quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Três razões racionais porque se deve ter um filho (e uma emocional)

Pediu, um dia, a São João: "Dêem-me três razões racionais e não emocionais para ter filhos" 

Respondi, na altura, eu:

 1- Teoria frustração-agressão: resolves todos os recalcamentos que tiveste na infância sem teres que recorrer a psicoterapeutas. Não é mais barato que psicoterapia, é certo, mas é uma terapia permanente e longitudinal. Deve compensar se tiveste uma infância tramada.Por exemplo, hoje a Ana tem calçados uns sapatos de verniz: pirosos, desadequados, festivos, pretos de verniz. Fazem um barulho específico com a sola como só fazem os sapatos pretos de verniz. E ela diverte-se com o barulho. E eu, que sempre usei botas ortopédicas e, quando deixei de as usar, já não tinha idade para usar sapatos de verniz faço assim um manguito enquanto deito a língua de fora à minha infância: "Tooooooma!"

 2- Teoria da redução da dissonância cognitiva: sempre que não podes fazer alguma coisa porque estás na penúria (tipo, ir passar férias ao Japão e à Coreia, ai eu queria tanto, camandro!) justificas a ti mesma que a culpa é da despesa que dá ter um filho. Mesmo que tenhas tido um filho aos 50 anos e antes disso não tenhas saído do Algarve, a justificação é plausível e até te consegues convencer a ti mesma. Ou se estás tão tesa que não podes ir jantar fora com a mesma frequência ou ires a eventos sociais, dizes para ti mesmo que até podias dar o jeitinho, mas os miúdos, os miúdos, com quem ficam?, e se estranham a babysitter que nunca poderás pagar?, e não vais gastar o dinheiro extra que não tens em frivolidades que os miúdos dão tanta despesa?. Estás gorda e não te apetece fazer ginástica para perder peso e não tens pingo de motivação? A culpa da gordura é sempre do pós-parto e, quando deixa de ser, não podes fazer exercício que ficaste com o útero descaído, e estás gorda por causa do desarranjo hormonal da gravidez e continua a comer que nem um bisonte, mas a culpa é dos nervos, as crianças provocam muitos nervos. Os filhos servem de desculpa para tudo aquilo que estás em negação de que não voltarás, claramente, a voltar a fazer da mesma forma que fazias antes de seres mãe. E reduzem grandemente a culpa que sentes por inventares tantas desculpas para não te confrontares com a realidade. 


 3- Podes ter sorte no potencial genético e a miúda sair magra, loira, de olhos azuis e vir a ser uma Giselle Bündchen e safas-te na velhice, tipo D. Dolores feats Edwina das AbFab, e depois podes usar t-shirts justas da Lacroix e cagas para a noção de ridículo e curtes à grande e à francesa a menopausa. Se a tua filha não te aparar esse golpe vendes as fotografias dela em criança, despidinha a tomar banho, às revistas dos paparazzi e safas-te na mesma, "que é bem feita porque o cão tem a mania que é espertalhão".

Razão emocional- A vida fica, efectivamente, mais feliz. Passas a acordar bem disposta quando ouves os sons dele primeiro, depois as palavras, as cantigas matinais e os acordares com beijinhos lambuzados. Nunca mais se volta a acordar de mal com o Mundo, sair da cama tem uma razão de ser, um sorriso à espera. Se  a tua relação antes de ser mãe era boa, tende a melhorar (os filhos são umas lupas das relações: ampliam as coisas boas e as coisas más, se houver mais coisas boas, é sempre em crescente), existe algo que te une ao homem que escolheste e que perdurará para além de vocês e da vossa relação. Há um objecto de amor uno e comum, que completa toda a dinâmica familiar, como se sempre lá tivesse estado mas só agora com a sua chegada tenha completado o puzzle. A tua família estará, invariavelmente, a rir. Sorrisos quando se abre a porta, mãos estendidas, colos disponíveis, beijos e abraços sem fim, exclusivos para aquela extensão de ti (em 33 anos acho que a Ana pacificou a minha mãe com a vida, desvendando-lhe risos diários, melodias inventadas, brincadeiras de uma paciência sem fim, histórias partilhadas e cumplicidades construídas dia após dia. Em 33 anos nunca vi a minha mãe rir com tanta vontade, sorrir com tanta ternura e amar com tanta disponibilidade, sem medos nem responsabilidade, sem regras nem fronteiras. Em 33 nunca vi a minha mãe tão feliz como quando está com a Ana).  Esta é a razão emocional mas, com filhos, o Mundo parece mesmo um sítio, um bocadinho, melhor. 

8 comentários:

Simplesmente Ana disse...

Ainda hoje não sei responder a essa pergunta. Nem de forma racional nem emocional. Simplesmente senti que queria ser mãe...sem razão. Não foi porque queria alguém para me amparar na velhice (credo!), nem porque é a lei da vida (isso cada um é que sabe!), nem porque queria dar continuidade à família (ia tê-la só por causa disso?). Não sei. Mas adoro ser mãe e também sinto que a vida tem mais sentido. Mesmo que, às vezes, me apetecesse voltar à vida "irresponsável" por uns instantes.

mariana disse...

espero aperceber-me disto, quando for mãe :)

Making Little Stuff disse...

Estava na dúvida mas agora já decidi!... A teoria da frustração-agressão convenceu-me! :P

Paula disse...

Adoro as tuas explicações da psicologia.
São tão racionais e tão verdadeiras.
A emocional é ainda mais verdadeira!
vidademulheraos40.blogspot.com.

M D Roque disse...

Os filhos são aquele bocadinho de nós que apesar de ser sempre nosso, é privado durante uma mancheias de anos... Depois os sentimentos não mudam, mas eles crescem. Os avós é uma história á parte. Estou deserta por um presente desses, por sei que ainda tenho muito amor para dar, daquele amor que só as nossas crianças sabem receber e acarinhar.Avó não é a palavra mais linda do mundo ?

Isa Pereira disse...

O último parágrafo resume tudo. É isso que eu sinto em relação ao meu filho. Faz hoje 1 ano e 5 meses!

Bonitinha disse...

Pois eu queria muito ser mãe e lutei por três anos para isto, mas nunca senti este amor que ouço tanto as pessoas falarem. Acho que se alguém tem sérias dúvidas sobre ter filhos é melhor não ter... Às vezes pensava que era somente eu que me sentia assim sobre a maternidade, até escrever o que realmente penso no meu blog e descobri que não sou a única. A verdade é que este amor sublime não acontece para todas, nem mesmo esta forma de encantamento que cresce a cada dia.

São João disse...

As duas primeiras ainda vá, se bem que se podem condensar numa só, ter um bode-espiatório para tudo, agora a terceira é uma questão de sorte, também pode sair um estafermo inútil que vive até aos 50 anos em casa dos pais e depois os mata à catanada.

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