domingo, 22 de dezembro de 2013

Rainha morta, princesa posta.

Faz hoje dois anos que a minha avó morreu. Lembro-me segundo a segundo, minuto a minuto daquele dia, como se estivesse a observar a história do lado de fora, narradora não participante. 
Tocou a campainha cá em cima. Segundos antes ouvi os passos a correr pelas escadas acima do meu tio, a minha mãe no quarto ao lado, abri a porta e percebi sem perceber, entendi sem querer entender, sem palavras, aquela expressão desolada, de pura infelicidade, tragédia nos olhos. 
A minha avó morreu e eu não consigo esquecer, minuto a minuto, todos os movimentos daquele dia-deste dia- há dois anos atrás. A minha mãe a correr porta fora, doida de dor, a tentar fazer o que faz sempre: a tentar resolver, a tentar emendar, a tentar salvar a minha avó de uma morte que já tinha chegado. Eu no duche, as lágrimas em competição com a água a sair com tanta pressão do duche, eu a tentar lavar a dor, a esfregar a raiva do dia em que fiquei amputada de avó, bi-amputada da minha infância. 
A minha avó morreu e eu não queria ter a memória viva de todos os minutos daquele dia, queria esquecê-los, enterrá-los como fizeram com a minha avó- não quis ver!- e esquecer também o barulho seco da terra a engolir o corpo que foi meu colo, minha casa, minha terra toda a vida. 
Tenho saudades da minha avó. Todos os dias. Todos. Todas as horas na pele, todos os segundos na alma, toda a vida terei numa recordação viva, tão viva, do Minho na sua voz, cabelos pretos, olhos verdes, sardas semi-apagadas, mangas arregaçadas, minha avó, princípio de mim.
Sinto-a hoje viva na minha filha, no nome, nas expressões, naquele trejeito de olhos, nos lábios carnudos, no sorriso irónico, no ritmo do embalar, o mesmo, hoje embalo-a a ela com a mesma cadência, igualzinha, com que a minha avó mo fazia. As três numa dança espiritual secreta, tão nossa. 
"Eu vi a Amélia num arvoredo", "era meia noite cantava o cuquinho" e a Ana ressuscita-me recordações de um passado ainda mais para trás, a que nunca mais tive acesso enquanto a minha avó foi envelhecendo, um passado da minha infância cantada por ela, a Ana traz-me memória embrulhadas pela minha avó, anjo que a protege, que me manda agora mensagens de amor, de carinho, de afecto e de vida em canções adormecidas na minha memória, expressões enterradas na minha lembrança.
Faz hoje dois anos que morreu a menina da minha avó Faz hoje dois anos que, sem saber, renascia essa menina na mãe da Ana. Eu passado, eu futuro. 
Depois, chegou a Ana, Ana como todas as mulheres da minha vida. Como a minha mãe. Como a minha avó. Ana como a vida que nunca deixarei morrer em mim. 
Gosto tanto de ti, avó. Um beijo daqui, de nós, do plural que nasceu de ti. Um beijo de vida. Muita vida.


(Com um beijo especial para a minha Luísa)
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