terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma casa só é casa quando os quadros estão pendurados

Mudámo-nos há, precisamente, um ano. A Ana tinha nascido há pouco mais de um mês e a mudança para esta casa não estava, nem pouco mais ou menos, nos nossos planos. A vida corria-nos bem, aquela casa (a outra) tinha assistido a uma união de facto, à compra e montagem de móveis pelas mãos de dois miúdos acabados de sair da faculdade, aos preparativos de um casamento, aos vários jantares de debriefing depois da boda, a promoções nos empregos, à separação, ao recasamento, a malas a encherem o hall em madrugadas de partida, ao desfazer de malas de viagem e distribuição de souvenirs pelas famílias, a Natais com os meus dois avós, depois só com um, a um último lá e o primeiro de sempre sem nenhum,  ao momento em que ambos olhámos para um teste de gravidez na casa-de-banho e percebemos que íamos ser pais, a uma gravidez de repouso absoluto, a alegrias, tristezas, roupas tamanho 0 meses a serem dobradas e perfumadas em gavetas a estrear, ao dia em que a Ana saiu da maternidade e veio viver só connosco para sempre. Aquela casa era a nossa casa e éramos felizes lá. 
Depois, assaltaram-nos e levaram-nos tudo: móveis, electrodomésticos, objectos pessoais, molduras com retratos, jóias de família e objectos emocionais. Tudo. Foi esse dia- o do assalto- o último em que lá estive, dentro daquelas paredes que, de repente, deixaram de ser a minha casa e passaram a ser apenas testemunhas de um crime de violação de privacidade, do assalto de bocados da minha vida. A mudança de casa foi uma decisão de impulso, emocional. 
Chegámos a esta casa há, precisamente, um ano mas nunca lhe pendurámos quadros. Primeiro quisemos tratar dos quartos e dos varões, da decoração do quarto da menina, depois tirar aquele papel de parede do corredor, entretanto, pendurámos o primeiro e único quadro (com excepção do quarto da Ana) na casa-de-banho. A cozinha, a lavandaria e o escritório precisam de prateleiras, de mais arrumação, de papéis arquivados, de vida enraizada e não daquele (deste) ar de casa temporária, não vamos fazer muitas obras e investir muito porque não tarda muito vamos embora. Passou um ano e não fomos. A sala, último reduto, continua com as paredes virgens e brancas, nem um quadro, uma moldura, uma tela, nada. A casa tem sido, em silêncio, temporária e provisória para ambos, sedentos de um espaço maior, mais que ver connosco. No entanto, constato agora, passou precisamente um ano desde que nos mudámos e a Ana aqui sorriu pela primeira vez, aqui se sentou, comeu as primeiras papas, deu a primeira gargalhada, aprendeu a gatinhar e deu os primeiros passos. Temporária ou não, esta é a casa da Ana e só por isso, hoje, vou agarrar no martelo e nos pregos e pendurar quadros pela sala. 
Preciso, desesperadamente, de me sentir em casa. 

5 comentários:

dona da mota disse...

Pólo, tenho precisamente, mas mesmo precisamente essa ideia, uma casa não é a nossa casa sem quadros. Nós já nos mudámos vai para 4 anos, aquela é A casa para toda a vida e, lá está, só há quadros no quarto dos miúdos.
É isso e almofadas giras.

vidasdanossavida disse...

Esse é também o meu programa para hoje!! Mas eu só mudei de casa há duas e já sinto que preciso de quadros na parede para a casa ficar mais casa. Bjs e boas marteladas!!

Cristina Oliveira disse...

Eu mudei de casa tb há quase um ano, quando casei, e apenas tenho a tela do meu casamento no quarto...
O resto ainda está um pouco nu e impessoal...

Mariana Branco disse...

fogo..até fiquei com o nó na garganta de como escreves. que a casa seja feliz com vocês também :)

Margarida Ribeiro disse...

Que sejas feliz, Ursa :)

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