quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Isto da crise é uma chatice...

Há uns tempos atrás, brincava com a minha amiga Xana, que todos os males do Mundo eram culpa da actual crise económica.
Tinha pedido coca-cola com gelo e limão e tinham-se esquecido da rodela de limão? A culpa era da crise. Queria comprar uma saia na Zara e não havia o meu número? A culpa era da crise. Precisava de cortar as unhas dos pés à miúda e não sabia onde tinha enfado a tesoura de pontas arredondadas? A culpa era da crise. Para bem dos meus pecados, havia finalmente um bode expiatório suficientemente abrangente para todo o mal que vinha ao Mundo. No meio da crise, a crise servia para alguma coisa, uma espécie de atribuição causal externa, muito confortável para quem não gostava de assumir responsabilidades. Afinal, a culpa de não haver o meu número da saia na Zara não era minha que estava gorda que nem uma bácorazinha e o facto de não saber da tesoura das unhas não tinha nada que ver com  o facto de eu ser uma desarrumada do catano mas era culpa única e inequívoca da crise. God save crise! Ufa!
No entanto, gasta que está a desculpa, enfadados que estamos sempre da mesma conversa, surge agora um movimento alternativo que muito me irrita: nada pode ser criticado, debatido, falado, discutido, alvo de troça porque temos a grande sombra da crise. 
Por exemplo, a questão da Pepsi ter decidido troçar com o CR7 na sua campanha tem sido alvo das mais variadas discussões em páginas de facebook, grupos de amigos, caixas de comentários de blogs e afins. Em todos estes espaços, sem excepção, ergue-se uma vozinha sábia (ou mais, tenho visto muitas vozinhas moralistas, em biquinhos de pés, imagino-lhes um "cof, cof!", um afinar de voz antes de subirem em cima do caixote de madeira no speakers corner virtual) a apontar o dedo com ar adulto e zangado: "Mas... mas com esta crise que para aí anda estão vocês, almas fúteis e toscas, a dissertar sobre a Pepsi e o futebol? Tsss, Tsss. Tende mazé vergonha! Pffff!"
A crise tornou-se uma espécie de cancro sobranceiro ao pé do qual ninguém se pode queixar de sintomas gripais. A crise tornou-se um cancro petulante e magnânimo perto do qual todas as outras doenças menores, as virais, as congénitas, as adquiridas, as outras todas que não o próprio cancro, são meras ofensas pela sua pequenez e menor importância. A crise quer silenciar as nossas chatices do dia-a-dia, as tricas, as coisas que nos chateiam, os mosquitos que nos picam à noite e que, afinal, são tão insignificantes perto dos da malária e da dengue nos países sub-desenvolvidos. A crise passou a ser o cancro mortífero e sério ao pé do qual as minhas dores de corpo porque estou com gripe, a comichão e a dor que me provoca a zona num músculo, o ardor de um fungo, o dedo mindinho do pé partido, a TPM, as pontadas de uma cólica renal não podem ser valorizadas sob pena de ofender o "senhor cancro". 
Só que para além do cancro as dores do dia-a-dia também chateiam, ora essa. A Pepsi ofender o Ronaldo aborrece-me como portuguesa que sou, e quem não se sente não é filha de boa gente. Haver meninos a morrerem todos os dias nos sítios mais recondidos do Mundo não tira importância à morte dos meus avós, que eram só duas pessoas, mas eram as minhas pessoas, caramba. Doerem-me os dentes não é atenuado pelo facto da crise existir. Doem, caraças!
Estou farta da crise. E se ao princípio o humor era alavancado pelas desculpas que a crise potenciava, chegou a altura em que a crise quer tirar a voz às pessoas, os lamentos do dia-a-dia, os queixumes costumeiros das velhinhas ao pé da igreja: " doem-me as costas, tenho artroses nas mãos, vejo cada vez pior por causa dos diabetes, esses bichos me comem"...
No que depender de mim a crise não me cala com a vergonha dos (meus) males menores.
E só por causa das tosses vou ali beber uma coca-cola. 

8 comentários:

Marta disse...

Calha bem que belas uma coca- cola e não uma pepsi que foi para isso mesmo que foi inventada, como xarope para a tosse :)

Mastubação Mental disse...

EPIC WIN!

Gaja Maria disse...

Pois a mim a filha da mãe da crise também não me vai calar caraças! Boa Ursa!

Analog Girl disse...

Bravo!

Fernando Lopes disse...

expiatório, menina. ;)

M D Roque disse...

E eu vou beber uma Cuba Libre, que é para comemorar o Post ( com Coca Cola, é claro)

Gelatina de morango disse...

Concordo tanto, tanto mas tanto com este post!

Fernanda disse...

Pois eu não bebo nem uma nem outra!Mas também lhe digo Ursa que esta indignação vai terminar num "ai". Basta que numa qualquer discoteca ou bar, numa qualquer noite desta, acabem as Cocas e o pessoal todo se vai virar para a Pepsi. A não ser que não goste! Em Portugal as indignações duram exatamente o tempo de umas horitas. A esta hora já está tudo muito mais preocupado com os jogos de futebol dos seus respetivos clubes que se aproximam após duas ou três semanas de paragem. E sim! Preocupassem-se mais com coisas mais sérias e importantes para a nossa vida e seria muito mais aceitável. E sim, sou daquelas que acha uma "palhaçada" toda esta indignação" até porque, já se sabe, é "Sol de pouca dura".O que dizem sobre Portugal alguns "idiotas" preocupa-me bem menos do que aquilo em que Portugal se está a tornar. É só a minha opinião, mas a opinião de quem já viu muito e durante muitos anos o que significa a "indignação" dos "tugas" (para usar um termo em futebolês).Ah, e já sabe que sou sua fã e farto-me de rir com os seus posts bem humorados. Já lhe disse que me reconciliou com os(as) psicólogas? Ai pois,já disse. Ursa forever!

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