domingo, 5 de janeiro de 2014

Estamos de luto porque morreu um de nós

" Eusébio partiu no dia 5 porque tinha encontro marcado no céu para o Dia de Reis."

Como sempre há de tudo: os que dizem que o Eusébio era só um futebolista e não percebem o porquê de três dias de luto nacional quando morreram bombeiros e ninguém os reconheceu; que o Eusébio era do Benfica e por isso não se percebe tanta histeria colectiva e, finalmente, (a minha preferida) que o "Pérola Negra" era um grande homem mas que também não era preciso tanto. 
A Daniela Mercury a esta hora morre de vergonha da confusão cromática e eu sinto-me um bocadinho embaraçada com as barbaridades que leio no facebook. 
Não foi o homem que morreu: foi um bocadinho da nossa identidade nacional porque os países são feitos das suas gentes e das histórias das gentes.
Morreu um artista e o país está de luto como só fica quando morrem os artistas. Eu só me senti nacionalmente orfã em três momentos: quando a Amália morreu, o Raúl Solnado e agora. Há um denominador comum entre estas três pessoas para além do carácter e da dedicação e amor à sua arte: a representatividade de um povo. Em quantas das minhas viagens depois de responder de onde vinha ouvia do meu interlocutor a referência à Amália e ao Eusébio? Dezenas e dezenas de vezes, como se o Eusébio fosse uma espécie de gps de Portugal, a referência do Mundo a um país pequeno, quase esquecido mas recordado pela sua arte. 
A arte na voz da Amália, no riso do Raúl e nos pés do Eusébio: uma espécie de cabeça, tronco e membros de um país. 
Morreu Eusébio e perde-se, pois, um bocadinho da identidade de um país. Por isso estamos de luto, sem clubes, profissões ou artes. 
Estamos de luto porque morreu um bocadinho de um país, do símbolo agregador de um país. 
Estamos de luto porque morreu um de nós. 

12 comentários:

DN disse...

é isso tudo, nem mais.

Ana disse...

Pólo, na verdade o Eusébio sempre foi conhecido como Pantera Negra, o Rei, e até mesmo Pérola Negra.

Paula disse...

Concordo!
Palavra de Sportinguista!
vidademulheraos40.blogspot.com.

Pimpas disse...

À parte comentários estúpidos do facebook, alguns outros, só comentam o facto de não ter sido feito o mesmo para personalidades que, se não são mais importantes para a visibilidade e identidade de um país, são-no noutras faces de um país que se quer plural e completo. Não deixa de ser verdade, no entanto, que muitos outros do nosso país não foram tão falados pela imprensa estrangeira como Eusébio. Agora, na minha opinião, e ela vale o que vale, isto não deixa de revelar uma sociedade que, infelizmente, tem as prioridades trocadas.

stiletto disse...

Texto espectacular mas outra coisa não seria de esperar de ti.

Bicharocos Carpinteiros disse...

E é mesmo isso!
Obrigado, mais uma vez.

Vanda Fidalgo disse...

Futebóis à parte... O nome das primeiras lontras do oceonário foi escolhido por votação popular sendo que os nomes escolhidos foram... Amália e Eusébio.
Dito isto pouco mais resta dizer sobre identidade nacional.

Inês E. disse...

O F do Futebol é o Eusébio. E os mitos nunca vão ser substituídos por outros. E perdeu-se mais um pouco do que somos como povo. Por isso é que fiquei sentida com a morte do Eusébio.

Pipa disse...

É isso mesmo! Muito muito bem dito e observado. Só lamento que tenha sido no meu dia de aniversário! Coisa mais esquisita!

A Página Trinta disse...

Eu não diria melhor!...

Pipa disse...

Ai que me faltou dizer uma coisa: este texto retrata mui bem a sensação que tenho quando faço o meu buço. Lá se vai o famoso bigode português!

POC disse...

Isso.
Fico muito triste por ver pessoas questionarem os dias de luto e tudo mais que referiste.
Desisti. Não tenho de dar lições de história e cultura do nosso país. Não me fica bem. Nem eu tenho essa capacidade. Apenas fico com a certeza que muitos não têm noção das coisas.

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