segunda-feira, 10 de março de 2014

A Paula

"No início éramos três. Eu, ele e ela ( ela acabadinha de nascer, gordinha e amarela).
Numa noite fria e escura de Abril, no silêncio da madrugada, sem que ninguém a tivesse convidado a entrar na nossa casa, chegou a Morte Súbita com os seus pezinhos de lã (MALDITA!MALDITA! MALDITA! Nunca te hei-de perdoar!) e levou-o…
A ele, também nunca lhe hei-de perdoar por ter ido embora de mão dada com ela. Por ter aceite tão prontamente o seu convite e me ter deixado assim, sem aviso prévio ou explicação. Ao menos um bilhete colado no frigorífico.
Um dia, eu ajusto contas com ele…
A porta da rua ficou escancarada, uma corrente de ar gélida e medonha trespassou-me, ficou tudo escuro, e o raio do chão onde eu tinha os pés, desabou…
Senti-me a cair em queda livre, de uma altura tão alta, mas tão alta, que por momentos acreditei que morávamos no maior arranha céus de Nova York e não em Águas Santas.
Senti-me a morrer! Queria morrer!
Mas a Maldita estava tão entretida a apresentar a casa nova a ele, que nem ouviram a campainha e não me abriram a porta (eu sempre achei que ele era um bocadito surdo e a Maldita também deve ser.)
Como nunca fui muito bafejada pela sorte, caí na fossa. Felizmente sei nadar, mas custa muito sair da merda, sabiam?
Com muita luta e sinais evidentes de exaustão, lá se consegue sair, mas deixa um cheiro intenso e impregnado para o resto da vida.
Chamo-me Paula. E mais seis nomes que não vêm agora ao caso, que só servem para gastar tinta da caneta, quando me mandam assinar como no BI.
Esse mentiroso, diz também que nasci em 1984, mas eu acho que sou bem mais velha. Ou pelo menos, às vezes, sinto-me como tal e já me sinto tentada a comprar um anti-rugas.
Tenho a melhor Mãe do Mundo e o meu Pai mora no Céu. Um dia, também partiu de mão dada com a Estúpida da Leucemia e foi morar para casa dela. Deduzo que moram numa casa onde a campainha não funciona, porque também não abriram a porta à minha Mãe. Era coincidência a mais também não ouvirem a campainha, até porque o meu Pai não era surdo. A Estúpida não faço ideia.
Às vezes, fico a pensar, que os homens da minha vida tinham algum fraquinho por surdas, é a única explicação que encontro para me abandonarem.
Sou enfermeira por vocação. E por loucura... (Só um louco é que é enfermeiro!)
Se não fosse enfermeira, talvez fosse professora. Ou domadora de leões. Ou encantadora de cobras. Não sei, nunca pensei nisso…
Como a loucura é tanta, tenho Pós-Graduação. E Especialidade. E o raio da tese de mestrado para terminar (que não me servem para um chavelho, entenda-se). Em contrapartida, tenho um doutoramento em Gestão Doméstica que me dá um jeito do caraças.
Tenho um fraquinho (grande) por política e não percebo patavina de futebol. Não sei identificar um fora de jogo e muito menos sei, de onde se marca um livre direto (mas também não me faz grande falta…).
Sou fã da 7ª arte, mas não me perguntem por filmes e respetivos atores desde Março de 2012. Mas em contrapartida, dir-vos-ei o nome dos amigos todos do Panda, quem é o Barney e até o que canta a escanzelada da Xana TOC TOC.
Tenho a melhor filha do Mundo, já vos tinha dito?
Segundo a minha Mãe, eu sou a réplica mais que perfeita do “Zé das Medalhas”, porque também chocalho por todos os lados com as minhas pulseiras. E tal, como ele, às vezes estou certa e outras vezes estou errada. Ah, adoro pérolas.
Não gosto de tabaco sem filtro. Nem com filtro. Não gosto de tabaco. Mas não me incomoda quem gosta.
Não gosto de cabrito, mas gosto de caramelos de fruta e pacotes grandes de batatas fritas. E de rissóis de carne… Até já comi nabiças cruas (mas isso é uma história para outro dia).
