo-se ao sol e a lua que todos os dias os beijam.
Fauré tem uma canção que diz mais ou menos isso.

Cristina disse...

Eu sou nómada. Adoro o meu ninho e o sítio onde vivo atualmente, mas o mundo chama por mim!!!! A descoberta de novos sítios para morar é fascinante para mim.

Bjs

Ana Chagas disse...


Como eu compreendo. :)

Moramos razoavelmente perto, provavelmente até andámos no mesmo liceu ;), e não trocaria o meu cantinho por nada. A não ser claro, por uma imensa, forçosa necessidade.

Isabel Simões disse...

São posts destes que me fazem vir aqui sempre que posso... ;)

Cisca disse...

Lindo! Maravilhoso! Perfeito! Mas porque é que as pessoas não percebem?

AL disse...

Faço parte desse grupo que espera nunca ter de emigrar.
Migrei para o Porto e sinto tanta falta dos lugares que beijas todos os dias...e afinal são apenas 350km...

Mamã Petra disse...

Podia ter sido escrito por mim, no entanto emigrei até Marrocos, quer dizer Algarve sinto que sou daqui, eu pertenço, aqui sou tão feliz com pouco, aqui sou feliz com a familia que me acolheu e eu escolhi, e que me ajuda e apoia e sinto como minha. Sou tão feliz com o muito que todos acham pouco. Ursa só tu me entendes.

Beijinhos

Ana FVP disse...

Porra que escreves bem!!!
Ass.: Ana, de Luanda com saudades de Lisboa.

Bicharocos Carpinteiros disse...

Tão bom estares cá...
Precisamos de ti aqui!

. disse...

Revejo-me imenso neste post. Está fantasticamente bem redigido. Muitos parabéns pelo blog. Apesar de o seguir há muito tempo é a primeira vez que o comento. Continue a proporcionar bons momentos de leitura e muitas felicidades para a sua vida :-) Obrigada

São João disse...

Ficamos :)

São João disse...

Ficamos :)

Margarida disse...

Gostei !

Margarida disse...

Gostei !

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