quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O envelopezinho

"Presentes e envelopes

por Catarina Fonseca, em 26.11.13
No ‘meu tempo’ (é preciso já se ter algum tempo para escrever no meu tempo) os presentes de natal eram uma lotaria. Era como as caixas de bombons, mas em grande. Havia sempre uma tia que nos oferecia uma camisola que nos picava. Uma mala com a qual não queríamos ser vistas nem mortas. Uma, sei lá, jarra. Ou esse grande e desaparecido clássico, uma coisinha para o enxoval (há gente que diz que essas coisinhas depois lhe fizeram imenso jeito, mas com 8 anos não me lembro de nenhuma criança que goste de receber panos da loiça).
Por caso a mim nunca me deram nada para o enxoval (lá está, anos depois fez-me falta porque tive de comprar sozinha todas as toalhas e lençóis e panos da loiça, e ninguém me avisou que neste país quem não casa não recebe ajudas de custo de ninguém para montar a sua casinha).
Bem, mas mesmo assim, havia sempre uma tia responsável por alguns míni-AVCs ao desembrulhar o presente: com que horror iria ela presentear-nos’ verdade seja dita, nunca nos desapontou. A cada ano que passava, as camisolas eram mais requintadamente investíveis e eventualmente o horror escalou de tal forma que a minha mãe conseguiu negociar com ela um pacto de não agressão, embora pouco natalício: ninguém dava presentes a ninguém.
Isto vem a propósito de uma conversa que ouvi no ginásio: algumas senhoras, já avós, queixavam-se de que os netos já só queriam dinheiro. Uma delas dizia mesmo que as suas prendas de natal eram ‘17 envelopes’, mesmo para os mais pequeninos.
Por um lado, percebo. Quem me dera a mim que todas as minhas tias me tivessem dado dinheiro em vez de camisolas. Que feliz que eu teria sido. Por outro, não sei, parece-me que desvirtua um bocado o espírito da coisa. Não é suposto a ideia do natal ser pensarmos nos outros e perdermos algum tempo a pensar no que eles querem e naquilo que lhes faz bater o coração, e perder ainda mais tempo furiosas de bofes de fora a percorrer centros comerciais infestados de moléculas de stresse e de outras criaturas no mesmo estado, para lhes comprar os ditos cujos e assim provar o nossos amor por eles?
Dar assim uns envelopezitos com dinheiro, mesmo aos mais novos, é natalício? E depois a troca de presentes transforma-se numa troca de envelopes?
Olhem, não sei. Esta crónica não tem nenhuma opinião. Podem protestar à vontade e pedir o vossos dinheiro de volta. Não me peçam é em envelopezinhos, please. "

Da espertíssima Catarina Fonseca aqui

12 comentários:

Bruna Aguiar Melo disse...

Concordo plenamente! Uma das alegrias do Natal está em pensarmos em como fazermos os outros felizes... Essa história dos envelopes não me agrada nada... Sou muito adepta do fazer eu mesma a maioria dos presentes.

O Sexo e a Idade disse...

Verdade!
Antes a camisa de noite horrorosa e as toalhinhas turcas com cetim e bordados (blheca).
Eu ainda sou das que se escusam a dar envelopes e peço sempre que não me deêm dinheiro (mesmo quando não acertam no presente, grosso modo, nota-se que houve investimento emocional na compra, e eu prefiro assim; sim, também é verdade que a arrecadação tem alguns monos…)

Carla Isabel disse...

E o que me sabe bem os envelopes???Ou melhor o seu conteudo? Compro roupa para eles, e aina poupo dinheiro!:)

Sonia disse...

os avós são os unicos que dão os reais envelopes aos netos - porque já não têm idade para escolher roupa-eu recuso-me a dar ou receber envelopes :) gosto de ser surpreendida :) e de surpreender

verainacio disse...

oh é sempre a mesma coisa... tinha um perfume que a avó me deu que só servia para atordoar osgas qd me apareciam pela frente(coisa que já não faço) e para aborrecer o meu irmão... no entanto continuo a amar os meus avós. Mas eu percebo os miudos, principalmente porque também há as pessoas se esquecem de "perder tempo" a pensar no que os outros gostariam de receber, e limitam-se a oferecer uma porcaria qualquer sem critério... só isso explica ter recebido um termómetro para o carro aos 14 anos... e para que raio serve um termómetro para o carro!?Há algum carro que não tenha já um incorporado?
As vezes detesto o Natal. E acreditem, já me ofereceram meias que me deixaram com um sorriso na cara, e tecnologia que só me apeteceu mandar enfiar no ... de quem ma ofereceu.

"It's not about the money"
É só perder 5 minutos de conversa com a pessoa e ouvir...

