segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Quadripolares chamados à recepção!

Quando eu era pequena a minha mãe obrigava-me a escolher brinquedos em segunda mão para entregar no serviço de Pediatria do Hospital de Alcoitão, onde eu permanecia internada por longos períodos, embora nunca tenha calhado que lá estivesse por alturas do Natal. 
Era fácil para mim escolher brinquedos que já não gostava, já sem interesse, demasiado infantis ou ultrapassados, gastos e usados para que outros meninos pudessem usufruir deles. Para além do mais, as minhas idas mensais às consultas naquele serviço permitiam-me matar saudades deles, como se fossem filhos que damos para adopção. Ser filha única é tramado. 
No entanto, no dia a seguir ao Natal o desafio complicava-se: de entre todos os brinquedos recebidos, todos os que constavam na carta ao pai Natal, todos novinhos em folha, tão lindos, tão desejados e tão meus, a minha mãe convidava-me a escolher um, ainda na caixa, de entre aqueles que eu gostava mesmo, mesmo, que desejava mesmo, mesmo, para entregar a um dos meninos internados. Porque isto do altruísmo é bonito- que é!- mas dar o que gostamos, o que desejamos para que outro menino experimente a emoção de desembrulhar uma prenda nova, de lhe rasgar o papel, de abrir a caixa, desapertar os elásticos e cheirar o cheirinho a novo do brinquedo que era suposto ser meu, isso é que era de valor. A minha mãe obrigava-me convidava-me a oferecer o que era bom, importante e especial para mim para que, em troca, eu recebesse a alegria de ver alguém sentir por um objecto o mesmo deslumbramento que eu sentia. A magia do desembrulhar.


De 22 a 28 de Novembro a Lanidor está a oferecer vales de roupa em troca de brinquedos em 2ª mão, brinquedos estes que serão doados às Aldeias S.O.S. e à Casa do Gaiato.
Quanto mais brinquedos dermos, mais recebemos em vales de compras na Lanidor na mesma lógica do "fazer o bem é como uma procissão: volta sempre ao local de onde partiu!"
Quinta-feira lá estarei a entregar os brinquedos da Ana, os em segunda-mão e um novo, para que algum menino possa brincar a estrear. 
A Ana irá comigo porque educar também é isto, aliás, educar é muito isto, afinal. 

7 comentários:

O Sexo e a Idade disse...

Aqui por casa fiz sempre assim com o meu filho; percebi que tinha acertado em cheio no que fazia, quando, aos 4 anos, passou ele a fazê-lo sozinho (a escolher o brinquedo mais bonito e a pô-lo de lado para dar) sem que alguém tivesse de lho lembrar.
É mesmo assim Pólo!

Sonia disse...

por aqui eles fazem a seleção e eu compro um novo com eles pelo mesmo motivo

cantinho disse...


E é desde pequeno que se educa.
Gostei da sua história.
Eu nunca dei nada, em miúda, porque os meus pais davam roupa aos filhos. Não me recordo de ter uma boneca e, talvez por isso, eu não gosto de bonecas.
No entanto, os brinquedos que posso adquirir, ofereço na escola, no ginásio, em qualquer lugar.
Beijinho

mariaquarenta disse...

A senhora sua mãe deve ser uma grande mulher...
Deitou sementes que estão a chegar longe.

40beauty disse...

E a senhora sua mãe deve ser uma grande mulher...
Deitou sementes que estão a chegar longe.

Mamã Petra disse...

Ai!!!!!!!!!!!!!! Ursa!!!!!!!!!!
Ciscos logo de manhã mulher!!! Isto é educar, isto sim é educar, e fico feliz por não estar sozinha no mundo a tentar criar 4 seres humanos de que todos se possam orgulhar, agora sei que a tua Ana também será um deles, desses seres humanos fantásticos, duvidas não tinha, mas cada vez que leio um destes posts fico feliz de te conhecer, de partilhares comigo e com mais uns milhares, Obrigada Ursa, tu não és grande és enorme. Agora vou ali fazer uma recolha com 3 crianças cá de casa. Este ano os novos vou dar a uma instituição da minha cidade, e que me toca todos os dias por saber das histórias dos que lá vivem na 1ª pessoa.
Beijinhos

SN disse...

Fugindo um bocadinho à linha do teu post, tenho alergia à onda de escolher brinquedos para dar aos pobrezinhos, por altura do Natal. Primeiro, porque não se educa porra nenhuma quando só acontece uma vez no ano e até soa snob. Não quero com isto dizer que não aproveite esta altura para escolher brinquedos para doar. Mas escolho eu e eles não sabem. Não consigo mesmo engolir o discurso dos meninos coitadinhos e nem pensar pregar esse sermão aos meus filhos.
Acho uma hipocrisia faze-los escolher brinquedos que gostem e com que brinquem para dar. Por acaso os adultos agarram na sua prenda preferida ou objetos que mais apreciam para oferecer a outros e assim dar o exemplo?
Tenho a certeza que todas as tuas iniciativas solidárias serão bem mais educativas e inspiradoras para a Ana. bjinhos

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