quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A fronteira entre o cultural e o ético, o deontológico e a religião. E já não me lembrava que ser psicóloga é bem mais difícil do que ser CEO de uma grande empresa.

Ontem fui chamada de urgência à escola de uma criança guineense que acompanho há pouco tempo. 
A menina, que apresenta episódios de enurese, esteve ausente quinze dias da escola, sem qualquer justificação por parte da família para o absentismo. 
Ontem, no regresso percebeu-se que sangrava. Sangrava muito e suspeitaram de uma menarca (muito) precoce. O seu comportamento era de profunda ansiedade e retraimento social, algo que acontecia pela primeira vez naquele contexto escolar.
Ontem, pela primeira vez na vida, soube o que é de perto a mutilação genital feminina, numa criança pequena, demasiado pequena para ter que ser cobaia de dogmas, superstições, actos religiosos e culturais desta espécie. 
Ontem, no meio do choque, percebi que ser mãe fez de mim uma profissional diferente. Mais emotiva, outra vez.
Entre a mente aberta, o respeito pelas culturas, a tentativa de ser o menos etnocêntrica possível, a relação profissional, ontem, ao olhar para a menina, num abraço que não consegui desatar, fui apenas mãe. Ontem chorei. 

32 comentários:

Pea disse...

Fuck! O relativismo não me chega para tanto...fuck them all...

Poisoned Apple disse...

Essa é das tais cenas que a mim me daria vontade de esquecer que fui educada, que vivo em sociedade e que tenho sentido cívico, só para fazer justiça com as próprias mãos.

Uma pena pesada de prisão efectiva para estas gentes, risco de expulsão do país, crianças retiradas e a ver se os casos não diminuíam. Não faço ideia quantos casos destes existem em PT, mas têm de ser zero. Zero.

anamargarida disse...

Estou em choque! Não sabia que era possível a mutilação genital de uma criança em pleno Portugal!

Tania disse...

Inacreditável! Vivemos vários séculos em simultâneo, só pode :/

Fuschia disse...

Há limites para o respeito pelas culturas. É uma mutilação feita a sangue frio que feriu de forma irreversível a mulher que essa menina se tornará. Nem tenho mais palavras.

isa disse...

Já me fez chorar...Como é possivel? Que dor fisica e psicológica..monstros!

Fátima Bento disse...

Desculpa, mas não há espaço para respeito pelas culturas aqui. Eu também chorava - basta pensar um bocadinho mais para chegar às lágrimas. Estar face-a-face com um caso deixava-me de rastos.

Angela Ribeiro disse...

Um acto horrendo a que os europeus gostam de chamam cultural... mas não é. É um crime. Como mulher e como mãe acredito que que é um acto criminoso que deveria ser banido.

O Sexo e a Idade disse...

Diz-me que sim, que chamaram as autoridades, que essa familia vai pagar bem caro o crime que cometeu!
Diz-me por favor que sim!

Snow*White disse...

Queria comentar o quanto me revolto com a mutilação genital feminina e o quanto já li sobre o assunto para saber que é uma realidade muito presente no nosso país... mas nunca me confrontei assim, de tão perto, com essa realidade. E não consigo escrever nada de jeito, porque só consigo pensar nessa menina, que não deveria nunca, em momento algum da sua vida, passar por isso... :(

Rt disse...

Fiquei chocada com esta situação? Em pleno 2013? Em Portugal? A CPCJ vai intervir? E os adultos responsáveis por esse crime vão ser punidos? (ou pelo menos vai ser apresentada uma queixa contra eles?).
Pessoas doentes, doentes! Pobre criança (crianças) porque isso deve acontecer a outras meninas!

Ulisses L disse...

Respeitar a cultura é uma coisa...
...mas qualquer cultura que não respeite outro ser humano e o valorize pelo que é deve, pura e simplesmente, ser reprimida e repudiada!
Não se trata de cultura, de fé, de principios nem valores!
Trata-se de mutilação!
E quem a fez deve ser punido!

Ana disse...

@anamargarida e Rt: sim em Portugal e bem perto da capital, a mutilação genital é prática comum especialmente em comunidades guineenses nos arredores de Loures. É um problema grave e difícil de solucionar pois acontece em comunidades fechadas e raramente se conseguem apanhar os culpados pois ninguém se queixa, ninguém fala do assunto e é perpetuado pelas próprias famílias. Muitas das vezes pessoas sem recursos financeiros que graças aos belos subsídios de inserção social conseguem juntar 1500€ para pagar a um "curandeiro" para fazer o serviço... enfim, uma prática brutal que acontece à nossa porta numa época em que muito se fala da violência contra as mulheres na Índia e países árabes mas neste assunto que depende da nossa acção no nosso país ninguém toca.

Pedro disse...

Não é preciso ser Mãe para chorar, lamento desapontar-te.

Ana disse...

Choque profundo...

Ana disse...

