sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

À Margarida (não à leucemia da Margarida)

Querida Margarida,

Não sei se sabes mas nunca tive ninguém meu ente querido com cancro, leucemia ou carcinoma que o valha. Minto: a minha avó materna morreu de cancro da mama mas eu tinha 1 mês de idade e isso não interferiu nada com a minha vida, o meu dia-a-dia, transformando-a apenas na memória de uma pessoa querida. Por isso vais desculpar-me se cometer nesta carta alguma incorrecção, falta de sensibilidade ou tacto mas é a primeira vez que o escrevo para uma amiga.
Primeiro premissa: a leucemia pode matar. Por isso é normal que sintas medo, raiva, revolta, incompreensão e tristeza. A leucemia pode matar, é uma possibilidade, uma possibilidade como é a de eu morrer de acidente de viação (mámen conduz tão mal que nem te passa pela cabeça, a minha mãe nem se fala...) e olha cá ando, sempre a benzer-me antes de colocar o real traseiro no banco do pendura, mas cá ando. A leucemia pode matar mas ainda não matou (nem vai matar, acho que já leste aqui umas 534 coisas sobre profecias auto-confirmatórias, não preciso de repetir, pois não?), por isso, nada de dramas, ok? Acalma aí os teus cavalos e os cavalos dos que te rodeiam que isto quando a coisa fica bera há que manter o sangue frio (não vês o CSI?) e pensar em planos de fuga. Precisas de fazer os tratamentos? Faz. Precisas de estar isolada? Fica (se te emprestasse a minha sogra um dia ias agradecer esse mezinho de isolamento que era cá um regalo...) Precisas de radio? Quimio? Venham elas. Ninguém disse que era fácil (eu também não vou dizer, que gosto pouco de nhonhices) mas é um mal necessário.
Segunda premissa: não tens que ser forte. As pessoas vão-te passar a mão no ombro, esfregar as costas enquanto te abraçam e repetir a merda da lengalenga do "tens que ser forte" e eu acho mesmo que não tens. Não tens mesmo. Tens que ser frágil, chorar, ter pena de ti, apetecer auto-abraçar-te, tens que te permitir entregar-te aos mimos, aos cuidados de quem te ama, tens que ter raiva, tens que estar zangada, tens que isso tudo e mais um par de botas e só se te apetecer (e quando te apetecer) é que tens que ser forte. Agora, outra coisa diferente é que tens que colaborar e dar luta. Tens que confiar nos médicos, tens que procurar soluções, tens que ser muitas vezes racional e sempre lúcida. Não tens que ser forte, não tens que consolar os outros à tua volta, não tens que não ter pena de ti mesma (porque é uma pena que a puta da leucemia te tenha escolhido a ti quando há tanta gente ruim neste mundo), e não tens que não chorar. Não "tens que" nada. Aliás, tens: tens que te aguentar à bomboca, tens que deixar o tempo, os médicos, os tratamentos tratarem de ti, tens que viver isto com todas as emoções que te apeteça porque o pior de tudo é ter que ser forte porque sim, porque é o que os outros esperam e pedem. Não tens que ser forte o caralho, tens que te aguentar! Porque não tens outro remédio: aguenta-te e dá luta
Terceira premissa: não tens que ser forte e aguentar isto por ninguém, nem mesmo pelo teu filho. Tens que aguentar isto por ti: porque mereces viver, porque mereces ter oportunidade de passar o próximo aniversário do miúdo a lambê-lo com gosma e cuspo, porque mereces adormecer em casa, na tua cama, com o homem que amas, porque mereces levar com a chuva do Porto na fronha, respirar o ar do Norte, comer francesinhas em tascas manhosas, porque tens que ser mãe, tens que ser mulher e, mais que tudo, tens que ser pessoa e não apenas uma doente oncológica: não deixes que te resumam a esse papel, que te reduzam a um caso clínico. Tens que aguentar isto por ti, pela Margarida, pela Guida, ok?
Quarta premissa: o cabelo não é só cabelo. O cabelo é a tua imagem, a moldura do rosto, é a tua feminilidade, o cabelo conta, sim, os que o têm é que gostam de se armar em animadores e dizer que é só cabelo: não é. E sim, vai custar-te vê-lo cair, nada feito, vai ser foda! Sabes que eu não te minto. Mas ele cresce, quarailho, vamos ser práticas! Cresce, vai crescer e queremos é que estejas boa, cagamos de alto para a tua careca. Compra perucas e pensa que mais tarde as vais poder usar em fétiches com o teu homem. Compra uma loura, uma ruiva e uma morena. Aproveita para fazeres role-plays, reclamares o direito à tua quadripolaridade.
Quinta premissa: não estás sozinha. Para além de toda a gente que te rodeia, estou também aqui. Talvez não seja a pessoa mas fofinha, a que diga mais coisas acertadas ou as que mais gostes de ouvir, mas estou aqui. Se precisares que o pessoal organize uma nova brigada de recolha de medula, o pessoal ajunta-se, se precisares que a malta faça aí uma prece colectiva, uma macumba para o karma o pessoal alinha, se precisares de um pacto com o demónio, eu chamo a minha sogra, se precisares de te rir, chama-me, se precisares de chorar reclama o teu direito, se precisares de precisar, grita!
Eu acredito que vai correr bem (acredito mesmo!) e que isto vai passar. Mas que no caminho vais ter que dizer muitas asneiras. Estou contigo.

