terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Glup!


" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e

— Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "

(autor desconhecido)

12 comentários:

Lia disse...

Eu sou mãe do meu avô.

Cristina B. disse...

Isto não se faz... Tenho vontade de chorar... tocou cá fundo ursa!

Alessandra Siarom disse...

E é só por isto que eu não gosto de fazer anos. Porque eu sei que se eu faço mais um ano, os meus pais também têm mais um ano. E eu não consigo imaginar a vida sem eles. Nem, antes disso, que possam ficar tão indefesos e que tenhamos de ter de "trocar de papéis". Que angústia...

pipinhaeheh disse...

Duplo glup. Principalmente porque a minha mãe está a iniciar essa fase. É um sentimento de impotência muito grande. Ver uma mulher que descia sempre as escadas a correr, começar a ter medo de andar, porque já caiu não sei quantas vezes. E não podermos fazer nada...

MHelena disse...

Eu gostei de ser mãe da minha mãe.
Mas acima de tudo, acho que ela gostou que eu tivesse sido sua mãe :-)

Bonitinha disse...

Este texto é do autor brasileiro Fabrício Carpinejar e realmente é muito bonito!
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/donna/noticia/2013/10/fabricio-carpinejar-todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai-4290444.html

luisa, the clerk. disse...

pois eu gostava de ter sido mãe do meu pai, de tê-lo visto a envelhecer. talvez seja egoísta mas é verdade.

Sofia disse...

Vejo a minha mãe, diariamente e há mais de um ano, a ser mãe da mãe dela.

Cristina Oliveira disse...

Este texto tocou-me profundamente uma vez que neste momento estou a passar por isto com o meu pai.

Ana disse...

ai :(

Luisa Bernardes disse...

É muito bom podermos mimar, tratar, acarinhar os nossos pais em fim de vida...deixa-nos um conforto na alma, uma sensação de partida em paz, de retribuição de todo o colo que nos deram!A porra toda é quando o fazemos a um filho!!! Isso é contranatura e não há tempo que nos ampare!

Luísa Pereira disse...

As imagens que este texto transmite são um retrato muito próximo da realidade na Casa Azul e das mudanças que fomos fazendo: tirar tapetes para evitar quedas, mudar móveis para aumentar o espaço de circulação e colocar as tais barras e corrimões para servirem de apoio, porque, como o nosso pai diz, as casas é que se têm de adaptar às pessoas e não o contrário.
Obrigada pela partilha! beijinhos

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