quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O elevador do demo

Tive uma reunião de trabalho num edifício antigo ali no Saldanha. Eu não tenho claustrofobia nem vertigens nem qualquer tipo de fobia para além de fobia a gente parva, pelo que, assim que me deparei com um elevador daqueles antigos, com aquela cancela, nem intelectualizei. 
Acho que fui meiga na forma como fechei a cancela de fora (o elevador tinha duas) e logo de seguida carreguei no botão para o quinto piso. O elavador subiu um patamar e ... meio. Deu-lhe um tilt qualquer e ficou encravado entre o primeiro e o segundo piso e eu fiquei estarrecida. 
Primeiro pensei racionalmente: vou tocar aqui no botão de alarme e alguém vir-me-á acudir. O elevador vintage não tinha botão de alarme. Segundo pensamento: vou dar aqui uns saltinhos a ver se ele desce para o primeiro piso e eu consigo sair pela porta. Primeiro salto e entrei em pânico que elevadores vintage aos solavancos entre dois pisos não é uma cena nice. Depois pensei: vou pedir ajuda. Estive ali uns dois minutos a pensar como se pede ajuda sem se parecer histérico (e eu já estava). Veio-me logo à cabeça os filmes hollywoodescos e disse baixinho uma vez "esse ó esse" mas soou-me mal. Repeti mais duas vezes mais alto e senti-me ridícula. Tentei um educado "Alguém me ajuda? Helllloooo?" mas todas as portas do prédio estavam fechadas com as suas actividades a decorrerem lá dentro e ninguém me ouvia. 
Comecei a transpirar e a pensar na minha filha que ia ficar orfã se o elevador caísse no fosso e eu quinasse. Comecei MESMO a ficar aflita. Larguei um "Ajuuuuuuudem-me!" e um "Sooooooccccoooorrrroooo+" e, mais uma vez e outra, senti-me ridícula. Comecei a ficar com lágrimas nos olhos a pensar quanto tempo ia ali ficar até vir alguém e perceber que eu estava presa. E se, agora com a mania do exercício com que os portugueses andam, toda a gente subisse pelas escadas e não se lhes decorresse que o elevador estava encravado? Comecei a dizer asneiras baixinho mais para desabafar que para ser ouvida.
Ouvi finalmente, a porta da rua abrir-se e larguei numa gritaria sem fim a ganir tudo o que me vinha à cabeça: "Socorro, ajudem-me, acudam-me, estou presa, help, esse ó esse". Lá me deram instruções de como deveria mexer na cancela de forma a trancá-la convenientemente e só depois o elevador começou a descer. 
No meio minuto que demorou esta operação e a minha descida de patamar e meio para o rés-do-chão do prédio fui a rezar para que não fosse o meu cliente e que não me tivesse ouvido a praguejar já que do ar descabelado não me ia livrar. Era, claro, que Deus quando inventou a lei de Murphy dedicou-a a mim. 
Fiz um sorriso amarelo, dei um ar (mais ou menos) controlado, larguei uma piada e subi a pé uns 23252728 degraus até ao quinto piso. E ainda agora estou a a pensar na dificuldade em se encontrar uma interjeição de pedido de ajuda com o mínimo de dignidade. 
É que "ésse ó ésse" soa mesmo, mesmo mal. Para a próxima grito "Ó da guarda!". Alguma sugestão?

10 comentários:

POC disse...

Esses elevadores têm realmente o truque das portadas de ferro. São giros, mas talvez medonhos. Mas giros.

É curioso como, mesmo em situações controladas (o elevador não ia sair dali, o ar não se "gasta"), o pânico se tende a instalar.

Em relação à correcta interjeição para pedido de ajuda com dignidade, importa dizer que fiz uma sondagem (na qual apenas eu participei) e chegámos à conclusão que "Atenção ao serviço" serve tanto para pedir mais um copo no bar, como a pedir ajuda num elevador.

POC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
IsaMar disse...

Situação horrível. .. Mas o melhor é tentar controlar o pânico. O e do meu prédio é assim e já me aconteceu o mesmo. Fiquei assustada, ê obvio, respirei o mais fundo que consegui e desatei a carregar nos botões e por magia lá se moveu. Prometi que passaria a ir a pé... Mas nada cumpri!

mgp disse...

Em tempos li que a melhor forma de chamar a atenção ( no caso era para evitar um assalto ou uma violação) era gritar Fogo!. A isso todos acodem não vá o fogo chegar-lhes perto

Dora disse...

Os verdadeiros "ascensores"!

Ana Chagas disse...


Ui Ursa, o que me fizeste lembrar agora!
Há anos o meu trabalho era num 5º andar de um edíficio de uma grande avenida lisboeta, com um elevador gémeo desse que retratas.
Entrei nele duas vezes unicamente, e jurei para nunca mais. Quando chegava ao 5º andar, até pingava suor dos nervos, pois a cada solavanco temia genuinamente que aquela coisa descambasse de vez.
O mais ridículo é que o botão do intercomunicador que abria a porta do prédio, esteve sempre avariada. Portanto de cada vez que era necessário abrir a dita a algum cliente lá a "je - estagiária" tinha que descer e voltar a subir 5 lances de escadas.

marta disse...

"Hey hey hey" tipo Robin Thicke =)

tia verde água disse...

ah ah ah! melhor só mesmo a de uma amiga minha que, pela primeira vez num daqueles elevadores onde se entra por um lado e se sai pelo oposto, chegou ao piso onde deveria sair virada de costas para a porta de saída. Como a porta por onde entrara não se abria, a sua primeira reacção foi começar aos gritos e aos murros à porta. Só se deu conta do erro quando ouviu alguém atrás de si a rir-se às gargalhadas!! :)
Quanto a pedidos de ajuda, que tal começar a cantar o "help" dos Beatles??? ;)
beijos

Ana Ricardo disse...

O que eu me ri, desculpa, que se fosse eu ficava pior :D e 'Óh faxavori?'

Bigodes de Nata disse...

ahahahah e chutos na porta, não? E gritar estou presa no elevadoooooooooor ahahahah

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