terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Memória das minhas "putas" tristes # 4

A vida encarrega-se de me lembrar, volta e não volta, a sorte que tenho por ter encontrado mámen. Sempre que há uma briga, um arrufo, uma discussão ou, invariavelmente, ele acaba a conversa a fazer-me rir e estraga o momento de tensão com meia dúzia de caretas e expressões indecifráveis em açoriano ou a vida encarrega-se de me pôr os pés no chão e chamar-me à razão.
Foi assim ontem: vi uma fotografia no facebook de um gatinho persa abandonado e lembrei-me que queria adopá-lo. Esqueci-me de um pequeno detalhe: mámen estava a dormir e não o consultei.
Hoje de manhã lancei-lhe a pergunta com uma estratégia igual à que usava com a minha mãe:
"- Vais buscar logo a Ana?"
-"Sim"
- "Levas a mala dela contigo?"
-"Sim"
- "Lembras-te de onde combinámos ir jantar com os nossos amigos à noite?"
- Sim
-"Podemos adoptar um gatinho?"
-"Si...Espera lá, matreira, que estava no embalo e já te ia dizer que sim!"
Disse que não e eu fiquei amuada. Danada. Amarrei a burra.
Cheguei aqui ao trabalho e abri o facebook. Um pedido de amizade novo e revirei os olhos. Não aceito pedidos de amizade de ninguém, todos os meus amigos já estão no meu facebook, não quero cá conhecidos, gente que encontro no café nem os pais dos colegas da natação da Ana .  Mas a vida- irónica- lembrou-se de fazer com que o Nuno me encontrasse.
O Nuno* foi o meu primeiro namorado, o rapaz a quem eu dei o meu primeiro beijo nas dunas da praia da Vagueira. Lembro-me tim-tim por tim-tim de todos os traços fisionómicos do Nuno: as sardas, os óculos, o cabelo escuro. Como teria envelhecido? Como se teria adultizado o meu Nuno, paixão de colónia de férias perdida há 20 anos. 
Confesso que fiquei nervoso quando carreguei no link do Nuno para aceitar o convite para o adicionar. Agora percebo que era uma premonição do meu inconsciente. 
Está igual o Nuno a quando tinha 14 anos e isso não é bom quando se tem... 35. O mesmo ar imberbe, adolescente seboso, cara de Adrian Mole, t-shirt de uma marca de cerveja na fotografia de capa, cabelo sem corte, o mesmo modelo de óculos, semblante bucólico de quem não espera muito mais da vida do que aprender a tocar na viola os acordes do "Don't you Cry" dos Guns. . 
Na fotografia de capa: um caniche nhonhó, o que é capaz de dizer muito sobre o Nuno actual, se eu fosse de fazer análises projectivas de perfil de facebook. Que por acaso até faço. 
Então uma pessoa guarda uma memória romântica e doce de um primeiro namorado e depois é isto? Só desgostos? Ar de totó sentadinho num banco com um canito de pilhas a tira-colo? É que nem sequer é um cão a sério, um Pastor Alemão, um Labrador, um Galgo. É um caniche, caramba! Ainda por cima anão. 
De repente a história do gato persa, o arrufo, o amuo deixaram de fazer sentido. O meu primeiro namorado tinha como fotografia de perfil um caniche anão o que prova, mais uma vez, que a paixão na era A.M. (antes de mámen) não era cega: era autista. 
Olha se eu fosse daquelas pessoas que casa com os namorados do liceu, para o que eu estaria guardada agora, han? 
Ok, (desta vez) ficamos sem gato. 




(* e, ironicamente, reparo agora uns mil anos depois deste post que o João o comentou. Sob pseudónimo. E eu- ceguinha!- na altura não identifiquei as pistas. Burra!)

11 comentários:

Rita Maria disse...

Não sei se te consola, mas o meu primeiro namorado, que ainda por cima é de certeza muito boa pessoa, tem uma fotografia de um daqueles cães de luta horríveis que metem medo ao susto e à estética. E tenho quase a certeza que não está a ser irónico.

S* disse...

O post tem graça, quem é que nunca se riu com a imagem de um ex namorado (quando ele muda para pior, claro)? No entanto, se fosse a ti, retirava a imagem que puseste no fim. Já basta o texto em tom gozão... o homem tem amigos, tem conhecidos, e não merece estar assim a ser achincalhado. :/

Rui Pi disse...

Uma das magias negras do Facebook é ver o quão bem estamos, quando comparados com pessoas do nosso passado. É mau, é verdade, mas acaba por ser inevitável. O destino encarrega-se de nos apresentar pessoas das quais já só lembrávamos o primeiro nome e dá para a risota, a pena, um post de blog... possivelmente todos em simultâneo.
Só eu é que não posso falar mal da minha primeira namorada, porque é a que ainda tenho agora, e pode dar barraco.

pipinhaeheh disse...

Concordo absolutamente com a S*. A foto era escusada.

pipinhaeheh disse...

Concordo com a S*. A foto era escusada.

Ana Ricardo disse...

Há memórias que ficam melhor como isso mesmo...memórias :)

Mary disse...

tu tens muita graça! aahahah curti.

mysupersweettwenty disse...

Ursa, olha que essa t-shirt é de uma concentração motard e tu tens alguns que te lêem ("calhou-me" um no PPC) portanto trata lá bem toda a gente :b

miadosantos1 disse...

o título chamou-me a atenção porque gosto do autor que escreveu o livro com o mesmo nome, depois o relato, regista memórias, que se calhar escusavam de ilustração, pois como comentam mais acima, é capaz de ser muito identificável(o mundo é pequeno, dizem)e às vezes ferem-se suscetibilidades.

AEnima disse...

O meu primeiro namorado tinha o dobro da minha idade, e do meu peso. Berdad... eu tinha 14, ele 28. Nao o reconheceria se o visse, so me lembro da banha. Espero que esteja preso por pedofilia.

car disse...

Ursa, isto para mim é bullying.

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