Choque profundo...

Timido disse...

Não posso acreditar que isso ainda aconteça... E que aconteça num pais que se diz civilizado...
Espero realmente que as autoridades tomem conta desse caso e encontrem culpados...
Não admito que nesses casos a cultura e a religião possam falar mais alto, não quando se faz sofrer crianças inocentes com base em creenças machistas do século passado.

Sofia Loves disse...

Sem palavras...

Filomena Silva disse...

Pronto.. agora é que fiquei sem palavras... bolas prá diferença cultural, que raio de tradições...

Lassalete Cunha disse...

Tradições, pró raio que as parta tradições destas! Isto é uma barbaridade. Que raiva!

Filipa disse...

A lei Portuguesa pune tal acto. Não há espaço para relativização, ou quem se fode são sempre os mesmos.

rosa do deserto disse...

Jasus!!!
:O

Ana disse...

Não sou mãe e toda eu sou um nó, só me apetece ir buscar essa criança e cuidar dela...

Albina disse...

Pólo, Publica por favor um NIB onde todos possamos contribuir.
Não posso comprar um bilhete e sou de Sta. Ma. Feira não posso ajudar com alojamento.
Mas quero contribuir. Contribuir para causas que apesar de estar deste lado do ecrã se vêm transformar em soluções e mãos reais a dar ajuda a pessoas reais (sim sou bastante cética a dar e ajudar determinadas instituições - por experiência profissional)
Desculpa o testamento mas não desmotives já ajudaste muita gente. Partilho uma pequena situação que aconteceu este verão no sitio onde trabalho:
uma funcionária paraplégica, mãe de um filhote com 16 anos, teve uma úlcera de pressão (vulgo escara) ao nível sacrococcígeo; esteve internada vários meses e por razões que n se perceberam bem, não teve direito a determinados apoios por estar internada. Apesar do apoio familiar este foi insuficiente. Ficou em risco de o banco fazer toma da casa por falta de pagamento das devidas prestações.
Unimo-nos todos e entre colegas que a conhecem e que não conhecem juntamos mais de 2mil€...
Motivação para continuar XD
Do pouco de muitos, faz muito para alguém...

Maria disse...

Respeito as culturas de cada povo, mas apenas as que não colocam em perigo ou atentem contra o ser humano... :( nos dias de hoje e... enfim!... :(

onónimo disse...

merda de mundo

ffiffas disse...

Percebo as lágrimas,porque aqui a esta distância e sem ver a menina, não consegui evitar as minhas!

Patrícia disse...

Mesmo já sabendo que esses actos criminosos se praticam por cá, não consigo deixar de me sentir chocada sempre que oiço essas coisas. E sempre achei que a educação (mais do que guerras) é a forma de mudar o mundo nesses casos. Mas será que é suficiente? estas famílias que vivem cá, têm acesso a informação diferente e mesmo assim, pouco muda.

Joana disse...

Olá! Eu já li muito sobre a mutilação genital feminina, já fiz pesquisas e é um assunto que sempre me desperta curiosidade pelo terror que é... É um crime, mas praticamente impossível de ser condenado e de ser descoberto...
Nunca convivi assim de perto com esse problema, mas imagino a dor que foi para si, a angústia de não terem podido fazer nada!
Em Portugal existe, às vezes mesmo ao 'nosso lado' e sem darmos por nada. É um assunto demasiado complicado e complexo. Espero sinceramente que pelo menos a criança seja ajudada e tratada da melhor maneira possível, já que infelizmente não se foi a tempo de prevenir tal monstruosidade! :-(

Carla disse...

O problema é que isto não se resolve com a repressão/ punição/ extradição das pessoas que cometem estes actos... Por mais que nos choque (e choca imenso), estamos perante traços culturais, que estruturam toda uma cultura e sociedade, que moldam e são moldados e enraizados nas mentalidades destes indivíduos... A culpa não é do RSI, nem de Portugal ser um país brando na extradição de imigrantes (como se lê em alguns comentários...). Por mais que nos choque e magoe, temos de compreender que, para estes costumes (mantidos pela tradição, algo tão difícil de modificar...), é essencial TEMPO e INTERVENÇÃO junto destas comunidades! Não basta dizer-lhes "Isso é errado", é obrigatório explicar e demonstrar por A+B o porquê de ser errado! Beijinhos Pólo e que tenhas sempre força e coragem para equilibrar o teu lado mais emotivo com o de técnica e profissional!

40beauty disse...

Infelizmente, quando li que a menina era guineense e sangrava, a mutilação foi logo o 1º pensamento que tive. É comum, horrivelmente comum.
E já não há relativismo que aguente com estas barbaridades. Puro niilismo cultural. Que nojo!

Didi disse...

Nem tudo o que é tradição é bonito e deve-se manter, excisão, maus tratos, touradas... tudo é inflinge dor num ser vivo não deveria ser aceite.

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