sexta-feira, 3 de julho de 2015

Só podes vestir uma camisola se tiveres dado ao pedal da máquina de costura? (repost)

Recebo emails de leitores deste blog todos os dias. Recebo comentários na página de facebook e na de perfil e mensagens privadas. 
Decidi dedicar o meu ano de 2013 à causa da recolha de possíveis dadores de medula óssea. Não foi uma decisão cerebral e muito racional, foi num impulso, como são quase todas as decisões da minha vida. Uma espécie de mantra, como diria a minha amiga Sofia. É bom ter como resolução de um ano dedicar o tempo e a energia livre a uma causa, seja ela qual for. Deitar sementes na terra, contribuir com umas gotas de água, pouco que seja, plantar um Mundo mais generoso, mais altruísta para um dia a Ana, a minha Ana, podes sentar-se à sombra dos valores que lhe quero deixar. Há sempre um certo egoísmo no altruísmo das pessoas, reconheço. Eu faço-o pela Ana. It's all about Ana. 
Lutar por uma causa é muito complicado nos dias correm, porque a solidariedade é um bicho que só se pode alimentar às escondidas sob pena de se parecer cagão, gabarolas ou peneirento, como se fosse vergonha lutar por uma causa, usar as ferramentas que se tem à disposição, mobilizar as pessoas que se identificam. Às vezes canso-me, canso-me muito, dessa gente que acha que só se pode vestir uma camisola se se tiver dado ao pedal da máquina que a costurou como se as causas tivessem dono, fossem propriedades privadas, com membros exclusivos e porteiros de discoteca a rastrear quem pode entrar. 
As pessoas não percebem. Perdi a conta ao número de emails que recebi de solidariedade e transmissão de força, porque para eu me dedicar à causa devia ter leucemia, coitadinha de mim, tanta força, tanta coragem. Ou a menina, eu não deveria querer dizer nada a ninguém mas esta luta toda devia ser porque a menina tinha nascido com cancro, pobrezinha. Seria a minha mãe que estaria a atravessar a doença? A minha avó- era isso!- a minha avó morrera recentemente, de certezinha que teria sido vítima de cancro, está mais que visto. Fui respondendo que não, perante o olhar desconfiado, confuso ou incrédulo da maioria das pessoas. Pode alguém tomar como sua uma causa que não lhe diz respeito? O que ganha? Para quê? Com que propósito?
Este ano, decidi que quero lutar pela liberdade e pela tolerância. Pelo direito das pessoas do mesmo sexo que se queiram amar sem ser às escondidas, pela co-adopção por progenitores do mesmo sexo, pelo amor sem géneros. Claro que logo houve quem, em tom jocoso, me tivesse perguntado se tinha mudado de orientação sexual. Ai que agora estava tão amiguinha dos gays e das lésbicas, "ui ui" também devia andar a "fessurar" (citando a delicadeza da escolha do verbo, pura poesia), estava mais que visto. As pessoas enojam-me e, para manter a cena zen ignoro-as e só reviro os olhos, mas reviro muito, tanto...
Não tive cancro, ninguém na minha família (até à data) teve cancro, a minha filha é saudável, sou heterossexual mas podia ser homossexual, tanto me fazia, sou pelo amor, mas sou pelo amor livre, acima de tudo, porque também sou livre para escolher as causas que me movem, que me fazem ter vontade de dedicar tempo, energia e garra em vez de alimentar raivinhas dos dentes de gente que continua a achar que só pode vestir uma camisola quem tiver dado ao pedal da máquina que a costurou. 
Porque se o design da camisola me diz alguma coisa e se a puta da camisola me serve, eu visto-a, pois então. "Chatinhos, dão licença? Quantos passos?"

22 comentários:

teardrop disse...

E mais nada!!!

cantinho disse...

Vista a camisola, tem estilo e garra para isso.
Bjs

Lili disse...

cá em casa todos os anos escolhemos uma palavra, que nos faça reflectir nisso e nos faça querer ser melhores, este ano a palavra é Tolerância, precisamente porque achamos que há muita falta no mundo...

Lia disse...

E aos anos que sigo este blog, já li por aqui tanta coisa que gostei e desgostei, e depois há os dias em que chego aqui e deparo-me com textos absolutamente geniais e que eu adoro e que podendo, também assinaria por baixo. De pé, Polo, a aplaudir-te este texto.

