sábado, 30 de novembro de 2013

Matar a morte

A minha avó morreu faz no próximo dia 23 de Dezembro dois anos. A minha avo morreu e a seguir sobrevivi a um Natal com a prenda que lhe tinha comprado, intocável durante dias, debaixo da árvore. Um Natal triste, tão triste, um não Natal.  
A minha avó morreu e a seguir soube que estava grávida, fui comemorar o amor a Nova Iorque, a barriga começou a crescer, fiquei de baixa médica, o bebé começou a dar pontapés, soube-a menina como se a vida se tivesse encarregue de repor os níveis de estrogéno na família, dei-lhe o nome de Ana, ainda in útero, o nome da minha avó. 
A minha avo morreu e a seguir fui mãe, conheci a (nova) Ana que, loira e de olhos azuis, é por vezes tão igual à minha avó Ana, cabelos pretos minhotos e olhos verdes-azeitona. Talvez à força de um amor tão imensurável, tão matrioska, revejo o mesmo olhar, o mesmo baixar de olhos, o mesmo espreitar, o sorriso, o ar despachado de manga arregaçada nesta minha semi-açoriana, menina do Norte, nascida em Cascais.
A minha avó morreu e a seguir tive ocupada a ver a minha filha crescer, a roupa a deixar de lhe servir, os sapatos a galoparem nos números, o andar desajeitado, os sons, as corridas, as primeiras palavras, as gargalhadas selectivas e direccionadas.
A minha avó morreu e eu sou má de mortes. Fiz da palavra luto um verbo, uma negação, um "amanhã choro", reneguei o substantivo à palavra, quis esquecer-me da dor, entreter-me com a vida.
A minha avó morreu e faz-me falta todos os dias, sem excepção. Hoje, dois anos volvidos, sonhei pela primeira vez com ela, olhando-me de frente, espingarda em punho (maldito inconsciente!) a matar a morte que a levou. Sorria daquele jeito tão dela, a minha avó de espingarda em punho, num sonho estranho e agitado e sussurrou-me baixinho que era tempo de matar aquela morte em mim e que me permitia chorar.
A minha avó morreu e matou a morte dela em mim, viva que está nos meu dias e agora, finalmente, nas minhas noites, enfim. 

16 comentários:

Neuza Martins disse...

O que senti agora. Não sei. Sinto frio. Por saber e sentir que faz 3 anos no dia 26 de Dezembro que faleceu a minha avó. Reagi mal, tão mal, e não aceito, de maneira nenhuma, esta morte. Esta facada que a vida me deu. Tenho aceite todas as outras, mas esta não consigo. Não consigo mais, achar piada a árvores de Natal,a Jingle Bells, e outras coisas do género. Pareço pobre de alma, mas estou é pobre de coração com tamanha ausência. E sou tão a minha avó. Tão igual a ela na maneira de ser, que até custa. Se por vezes é bom, e me aconchega, outras dói que não é brincadeira. Bem, não me achava capaz de falar sobre isto, e falei, aqui. Porque afinal, acho que não estou sozinha. Obrigada ursinha! Beijinho cheio de força!

milsorrisosnm.blogspot.com

Carla Pereira disse...

Custa-me sempre tanto ler o que escreves sobre os teus avós, e a avó Ana, então... Mas faço-o sempre até ao fim porque ler-te mostra-me, numa incómoda antevisão que tento ignorar, como é possível seguir em frente com uma dor tão forte...

Isa disse...

Adorei o teu texto. Transparece muita emoção, genuína.. Beijinhos

Mamã Petra disse...

Há 25 anos que tento sobreviver ás saudades, á falta que ela me faz, tento matar a morte e em 25 anos não consigo.

Mariana Branco disse...

Oh Ursa :$

mjoaob disse...

<3

mjoaob disse...

<3

Snow*White disse...

A morte é uma besta que nos corta o coração e o deixa a sangrar, ferida aberta que não sara mais. Com o tempo vamo-nos "habituando" àquela dor, começa a fazer parte de nós... a saudade cresce, todos os dias a saudade cresce. Doeu-me ver a doença dos meus avós que deixou a morte ganhar terreno, numa tortura lenta, louca e dolorosa... e quando finalmente essa besta ganhou a batalha e os levou, primeiro ele, um ano e pouco depois ela, a tristeza, a raiva, a dor tomaram conta de mim. Quando perdi um avô pela primeira vez, chorei, chorei, chorei muito. Com estes agora, mais recentes, chorei pouco... não consigo chorar, chorar far-me-á ceder à dor... e eu não quero, não consigo ainda.

