sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O meu amor tem lábios de silêncio e mãos de pianista

Estávamos juntos há nove anos, quase uma década, a primeira vez que senti, verdadeiramente, com todos os sentidos, que me amavas. É irónico que  esse sentimento tenha vindo numa manhã de Junho, no dia em que o meu avô morreu, tínhamos decidido há uns dias que nos íamos separar.
A morte veio depois da decisão da separação e o amor fez-se sentir já depois da  morte e da decisão da separação. Na casa que era nossa há quase três anos os teus livros começaram a ser encaixotados. Para te dizer a verdade a casa ficou vazia no preciso momento em que a estante começou a ter espaços vagos, ainda que o resto da casa tenha quase ficado intocável, deixavas-me tudo como uma espécie de vingança para te encontrar em cada objecto, em cada móvel, em cada divisão. Cumpriu-se.
Estava a estante despida de ti quando numa das últimas madrugadas em que partilhávamos a cama a campaínha da porta anunciou a morte do meu avô. Esquecemo-nos que o nosso casamento estava por um fio e que tudo iria em breve acabar quando me recolhi no teu colo a chorar como não me lembro de nunca mais ter voltado a fazer. Naquela abraço todo o teu amor, nas lágrimas que também te caiam dos olhos a mesma sensação orfã do avô que te ofereci juntamente com toda uma família caótica que te fez sentir um dos nossos. Já éramos, na altura em que decidimos que nos íamos separar, demasiado íntimos, próximos, demasiados unos, dez anos depois, embora nada disso tenha sido suficiente para nos fazer recuar na nossa decisão.
Os livros em caixotes, os meus nas estantes, meia biblioteca para cada um e estavam feitas as nossas partilhas, consumada a nossa separação de bens.
No dia em que o meu avô morreu, naquela madrugada em que a campainha tocou, dois anos após termos prometido amor eterno perante o Deus em que acreditas e os humanos que acreditam em mim, eu percebi que o amor e a vida são coisas diferentes embora já tivéssemos decidido que ambos tinham acabado. Mas, naquele abraço apertado deste abrigo à minha alma que acabara de ficar desalojada, coração despejado ao relento, sem-abrigo emocional, e me acolheste naquele abraço e disseste que ficavas, o tempo que fosse preciso até as lágrimas me secarem porque afinal o amor e a vida eram mesmo coisas diferentes.
E muitos dias depois, os que o tempo demorou a erguer-me e a secar-me os olhos, saíste de casa carregado com os caixotes dos livros e a aliança no dedo, agora tu com os olhos marejados da cor do oceano que atravessaste, logo a seguir, para poderes ficar longe de nós.
É irónico que a certeza de que te amava verdadeiramente tenha vindo numa manhã de Junho, no dia em que o meu avô morreu, tínhamos decidido há uns dias que nos íamos separar. 
Depois, a vida e o amor tornaram-se coisas iguais, não-coisas e o tempo trouxe-nos saudade de nós. E, um dia, percebemos que os livros (os meus e os teus) têm sempre  razão e que se pode viver feliz para sempre desde que haja amor, amor suficiente para se atravessar o mesmo oceano para resgatar o abraço que nos pertence, os livros novamente encaixotados numa viagem de regresso, a latitude, a longitude, os fusos horários e a vida acertados, num amor cheio de certezas, enfim.




17 comentários:

Sónia Barreto disse...

Será da TPM? Não sei. Só sei que chorei feita madalena a ler este texto.

Que bela carta de amor, bolas!

Pedro disse...

Lobe u!

Mulher Mesmo de Sonho disse...

Todo o amor é eterno, enquanto dura. E alguns, mesmo depois de terminarem.
Bonito texto.

Mulher Mesmo de Sonho
http://mulhermesmodesonho.blogspot.pt

Lady Cat disse...

que lindo pah!!

. disse...

Texto brutal!!! Parabéns!

acomidadavizinha disse...

UAU! Sem palavras :-) Arrepiou-me... O amor é mesmo uma coisa complicada, mas é tão bommmmmm!!!

tia verde água disse...

hummmmmm (suspiro profundo e 'gostoso'), gosto tanto de te ler!

Linhas Cruzadas disse...

lágrimas nos olhos...que raio de mulher racional que escreve tão bem as emoções.

António Jesus Batalha disse...

Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns, também agradeço por partilhar o seu saber, se desejar visitar o Peregrino E Servo, ficarei também radiante
e se desejar seguir faça-o de maneira que possa encontrar o seu blog, porque irei seguir também o seu blog.
Deixo os meus cumprimentos, e muita paz.
Sou António Batalha.

Sílvia S. disse...

Lindo!

big foot disse...

muito bom, como sempre )'

Andreia Miranda disse...

Porra, tu escreves tão bem! Que esse amor dure.

Bigodes de Nata disse...

Estou aqui cheia de ciscos nos olhos..... I love vocês, porra....

Menino De Sua Mãe disse...

é por estas e por outras que eu te leio.

és é uma parva porque quase me fazes chorar.

Sonia disse...

caraças pá deixaste-me de lagrima no canto do olho.....
Gosto dessas histórias reais em que o amor trás finais felizes ...

A. disse...

Como é possível escrever desta maneira?!Adorei! Fiquei arrepiada!
Ainda há histórias de amor...
Ana

Maria Pinto disse...

Às vezes, podes não ter a noção, mas com a partilha das tuas histórias dás uma lufada de ar fresco e esperança a quem a busca por entre palavras e experiências adversas.
E por muito que, em certos dias, tudo o que leve esperança seja riscado, outros há que acreditamos, há realmente histórias de amor que valem a pena e tão só por isso vale sempre a pena acreditar.
:)
Maria Pinto (So_risoIncógnito)

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