Um beijo,

Pólo Norte

18 comentários:

a palavra que me definiria aqui. disse...

nunca estive doente mas julgo ser isso, quase exactamente isso. <3

Simplesmente Ana disse...

Se eu fiquei comovida, imagino a Margarida.

Lúcia disse...

Margarida ♥

Polo Norte, organizar recolha de medula e/ou recolha de cabelo.
Para quem já é dador e quiser ajudar de outra forma o cabelo pode ser uma opção. (Tenho os requisitos e contactos se alguém o quiser doar).

Anabela Julião disse...

Ser forte, é isto! É isto tudo que disseste, é chamar todas estas coisas pelos seus nomes e é esta a verdadeira mensagem que pode ajudar a Margarida e outras pessoas a fortalecer a coragem do caminho a percorrer.
Vai à luta Margarida e não desanimes!

(Pólo, sigo-te há imenso tempo e não me lembro se alguma vez comentei, mas quero dizer-te que te admiro daqui até à lua)

Lili disse...

Um abraço.

Opinante disse...

Eu acredito em ti Margarida!

Lassalete Cunha disse...

Não conheço esta Margarida, mas conheço muitas outras que precisam ouvir exatamente isto que dizes a esta Margarida!

macaca grava-por-cima disse...

Ao ler isto só me apraz dizer que o mundo precisa desesperadamente de mais pessoas como a Ursa, verdadeiramente interessadas nas pessoas, em ajudar sem falsos moralismos, caridadesinhas e pena. De macaca para ursa: tens aqui uma fã!

Albina disse...

Obrigado Pólo! Sou enfermeira, trabalho num serviço chamado Consulta da Dor e acredite que dá tanta vontade de dizer isto tantas vezes... Mas quando tantas vezes médicos, enfermeiros, auxiliares, família e amigos, estão formatados para dizer e tornar o doente coitadinho, que fica difícil sair daquela bolha de proteção e dizer algo diferente... Porque muitas vezes é proteção pessoal da dor de alma que se acha que o doente está a sentir...
Mas tem razão, toda a razão, só espero que a Margarida a quem se dirige tenha fibra (como parece ter pela forma como a Pólo fala) e este "abanão" seja exatamente o que ela precisa - acredite muito dos doentes que me passam pela mão também se conformam com a pele de coitadinho, o triste fado português e dizer-lhes metade do que escreve provocava enfartes...

Obrigado pelas gargalhadas, pelas lágrimas, pelos nós de garganta e pelo quentinho do peito de tanto que escreve...
Bom Ano de 2014
Albina

Sonia disse...

As lagrimas só não correram porque falaste na tua sogra .
Mas que fiquei emocionada fiquei -vou torcer pela margarida

nos"entas!!!! ( e feliz) disse...

<3 Tudo de BOM para a MARGARIDA

Sonia disse...

eu partilhei porque há tantas Margaridas por este pais fora que merecem ler uma carta dessas.

Pipita de Chocolate disse...

Adorei a forma como te expressaste e penso que é o que quem passa por elas deve ouvir/ler e não frases pre concebidas de quem não faz ideia, mas que pensa que está a ajudar.

Á Margarida: parabéns por ter uma amiga como a Polo :)

Bigodes de Nata disse...

Envio daqui muitas energias positivas para a Margarida!

E aquilo que for preciso para ir à luta, vamos todos!!!

sushi disse...

Pronto, já me fizeste lacrimejar! Vai correr bem Margarida!!!

Medula disse...

Gosto de a ler, mas não costumo comentar. Este post tocou-me particularmente. Fiz um transplante medula no IPO do porto e sempre evitei que me rotulassem de doente oncológica. Talvez por isso, e pelas pancadinhas nas costas (que nunca quis) só passado muito tempo do internamento e tratamentos permiti que mais pessoas soubessem. Continuo a lutar e aguentar porque é o único caminho que se me apresenta neste momento. Mas apesar das inúmeras restrições que ainda me impedem de voltar a ser "eu", eu sou "eu" não a "coitadinha a quem isto foi acontecer".
Obrigada.

Maria Carpideira disse...

Eu, pessoa que já conviveu de perto com o bicho acrescento mesmo sem conhecer a moça, compra chapéus, lenços e um bâton de jeito e acredita nas coisas boas porque é em tirar partido delas que reside a vontade de viver

Maria Carpideira disse...

Eu, pessoa que já conviveu de perto com o bicho acrescento mesmo sem conhecer a moça, compra chapéus, lenços e um bâton de jeito e acredita nas coisas boas porque é em tirar partido delas que reside a vontade de viver

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