quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Primeiro duelo blogosférico de opiniões da família Norte: a primirmã é a favor

"Ana

Hoje conto-te de uma tradição, não só nossa, mas dos estudantes. Não te conto sobre os estudantes que morreram no Meco, tens tempo para ouvir sobre desgraças. Conto-te sobre mim com 18 anos, perdida numa imensidão que era a Lusófona, uma ilusão de quando ainda não conheces o que está para vir, com um frio na barriga e mãos a tremer.

Ao entrar na sala que me esperava, a então representante do curso de Arquitectura falava para uma multidão onde ainda não reconhecia caras. Esclarecia-nos sobre as praxes, lia-nos o código e perguntava-nos se queríamos, ou não, participar desta tradição. Eu quis, mas lembro-me de muitos abandonarem a sala. E lembro-me dos que ficaram.

Ao final do dia, fiz questão de ir para casa ainda com ARQ escrito na testa, na mão o Passaporte de Caloiro, onde figurava o nome de praxe vergonhoso, cuidadosamente impresso e dobrado num livrinho que ainda guardo, junto com a t-shirt de caloira.

Ao longo do tempo fui coleccionando momentos. Por entre Rally Tascas e jogos temáticos (que iam desde questionários de arquitectura a brincar como crianças, balões de água e farinha, a correr pela relva, perdidos de riso) acabei por ganhar laços, que hoje sei, talvez nunca tivessem sido formados. Fui Miss Caloira. Recusei praxes. Fiz muitas outras e ainda hoje me consigo rir delas. No final desse ano trajei. E foi um momento de tanto orgulho. Por opção, acabei por deixar de praxar. Ser caloiro foi, para mim, óptimo, estar do outro lado não teve, efectivamente, tanta piada. 

Na bênção das pastas voltei a envergar a capa que, por entre as suas manchas, guarda tantas recordações. Gritei pelo curso, ri como antigamente e festejei com amigos, entre abraços de grupo e tendas improvisadas com as capas que nos protegiam da chuva e nos conferiam um momento só nosso. Chorei ao escrever fitas e chorei ainda mais ao ler as que me dirigiam. Chorei quando substitui as dos avós por fitas negras de luto e as saudades deles me assolavam.

Nesse dia celebrei o final do meu percurso académico, num almoço que sentava toda a nossa família, onde tu figuravas numa t-shirt que dizia " A minha Tidinha é Mestre Arquitecta", ao meu lado Mr Right Now, e à frente o meu padrinho de curso (a quem continuo carinhosamente a chamar Padrinho), melhor amigo, que nunca teria sido se não fosse esta tradição.

   À noite brindei com o curso, pelo curso.

Ana, se um dia te decidires por uma formação superior, espero que não te roubem a opção de, se for do teu agrado, um dia puderes ter o orgulho de dizer que foste praxada, de puderes envergar o traje no dia da tua bênção, de guardares as tuas próprias histórias na tua capa e, se te der uma prima, lhe dares a hipótese de te mostrar numa t-shirt o orgulho de toda a tua família. Porque afinal a praxe é, e espero que continue a ser, uma tradição opcional. "

6 comentários:

luisa, the clerk. disse...

respeito o gosto pelas praxes desde que não obriguem ninguém a fazer o que quer que seja. na minha opinião pessoal e subjectiva, não gostei do muito pouco em que participei como caloira e recusei praxar ou ser "madrinha" de quem quer que fosse. percebo a parte do orgulho de entrar para a faculdade, percebo o querer encontrar pessoas novas e "fazer amigos" (é um conceito que se desvaneceu com a idade, não acredito que se possam forçar amizades por copos e afins) mas, simplesmente, acho que há outras formas mais dignas e divertidas de o fazer e demonstrar. mas lá está, é uma opinião e, se um dia, uma filha ou um filho quiser ser praxado e praxar, tem o meu apoio. Até ao momento em que abusar / gozar de alguém ou for abusado / gozado. Esse é o momento em que o meu apoio se vai num ápice.

isa disse...

Adorei, até me emocionei! Que saudades da praxe.

0000 disse...

Não fui praxada e não sou contra as praxes, sou contra sim a autonomia que as instituições académicas permitem aos seus alunos para decidir o que fazer nas praxes sem qualquer tipo de envolvimento e controlo nas mesmas, bem como as consequências de quem escolhe não participar nelas.

Estive em duas instituições académicas como aluna e na primeira a minha experiência com as praxes foi a seguinte: no dia de apresentação foi-nos informado que haveria uma "primeira aula" inaugural no início da semana seguinte de comparência obrigatória a todos os novos alunos, de todos os cursos. Esta "aula" seria o início de uma semana de praxes, como eu percebi. Os próprios professores incentivaram a comparência dos alunos, sabendo obviamente do que se tratava. Não posso falar em primeira mão do que se passou, porque como percebi não estive presente nesta primeira semana, no entanto, posso falar dos relatos posteriores e de uma das consequências de não ter ido.

Na primeira semana de aulas só se falava das praxes, e os relatos que ouvi foram, primeiro, da completa desorganização das mesmas. Muitas pessoas, tal como a autora, defende a prática e participação nas praxes pelo facto de ser uma forma de se ficar a conhecer os novos e os antigos colegas do curso que se vai iniciar. Isto não aconteceu nesta instituição. Não houve qualquer tipo de atenção e preocupação em juntar os alunos por curso, foram formados grupos completamente aleatórios, por ordem de chegada. Depois das actividades ao ar livre, cada grupo foi para uma sala fechada, de onde algumas alunas íam saíndo a chorar, devido à pressão que sentiram para fazer coisas que não queriam, como por exemplo a simulação de relações sexuais.

