quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Sem passar pela casa de partida e sem receber dois contos de réis

Uma das maiores dificuldades na forma como tive que reestruturar o meu auto-conceito depois da maternidade foi ter que me ver incluída no grande grupo das pessoas que são mães. De repente eu, ainda há bocadinho adolescente, recém-licenciada, com um cartão jovem não caducado na carteira que se fechava com velcro, eu a dos brincos de plástico que saiam nas batatas fritas pendurados nas orelhas, a do bip azul, estava numa cadeira de uma maternidade, vestida com uma camisa de noite largueirona de mulher, a segurar um bebé nos braços. 
Como é que isto me tinha acontecido, ainda outro dia era uma miúda e agora passava logo para o estádio de... mãe? Sem passar pela casa de partida, de ser "adulta", era logo assim à bruta? Mãe? Eu?
Percebi primeiro pelos outros que tudo tinha mudado para sempre: na maternidade começaram a chamar-me "Mãe", no centro de saúde, depois na fila do supermercado um dia uma avó disse para o neto "vamos deixar esta senhora passar à frente, que traz uma bebé". Era o fim: mãe e senhora. Aquela não era eu... 
Depois tive que me conformar: aos poucos aquele "mãe" ia preenchendo a minha identidade, eu sempre a lutar para que ocupasse em doses homeopáticas, segura que estava (estou) que sou muitas outras coisas importantes também: filha, esposa, profissional e, acima de tudo, mulher. 
Aos 33 anos sou mãe de uma miúda com 1 ano. A minha mãe, com a mesma idade, era mãe de uma adolescente com 13: que já dava beijos de língua. Um horror! 
A grande diferença entre as mães de hoje (eu) e as mães de antigamente é esta imaturidade emocional, esta negação do ser velho, adulto, chato. Hoje em dia as mães não querem ser senhoras, querem ser mães. Não vejo nenhuma das minhas amigas cortar o cabelo às filhas para crescer mais forte e mais bonito, deixando-as com ar de rapaz toda a infância. Não assisto a nenhuma mãe enfiar pelas goelas abaixo das crianças aquelas bolas horrendas de óleo de fígado de bacalhau. Acho que as mães de hoje ainda têm na memória muito recente as filhas que foram ontem, uma espécie de empatia que aproxima gerações. 
 A minha mãe, aos 33 anos, com uma filha de 13, era uma mulher feita, uma senhora. Usava pó de arroz. Eu sou uma mãe-miúda, acabei de ser filha ao virar da esquina, às vezes digo que a miúda é minha sobrinha, depois roo-me de culpa, encho o peito com o fôlego da maternidade, olho-me no espelho e não tenho o cabelo curto que as mães da minha altura tinham, diz que era mais prático, nem as pantufas de pêlo, pago para não usar sapatos de salto alto, não coloco rolos no cabelo para ir para a cama, não sou uma senhora, caraças, e no final de contas nunca deixarei de ser eu, esta miúda-mãe, afinal, pelo que, por favor, vão chamar "mãe" a outra, sim?

13 comentários:

Cristina disse...

À bruta...mas ternurento :)

miadosantos1 disse...

eu tive a minha filha precisamente com 32 anos e andei baralhada durante uns tempos. depois passou-me, e agora, depois de muito tempo, deu-me para fazer reciclagens e "cenas "decorativas de natal. vai-se lá perceber!

Solana disse...

Como te percebo....

Bigodes de Nata disse...

Não deve ser fácil... No fim de contas deixa-se de ser uma mulher aos olhos dos outros e passa-se a ser mãe e isso deve ser complicado gerir... Já eu sou "olha coitada não consegue/não quer ter filhos, deve ser muito velhaca, deus castiga" eheheheh

mariana disse...

fod** escreves tão bem ursa

Portuguese Girl With American Dreams disse...

Ora nem mais:)

IsaMar disse...

Somos mães diferentes mas não deixamos de o ser... Os tiques hão-de lá estar com o tempo.

Bolachas disse...

Há tantos anos que cá venho e este foi, sem dúvida, o texto com que mais me identifiquei. Com uma grande diferença: tenho 33 e sou mãe de uma menina de 13. Também eu me sinto uma miúda-mãe e sou mãe de uma miúda-miúda. Questiono-me todos os dias, todos os dias mesmo, se estou a fazer um bom trabalho, se estou a saber educar, se sou uma boa mãe, mesmo me sentindo, ainda, a crescer com a minha filha. Não sei se estou pronta para os próximos desafios. A entrar na adolescência, a minha filha precisará de uma mãe-mãe e não sei se estarei à altura do desafio.
Ser mãe aos 20? It sucks!!!

linhapontolinha disse...

Sou mãe à 8 anos, e continuo a pensar exactamente o mesmo...
Fonix!

macaca grava-por-cima disse...

como podemos ser mães se ainda somos tão filhas não é!!!??? devia haver uma hormona qqr que nos punha logo com coportamentos típicos de mãe e era muito mais fácil... Chiça que esta coisa de crescer dá muita trabalho!!! Mas é bom

Cristina disse...

Também tive a minha filha com 32 anos. Na prática, não me mudou em nada. Continuo a mesma miúda com os mesmos gostos. Essa história de que a maternidade muda a nossa vida e até a nossa maneira de ser, não encaixa em mim. Graças a Deus....

Angela Mestre disse...

Sou mãe de uma menina com 2 anos.. e tenho 39.. sinto me tantas vezes assim.. obrigada.. já não me sinto sozinha..

Portuguesinha disse...

Bonito texto.
Mas pensei que ias dizer que andavas pelo início dos 20 quando deparo com a "bela" idade de 33 :D

Brincos de plástico das batatas fritas já foi há muuuuuito tempo!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...