quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O post a(tordo)ado

Começou a tourada.
Fernando Tordo emigrou aos 65 anos para o Brasil. Eu admiro o Tordo que acreditou que nunca é tarde para se fazer à vida. E fez.
O Tordo emigrou e foi procurar alternativas. Quantos, aos 65 anos, não acabam por se conformar e deixar-se envelhecer, desistir de procurar e sentarem-se a ver os programas do Goucha, a dizerem mal do (des)Governo e a morrer devagarinho? Quantos têm a coragem e os tomates para dizer "basta" a uma situação que não conseguem sustentar e tentar fazer alguma coisa para a reverter com 65 anos?
Claro que há quem não possa, não consiga, não tenha recursos físicos, intelectuais ou ferramentas para o fazer. O Tordo ainda tem e usou-as, a seu favor, sem pedir subsídios, rendimentos de inserção ou depender do Estado. Agarrou na sua guitarra, na sua mulher e foi.
O Tordo emigrou aos 65 anos e eu tenho pena porque o Tordo não emigrou, segundo me parece, para ter uma vida melhor, luxuosa ou cheia de glamour. Emigrou para poder ter uma vida digna. Emigrou para ter trabalho remunerado e digno. É errado?
Os argumentos anti-Tordo são tão tontos que me dão azia. "Que o senhor não descontou para a Segurança Social e que geria mal o seu dinheiro e beca-beca". Que sabemos nós da gestão financeira do Tordo? Conhecemo-lo? Somos seus gestores de conta? Ou somos é bons, muito bons mesmo, a especular?
A mim parece-me que o Tordo viveu da sua arte toda a vida, com seriedade, dignidade e fiel às suas crenças e valores. Tal como o Paulo de Carvalho ou o Carlos Mendes E o Tordo foi um cantor de intervenção na altura em que cantores e futebolistas não eram Shakiras e Cristianos Ronaldos. E manteve-se fiel à sua arte a vida toda.
Os contra-argumentos continuam: " O que é que o Tordo é mais que os serralheiros que emigraram a vida toda?" Esta hierarquização das profissões não me parece justa. Porque é que um serralheiro vale mais que um músico? Esta crucificação das profissões intelectuais ou artísticas e desvalorização face a profissões físicas parece-me tão parva que mete dó. Eu preciso de passar uma ponte e do trabalho resultante de uma refinaria, sim senhora, mas a minha vida seria muito menos feliz sem música e sem os artistas que fizeram parte da revolução, dando-lhe voz e acordes, para que hoje pudesse estar aqui livremente a escrever a minha opinião. 
"Ai que está tudo com pena do Tordo e esquecem-se dos anónimos que partem todos os dias em todas as idades?" Eu acho que está tudo parvo! Mas desde quando é que temos quotas de lamento? Eu lamento por todos, por novos e velhos, emigrantes a vida toda e emigrantes recentes. E lamento, mais que tudo, as pessoas que partem não por escolha, não por opção, não para terem uma vida melhor, mas como única alternativa para terem uma vida digna. Lamento por todos. Lamento pelos serralheiros e pelos cantores, pelos quadros técnicos e especialistas a quem foi vendida, na minha geração, que um curso e educação superior era a chave para se ter uma vida melhor e que foram defraudados por (des)governos sucessivos. Lamento pelos profissionais indiferenciados. Pelos recém-licenciados. Pelos pais de família que vão sozinhos e vêm os filhos crescer via Skype. E lamento pelo Tordo que não sendo anónimo é o rosto conhecido que representa todos os que têm que partir sem querer partir. E lamento pelo Tordo e por todos os que aos 65 anos, uma vida inteira vivida na expectativa de uma velhice tranquila e sem sufocos, se vêm obrigados a partir. A recomeçar. 
A minha prima emigrará em breve para a Noruega. Vai-nos custar a todos mas-não me venham com merdas!- tem 24 anos, energia, coragem, saúde, ânimo e uma dose de loucura para enfrentar o desafio que se avizinha. É esperta, jovem, pensa fora da caixa e sei que tem muitos mais recursos para fazer face à emigração que a minha mãe com 54 teria, depois de 30 anos a descontar impostos, a construir raízes, uma casa, rotinas e uma vida toda estruturada num determinado sentido. Por isso, sim, lamento pelo Tordo. E por todos os que se venham a sentir compelidos a emigrar no fim da vida. 
Respondem-me que o Tordo fez um circo mediático em torno da sua partida. Eu acho que o Tordo é só um bode expiatório. Que toda a gente está muito zangada com a vida e tem que descarregar a sua frustração na saia da assessora ou no Tordo para se distrair. E percebo também outra das razões porque o Tordo partiu: não é bom viver num país assim, frequentado por gente zangada e que critica quem parte sem querer, quem parte para trabalhar sendo velho, quem parte com lamento. 
"Que vá! Que não faz cá falta nenhuma! Que só viveu de cantigas..:"   E eu tenho pena que quem diz (pensa) isto seja quem fica. Porque eu também quero ficar mas, infelizmente, vou acabar por ficar num país rodeada desta gente mesquinha. E atordoada.
E, então, percebo o Tordo. 