Foi criada uma espécie de pontuação para cada aluno consoante o tempo de presença nesta semana de praxes, em que a pontuação máxima foi dada a quem esteve presente durante toda a semana e nenhuma a quem não esteve presente. Esta pontuação foi utilizada como método de selecção de prioridade quando chegou a altura de escolher turmas e horários. A grande maioria dos alunos (pelo menos do meu curso) morava em apartamentos alugados ao redor da mesma. Eu morava a cerca de 50km e a cerca de 1h de distância de transportes. A questão dos horários era de extrema importância para mim não só por causa disto mas também porque podia evitar, para poupar dinheiro à minha família, almoçar todos os dias na faculdade - que era privada e para além do custo das propinas e do transporte, não era possível comer uma refeição por menos de 5€ (5*5=25€/semana, 25*4=100€/mês).

[Continua]

0000 disse...

[continuação]

Claro que este método de selecção de prioridades fez com que eu não tivesse qualquer tipo de escolha e fosse obrigada a ficar com o horário que pior me convinha (e que mais ninguém queria porque era o que obrigava a presença na faculdade todos os dias, de manhã e à tarde). Ora isto simplesmente não é justo. Não quero dizer que eu deveria ter prioridade sobre quem estava mesmo ali ao pé e até conseguia ir almoçar a casa todos os dias se quisesse, mas acho que o meu poder de escolha não me devia ter sido retirado pela minha opção de não participar nas praxes. Isto aconteceu porque a instituição permitiu dar esta autonomia e liberdade à comissão de praxes/associação de alunos/qualquer que fosse o nome de quem teve poder para tratar de uma questão que é administrativa. Eu deveria ter tido a oportunidade de pelo menos tentar ter vaga nas turmas/horários que pretendia e a minha decisão de não participar nas praxes não deveria interferir em questões administrativas.
Também cheguei a assistir a alunos a serem abordados por "veteranos" aos berros pelo facto de não terem participado nas praxes e a serem pressionados para se submeterem às mesmas.

Isto naturalmente não é nada comparado com outros relatos bem piores e mais graves que de vez em quando vão sendo expostos de outras praxes e consequências noutras instituições.

Na segunda instituição (pública), anos depois, fui aluna em horário nocturno, não fui praxada, nem ouvi qualquer tipo de relato depreciativo em relação às praxes.

Os relatos de pessoas que conheço que frequentaram outras instituições e foram praxados são maioritariamente positivos, todos eles referindo as tais ligações que são criadas e muitas vezes perduram no tempo com colegas de turma e de curso. No entanto, julgo que há já relatos públicos de situações inadmissíveis mais do que suficientes para que as instituições se envolvam e se responsabilizem por este processo.

[Continua]

0000 disse...

[continuação]

Sou a favor da escolha livre de cada um, e, por isso, defendo que a tradição das praxes perdure, mas não sem que TODAS as instituições passem a ser parte activa neste processo. Acredito que as comissões de praxe devem reportar a um membro adulto da instituição académica e que todas as actividades devem ser planeadas atempadamente e comunicadas à instituição, que deverá dar, ou não, o aval da prática das mesmas. Sempre que surjam queixas de alunos quer das actividades realizadas nas praxes, quer de consequências por não terem participado nas mesmas, estas devem ser levadas muito a sério e investigadas pela instituição. Os alunos que realizem acções que ofendam física, moral ou psicologicamente outros alunos devem ser punidos. Toda esta questão das praxes tem a ver com o bom senso e respeito pelos outros de quem as realiza. Ora neste contexto estamos a falar de adolescentes e/ou jovens adultos, muitas vezes ainda sem o seu carácter e personalidade completamente desenvolvidos, que facilmente se podem deixar levar pela sensação de poder sobre o outro e abusar deste mesmo poder (se até os políticos o fazem, quanto mais um bando de miúdos).

Toda a nossa vida em sociedade é regulada pelo bom senso e, para quem não o tem, há regras, leis e consequências para quem não cumpre. As praxes deviam ser tratadas da mesma forma e quem regula e é responsável pelas instituições académicas deveria ter esta noção e, por isso, manter-se a par e regular o que é feito e permitido em nome da mesma. A falta de envolvimento de muitas instituições e desculpabilização por esse motivo do que acontece em nome desta tradição é, para mim, completamente inaceitável e inadmissível.

0000 disse...

Mais (e por fim) das praxes:

http://www.ionline.pt/artigos/portugal/meco-vitimas-vistas-rastejar-pedras-nos-tornozelos

Para mim pura e simplesmente não é aceitável que a Lusófona não fale, não se responsabilize, pior, que nem tenha conhecimento do que estava planeado para o fatídico fim de semana em que SEIS jovens perderam a VIDA e cujas actividades estavam relacionadas com as praxes. (Não estou a dizer que o que levou à morte destes jovens aconteceu em ambiente de praxe, só o sobrevivente saberá, mas claramente, e isso já foi admitido, a organização daquele fim de semana foi feita pela entidade responsável pelas praxes. A Lusófona, bem como todas as instituições académicas, TÊM que ter conhecimento do que estes jovens planeiam fazer. Esta é a única maneira que faz sentido para mim que existam praxes. Com conhecimento e consentimento das instituições académicas).

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