Bigodes de Nata disse...

That's why I Love You!!!
Houvesse mais gente neste mundo como tu!!! Isso sim, tornava este mundo bem melhor!!!


Chatinhos dizem: 3 passos de caranguejo :)))


(mas tu ignoras, revirando os olhos e dás 10 passos gigantes para a frente!!)

Sara Ferreira disse...

É assim mesmo, se não tivesse a certeza diria: Esta mulher é do "nourte, carago!!"

Ana disse...

Comecei a seguir-te pela causa. Eu já sou dadora de medula há muito tempo e "obriguei" a familia a alistar-se.
Agora sou pela nova causa. Toda eu sou pelo Amor. Todo e qualquer Amor. Nada pode mais que o Amor. E o teu Amor pela Ana, depositado nos outros, é bonito, enternecedor, inspirador.
Força!

Ana disse...

Comecei a seguir-te pela causa. Eu já sou dadora de medula há muito tempo e "obriguei" a familia a alistar-se.
Agora sou pela nova causa. Toda eu sou pelo Amor. Todo e qualquer Amor. Nada pode mais que o Amor. E o teu Amor pela Ana, depositado nos outros, é bonito, enternecedor, inspirador.
Força!

Bicharocos Carpinteiros disse...

E mai nada!
Está tudo dito e muito bem dito.
Obrigado!

Bicharocos Carpinteiros disse...

E mai nada!
Está tudo dito e muito bem dito.
Obrigado!

Ana disse...

Se as causas são justas e solidárias...força, sou por tudo o que se possa fazer para tornar este mundo um pouco melhor, porque para o piorar já andam cá muitos...e que o fazem tão bem !

a licenciada desempregada disse...

Assim é que é!!!
Através do teu blog é que soube de uma das campanhas para doar medula e tornei-me dadora. Fazem faltas pessoas como tu, que se preocupam com o outro e não olham apenas para o seu umbigo.

Paula disse...

Veste as camisolas em que acreditas que nunca te arrependerás!
Eu também luto como posso pela liberdade e tolerância, pois acho que há um longo caminho a percorrer. Dou dadora de sangue desde os 18 anos e (que eu saiba) ninguém na minha família já precisou de uma transfusão de sangue. Ah! Mas se um dia precisarem, gostaria que houvesse sangue nos hospitais!
vidademulheraos40.blogspot.com.

Filomena Silva disse...

Tudo dito!!! Continua como és Polo, porque o mundo precisa de pessoas como tu. Além de teres convicções fortes, lutas por elas e pela melhor razão do mundo.

osmimosdamae disse...

Boa!

Sofia Loves disse...

Mais um, tão bom! Essa camisola fica-te mesmo bem! :)

Pedro disse...

Essa gente merece toda um grande lol :D

(é pena que não "fessures", que eu tenho fantasias contigo a "fessurar". Com outras bloggers, claro está)

stiletto disse...

A estupidez humana nunca deixa de me surpreender. A mim nunca me passou pela cabeça ter uma ideia dessas. Espero que tenhas sempre energia para abraçares todas as causas que se "atravessarem" no teu caminho. Os chatos, para castigo, já têm que viver consigo próprios e com a sua pequenez de espírito.

Paracetamol disse...

Não sei se já conheces ou sequer se é uma petição à séria, mas não custa nada:
«PETIÇÃO CONTRA O REFERENDO E A FAVOR DA APROVAÇÃO DA CO-ADOPÇÃO E ADOPÇÃO POR PARTE DE CASAIS DO MESMO SEXO (atenção que os dados têm de estar completos para que possa ser entregue)» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT72135

Anaa disse...

Opá, quando uma pessoa pensa que não podes melhorar tu voltas a surpreender (sempre) pela positiva. Acho muito bem e admiro imenso a coragem e a iniciativa!

Patricia M.M.C. disse...

Apoiado! Uma criança deve crescer feliz, protegida e estar rodeada de amor, indiferentemente do homo/ heterossexualidade dos seus pais que providenciarão isso e muito mais.

A Limonada da Vida disse...

Como se só apoiasse os sem-abrigo quem já foi sem abrigo, só apoiasse as mulheres vítimas de agressão quem já foi agredido... mentes pequeninas, Pólo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...