Ler-te, Pólo Norte, ler as tuas palavras sobre os teus avós e, principalmente sobre esta tua avó minhota (como eu, como os meus avós), toca-me profundamente.

Serenity disse...

Ai as coincidências...
Eu esqueço os aniversários das mortes. É uma decisão consciente de não fixar dias tristes, mas há sempre quem mos lembre. Hoje fui almoçar com amigos e tentei maquiar-me mas, à pressa para ir antes ao supermercado por causa do Banco Alimentar, só deu para por pó, e ainda bem. Porque logo de seguida a minha mãe diz: "faz hoje anos que a avó morreu" e os meus olhos encheram-se de lágrimas (se me tivesse maquiado a sério teria sido um espectáculo... Lembro-e dela todos os dias, mas lembro-me de quando me contava histórias em pequenas, do seu colo, do seu arroz e de como, mais tarde, a cabeça dela se encaixava por baixo do meu queixo, nos abraços. Foi há 11 anos, no ano em que acabei o meu curso. Lembro-me muito dela, mas ignoro a sua morte... Mas hoje não paro de chorar, raios partam este aniversário!

M D Roque disse...

Acontece que por vezes a natureza tem uma estranha forma de manter o equilíbrio das coisas. Um beijinho grande.

Fumo Branco disse...

Sigo-te pela calada, rio-me do teu humor, tão no sense, adoro os textos que escreves para/pela Ana, admiro os teus gestos solidários mas não há posts que me emocionem (e me façam comentar) como os que escreves sobre a tua avó Ana. Por sentir um amor tão grande, tão palpável pela minha avó, por não me imaginar a perdê-la, por sentir que o tempo já me escapa (já são 88) e por o ano passado a 14/12 a saúde dela nos ter pregado uma grande partida mas que felizmente não passou disso mesmo. <3

Fuschia disse...

moimeme disse...

... Ganhei uma filha, nove meses depois de ter perdido a minha avó..
Dizia-lhe muitas vezes "Um dia, hás-de ter uma bisneta com o teu nome".. Nunca pensei que fosse preciso perder uma, para receber outra... mas sim, a minha filha também tem o nome da bisavó! Que orgulho...


Quando soube que estava grávida, guardei a tristeza dentro de mim e não me permiti chorar... Dois anos depois, voltei a confrontar-me com a morte, desta feita do meu avô... e, só aí, fiz o luto...de um e de outro... mas, realmente, matar a morte... Matar a morte, só o consegui, no inicio deste ano... (praticamente 6 anos depois...)

Xana disse...

Bom dia,
Estremeci com este texto. A minha Mãe morreu no dia 22 de Junho de 2011, no mesmo ano, em Dezembro descobri que estava grávida. Uma menina de nome Maria do Carmo, nome da minha mãe! Todos os dias penso nela, da alegria dela com a minha filha que inexplicavelmente com cerca de 10 meses no cemitério esticou os braços para a campa e parou na fotografia da avó a dar beijos. A minha filha não gosta de dar beijos. Mas todos os dias e inexplicavelmente dá beijos na fotografia que tem no quarto, fotografia essa que esteve na minha mão nas 16 horas de parto. A minha filha não conheceu a avó e eu queria tanto que a conhecesse. A minha filha tem o nome da minha mãe e só espero que um dia carregue a força da Avó!!!

Cláudia disse...

Também sonhei com o meu avô, uns 2 anos depois de o ter perdido.
E acho que foi nesse dia que o deixei ir.

Um beijo grande

Kittie disse...

Se calhar é a tua avó que precisa que tu sintas como morta a morte dela. Que avances para que ela também o possa fazer. Gostei de saber do teu sonho. Tão teu, tão vosso. Numa noite poucos meses depois dei meu pai morrer, ele explicou-me tim tim por tim tim todos os pormenores do porquê da sua ausência até então, que justificavam que afinal ele não estava morto. Tudo tinha uma razão de ser, e tudo o que ele dizia fazia sentido (mas como fazia!!). A euforia que crescia em mim foi suficiente para acordar e durante minutos ter que reviver (de uma maneira acelerada, crua e até cruel) toda a realidade da morte dele. Outra vez. Foi só um sonho. Só um sonho que conseguiu marcar-me e acredito que para sempre.
Ele morreu mesmo.
Fuck.
As vezes odeio sonhar.

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