Boas Festas

cantinho disse...

Eu adoro dar prendas, mas quando se trata de rapazes, a coisa torna-se mais difícil, até porque, comprar um jogo para a PSP ou pc, custa mais do que dar 20 ou 30 euros a cada um (sim, eu não dou mais que este valor porque não posso. E eles compreendem).
Este ano, não decidi ainda, o que fazer.
Beijinho

Vera disse...

Quando era pequena adorava receber um envelope em vez de uma prenda foleira. Agora que já sou (um bocadinho) adulta, prefiro um presente, por muito foleiro que seja, a um envelope. E quando me perguntam até já cheguei a pedir coisas para o enxoval! lol. Porque dinheiro para comprar as coisas que quero tenho eu, mas saber que a pessoa perdeu algum tempo a escolher algo só para mim, é o melhor tempero ao presente. Mas pronto isto também pode ser coisas de pessoa a quem os pais há vários anos não compram presentes, só dão dinheiro (sem envelope)...

Jasmim Decor disse...

Tenho uma tia que me deu sempre enxoval quando eu era criança, quando fiz os meus dezasseis anos decidiu oferecer-me uma barbie.

40beauty disse...

Tenho uma guerra imensa com a minha mãe, que quer dar envelopes até aos filhos dos primos em 3º grau. Perde o espírito natalício todo e, ou gasta uma considerável fortuna porque já há muitos miúdos na família, ou diz que não vai ao jantar de todos porque não quer gastar tanto dinheiro, nos dias que correm.
Envelopezinhos desses, só como prenda de casamento, e basta!

Bala disse...

Lá em casa não se usam envelopes, e por norma não se aceitam envelopes. Os únicos que têm direito a excepção são os avós, em consideração à idade que têm. De resto, quando cheguei a esta família havia o hábito de dar dinheiro, em todas as ocasiões. Eu recuso-me a oferecer dinheiro. Não é um presente! Não foi algo comprado a pensar na pessoa.
Quando oferecemos um presente queremos dizer "pensei em ti quando escolhi isto" ou "lembrei-me de ti", e essa mensagem só se passa se pusermos o coração na nossa escolha....e não no envelope! :)

Nut-ella disse...

Olá Pólo! Acho que, como em quase tudo, no meio está a virtude. Devemos dar o que as pessoas gostam, se pedem dinheiro, deverá ser dinheiro o presente. Por exemplo, sempre recebi dinheiro dos meus tios, que não faziam ideia do que eu gostava ou não, e a partir de certa idade também dos meus avós. Parece-me melhor do que receber uma camisola que nunca se vai vestir ou um bibelot qualquer que acabará no fundo de uma gaveta 3 dias depois. Acho isso mais triste do que receber um dinheirito (que, tudo somado, às vezes já é uma quantia jeitosa) e com ele ir comprar uma coisa que se queira e goste mesmo. Não significa que com isso se "despersonalize" (esta palavra existe?) o Natal, já que se pode sempre juntar no envelope um postal bonito com uma mensagem pessoal e sentida. A minha Avó materna escrevia-me uns postais lindos e poéticos - chegou a escrever em verso, mesmo -, na sua caligrafia cuidada de professora, que terminavam sempre com um "da muito amiga Avó X" que hoje guardo com todo o carinho como recordação dela. Hoje faço o mesmo e escrevo postalinhos às minhas pessoas, pois acho que na verdade o que fica, mais que as coisas, é o sentimento com que se oferece.

Nut-ella disse...

Acho que, como em quase tudo, no meio está a virtude. Devemos dar o que as pessoas gostam, se pedem dinheiro, deverá ser dinheiro o presente. Por exemplo, sempre recebi dinheiro dos meus tios, que não faziam ideia do que eu gostava ou não, e a partir de certa idade também dos meus avós. Parece-me melhor do que receber uma camisola que nunca se vai vestir ou um bibelot qualquer que acabará no fundo de uma gaveta 3 dias depois. Acho isso mais triste do que receber um dinheirito (que, tudo somado, às vezes já é uma quantia jeitosa) e com ele ir comprar uma coisa que se queira e goste mesmo. Não significa que com isso se "despersonalize" (esta palavra existe?) o Natal, já que se pode sempre juntar no envelope um postal bonito com uma mensagem pessoal e sentida. A minha Avó materna escrevia-me uns postais lindos e poéticos - chegou a escrever em verso, mesmo -, na sua caligrafia cuidada de professora, que terminavam sempre com um "da muito amiga Avó X" que hoje guardo com todo o carinho como recordação dela. Hoje faço o mesmo e escrevo postalinhos às minhas pessoas, pois acho que na verdade o que fica, mais que as coisas, é o sentimento com que se oferece.

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