17 comentários:

Miss Pipeta disse...

Perfeito. Obrigada!

Dias Cães disse...

Eu percebo que o filho do Tordo tenha aqueles sentimentos e lamento.
Só não percebo é porque é que o Tordo há-de ser o coitadinho que teve de emigrar. É um português, como tantos outros que o estão a fazer.
Felizmente, ele até é dos que teve dinheiro para o bilhete de avião e que há-de chegar ao Brasil e ter quem o receba e oriente.
Coitadinho em quê, por amor de Deus?

Pólo Norte disse...

Dias Cães,

O coitadinho é interpretação. Os anónimos não têm rosto, a "mediatização" ou "caitadização" (que eu não interpreto da mesma forma que tu) e a sua personificação numa pessoa famosa/conhecida vem dar rosto à problemática. Acho positivo.

Dias Cães disse...

Fico indignada, apenas porque parece que foi preciso o Tordo emigrar para acordarmos para o drama da emigração, quando já todos nós temos amigos/familiares que tiveram de o fazer. Não percebo a mediatização deste fenómeno através desta pessoa. Só isso.

Lorena Del Mar disse...

Olá,

A carta do Tordo (filho) e tão comovente que me encheu os olhos de lágrimas!
Concordo com o que dizes, mas sobretudo não entendo que raio se passa neste país que não há noticia, que não seja acompanhada de comentários tenebrosos. Ainda no outro dia me espantava com os comentários no facebook do Publico à noticia sobre a Joana Vasconcelos, convidada a 2 meses das cerimonias de abril, ter recusado participar por falta de tempo. Os comentários iam de "puta" a "nazi". Como é que aqui chegamos? Como é que uma qq noticia é bombardeada com mimos destes! É por isso que é ótimo que fales nisto e que abanes consciências.

http://somaosdias.blogspot.pt/2014/02/do-insulto.html

Sérgio disse...

Ao contrário do que te parece e segundo palavras do próprio reproduzida na imprensa como tal. O Tordo emigrou porque "É muito provável que aproveite estes últimos anos da minha vida, porque não os quero consumir aqui. Eu não quero, eu não aceito esta gente, não aceito o que estão a fazer ao meu país. Não votei neles, não estou para ser governado por este bando de incompetentes" e ainda "Vou-me reformar deste país. Não me está a apetecer ficar aqui, de maneira nenhuma. Acho que ainda tenho muita coisa para fazer". Por isso comparar a sua ida como a de muitos que partem porque efetivamente precisam parece-me muito forçado. É o ir contra a corrente só porque sim.

rosa do deserto disse...

O que escreveste é tal e qual o que penso. Só não sei escrever assim tão bem, não me sei exprimir assim tão claramente...

Cristina disse...

A emigração não é nenhum drama. Na maior parte dos casos, é a sorte grande! Para ver o mundo, sair de casa, conhecer outras pessoas.

O Tordo vai ter provavelmente uma reforma muito mais animada do que teria em Portugal: a tomar chope na praia com chinelo no pé. Saiu-lhe a sorte grande.

Beijos
Cristina

Fernanda disse...

Ursinha,apoiado. Quanto aos comentários de que fala (também os li)as pessoas estão ressabiadas e, em lugar de usar o seu ressabiamento contra quem lhes estraga a vida, insultam aqueles que não se podem defender.É só isto! A crise, infelizmente, não é só económica-financeira, é também de valores: "dispara-se" ódio em todas as direções só porque sim!

Amigo Imaginário disse...

Eu que emigrei com duas crianças e um cão atrás, sem emprego, casa ou família para me receber, sei que ninguém deixa Portugal sem a saudade colada à pele. Novos ou velhos, anónimos ou famosos. A crise em que esse país está mergulhado (que está longe de ser meramente económica), criou uma nova emigração multigeracional, com motivações muito diferentes, que atravessa todas as classes sociais. Só há um denominador comum: a desilusão.

Bigodes de Nata disse...

Não me imagino a começar do zero com trintas quanto mais com sessentas!!! Muita sorte ao Tordo e a quem tem "coragem" ou necessidade de deixar tudo para trás em busca de uma vida melhor, é o que desejo....

Helena C. disse...

Concordo com tudo que escreveste! É muito triste vivermos num país em que todos os dias as pessoas têm de sair de cá à procura de uma vida digna, e pior é isso também acontecer a muitas pessoas com a idade do Tordo...

