segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Amar para dentro

Eu chamo-lhe a teoria do amor em casca de cebola mas para estes efeitos chamar-lhe-emos a teoria do amor matrioshka.
A primeira pessoa que amei incondicionalmente foi a minha mãe. Amor daquele tipo mesmo cego, amor de placenta, de cordão umbilical, amor para fora. A minha mãe é como a matrioshka maior, a mais robusta e a que alberga em si, como no seu coração, as matrioshkas mais pequeninas. No nosso caso, a mim. Agora à Ana.
Amar a minha mãe é amar para fora, amar numa linha hierárquica inferior, amar com reverência, admiração, com menos divisas da vida. Amar a minha mãe é amar sem responsabilidade de proteger, é amar em posição fetal, amar no colo dela aninhada, amar podendo ser frágil, pequenina, amar sabendo que tudo vai correr bem porque ela está ali, exoderme da cebola, matrioshka de fora, carapaça da minha alma, senhora de mim.
Foi com a minha prima, muito antes da Ana, que aprendi a amar para dentro. Amar sendo eu o escudo, eu o capacete, amar com a capacidade de dar o corpo às balas por ela, primeiro pequena, minúscula e frágil, depois maior que eu em altura mas sempre mais pequenina em idade e em mimo, a minha primeira caçula. O meu primeiro amor bebé.
Dez anos nos separam, a mim e à minha prima, cuja existência me ensinou a amar protegendo, amar com o peito inchado, amar com responsabilidade, amar dando colo, fazendo festinhas e dando beijinhos para o dói-dói passar, amar sendo brava, fingindo ser adulta, dando lições de moral enquanto aparava golpes, amar esboçando alguns sorrisos nas costas dela, amar sem dar parte fraca, amar com condescendência, com voz grossa e olhos arregalados, amor com colo. Colo meu.
 Foi com a existência da minha prima que aprendi a amar para dentro, pequenina matrioshka dentro do meu coração, por quem iria ao fim do Mundo para salvar, por quem enfrentaria intempéries e tempestades para ceder o meu agasalho, por quem daria um orgão do meu corpo, por quem faria sacrifícios para ver feliz.
Hoje, tenho duas camadas de cebola por debaixo da minha casca, duas bonecas matrioshkas mais pequeninas que tão bem encaixam dentro de mim. Mas foi, há 24 anos atrás, com dez anos de idade, que a minha prima me ensinou a amar assim: amar para dentro. 

Feliz Ano Novo Didi, caçula maior, raínha dos digitais! Love u. 

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