Marta Mendes disse...

O meu Pai emigrou aos 62 anos,para Moçambique. Sem direito a reforma apesar de trabalhar desde os 12 anos de idade (sim, muitos deles sem ter feito descontos, há 40;anos não se percebia a importância de os fazer e havia três filhos para criar!), sem direito a subsidio de desemprego porque os empresários a ele não têm direito, foi fazer o que sabe para longe da família e amigos. Deixou esposa, filhos e netos. Foi lá que soube que a filha estava gravida, só veio conhecer a neta quando ela já tinha dois meses, e já perdemos a conta aos aniversários, Pascoas e Natais que tivemos de passar sem ele. Pode ser só mais um, mas é um cuja falta me dói todos os dias um bocadinho mais.

Tio do Algarve disse...

Pelo que li dos comentários, estou em crer que um houve a tentativa de se fazer ao coitadinho. O que não quer dizer que a carta do filho não estivesse muito bem escrita. Compreendo o homem, estamos fartos. Os insultos são sempre deploráveis, qualquer que seja a situação. A mim tocou-me mais a situação que a Marta Mendes refere e que é muito mais comum do que possa parecer, infelizmente. A minha solidariedade vai para ela

Vera disse...

Eu, neta, filha, prima, sobrinha e irma de emigrantes, nunca tive os tomates que todos eles tiverem para emigrar. Tenho uma vida boa, que tenho. Custaria horrores ter de emigrar ao fim de 8 anos de vida de rotinas...quanto mais ao fim de 30 ou 40. Os meus emigrantes foram todos em novos, com a vida pela frente, com força e coragem. A minha emigrante maks nova, minha irmã, foi para se divertir, para estudar, para ganhar uns trocos e de caminho ver o mundo. Mas foi, porque nao queria contentar se com um trabalhinho das 9 as 5, como o meu. Admiro lhe a coragem tambem. Mas admiraria muito mais a ciragem da minha mae ou das minhas tias se aonfim de 30 anos de terem regressado, voltassem a ser emigrantes. Tocou me mais no coração ver o sr. Fernando Tordo emigrar do que ver os recem licenciados que por aqui nao arranjam emprego na area. Correndo o risco de ser apedrejada em praça publica...muitos dos recem licenciados de hoje nao aceitam iniciar carreira por baixo, aprendendo com os mais velhos. Muitos deles têm o rei na barriga e querem trabalhar na area, porque se nao for na area, nao trabalham. Eu tenho uma vida boa, que tenho, nao trabalhando para o que estudei. A minha irma e emigrante, nao trabalha no que estudou, e mesmo em portugal sujeitou se a muita coisa, para ganhar dinheiro para as coisas dela. Mas se fazem imensas reportagens sobre os recem licenciados que sao obrigadosa emigrar, nao vi tanto incomodo nisso, como vejo agora. Quando li a carta do João Tordo ao pai as lagrimas corriam imaginando ver a minha mae, o meu porto de abrigo ir embora. Vi e a minha irma ir quando engravidei, mas com orgulho porque vai ver o mundo, vai cheia de sonhos, mesmo que sacrifique uma meia duzia de anos sem o sobrinho. Mas ver a minha mae ir embora, seria mesmo muito doloroso. E comomisto ja vai longo, e melhor calar-me.deve ser o avançado da hora.

Sónia Barreto disse...

Concordo plenamente com tudo o que escreveste. As pessoas que maldizem o Tordo são mesquinhas.
Estamos a entrar numa espiral decrescente de valores e princípios.

Estamos a entrar na mesquinhez de achar que se o vizinho do lado ganha 1000€ é riquíssimo, por isso não se pode queixar da vida, quando há pessoas a ganharem o ordenado mínimo. Ou se o vizinho ganha o ordenado mínimo não se pode queixar da vida porque há quem nem sequer tenha emprego.

Onde é que isto vai parar? Em vez de criticarmos quem deve ser criticado, andamo-nos a criticar mutuamente. Critiquemos é quem nos colocou nesta situação e façamos algo que é na altura de votar.

Mas, na altura de votar, ou está a chover, ou está muito calor, ou temos mais que fazer do que ir votar...

Olhemos para nós próprios e para a nossa vida deixemos a vida do vizinho do lado!

Petra disse...

Não podia concordar mais, agora critica-se tudo, o Tordo por ir embora para o brasil, a Dora por trabalhar no Mack, precisam é de criticar, de mandar uma agulhada, de meter a unha suja em todo o lado... Cuspir farpas, arrotar postas de pescada!!! Ambos fizeram-se a vida de formas diferentes... Tal como muitos anónimos sem rosto que também o fazem.
Até porque quem critica não vai pagar as contas deles.

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