Sou conhecida como a “menina do sorriso fácil”. Recentemente a minha boca transformou-se num autêntico campo de concentração, vedado por uma espécie de cerca elétrica e arame farpado. Claro que continuo a sorrir na mesma, até porque não corro o risco de eletrocutar alguém.
Gosto de saltos altos, camisas e vestidos. Tenho um ar um bocado “cócó”, eu sei… Mas é só o ar, juro!
Já tinha dito que tenho a melhor Mãe do Mundo?
Não tenho irmãos. Mas tenho uma cunhada. É a mesma coisa.
Gosto de bricolage e decoração de interiores. Comprei uma casa nova. Não é uma casa de sonho, mas é a casa dos meus sonhos.
Nela guardo os sonhos, dentro de uma caixinha, fechada com um aloquete. Típico de mim, não sei em que gaveta a guardo, nem onde pus a chave. Talvez um dia, sem querer, volte a encontrar tudo isso.
Gosto de música e de letras com sentido.
Tenho amigos no coração e amigos do coração.
Por falar em coração… Esse desgraçado, que com o impacto da queda, ficou reduzido a cacos e esses espalharam-se pelos quatro cantos do Mundo!
Tenho a certeza que até ao Turquemenistão chegaram!
Apesar de gostar muito de viajar, não vou lá procurá-los. Há pedacinhos que se perdem para sempre…
Tarefa inglória esta, a de juntar os caquinhos todos e colá-los. Mas tem de ser, ninguém vive sem coração.
Gosto de fotografias. Mas do presente.
Passado não se guarda em fotografias. Guarda-se na mente, na alma e nos cacos cheios de cola.
Gosto de rir. Gosto de dar a mão. Gosto de abraços e de beijos. Não gosto de despedidas.
Gosto de maquilhagem porque é o antídoto das lágrimas. Não gosto de lágrimas nem do seu sabor salgado. Não gosto da marca que me deixam nos olhos.
Gosto de olhos, de mãos e de sorrisos.
Gosto de simpatia, sensibilidade e de risos… Muitos…
Gosto de educação, inteligência e humildade.
Não gosto de não gostar de alguém (desculpem-me, mas ODEIO aquelas duas: a Maldita e a Estúpida!).
Gosto de paz, tranquilidade e sossego. Gosto do meu sofá, da minha manta e da minha chávena de chã.
Não gosto do silêncio que a minha casa me grita de cada vez que abro a porta.
Não gosto de deixar as janelas abertas e quando chego a casa, encontrá-las exatamente na mesma…
Gosto de dançar, de jantar fora, de comer gelados…
Gosto de andar de bicicleta e de dormir a sesta debaixo de uma árvore.
Gosto de flores na jarra, mas não gosto de receber flores.
Já vos disse que amo a minha filha acima de tudo?
Não percebo nadinha de carros. Sei que têm quatro rodas e um volante. O resto é acessório.
Tinha um gato amarelo, mas deixei-o em testamento aos meus sogros, com usufruto ainda em vida minha. Eu sei que ele é feliz com eles. E eles com ele.
Na Travessa Júlio Dinis, encontro as maiores e as mais fortes bengalas do Mundo. E isso é muito bom, sabiam? E eu gosto muito…
Gosto de cães. Talvez numa outra encarnação, eu more numa quinta onde possa ter um cão… Ou dois… Ou três… E lhes possa vestir um casaquinho…
Um dia, em criança, fui à feira com o meu avô e ele ofereceu-me um peru bebé. Cresceu, ficou feio e transformou-se numa autêntica avestruz. Comi-o em panados e estufado com batatas. Só soube mais tarde…
Sou teimosa e melosa. Resiliente e… chata!
Sei que não vivo, sobrevivo. Lá vou andando, em piloto automático, como mera espectadora da vida e projetos dos outros. Mas torço pela felicidade plena de cada um.
Gosto de cozinhar e de ir ao supermercado.
Gosto de fazer jantares em casa e do barulho que fazemos.
Gosto de conhecer pessoas novas, mas não gosto que as pessoas que já conheço, se transformem em autênticas estranhas.
Gosto de sinceridade e de verdade.
Gosto da magia do desconhecido e do medo que isso me traz.
Não gosto de ladrões, de monstros e de lobisomens. Não acredito em histórias de Princesas nem na Carochinha.
Às vezes, sinto-me mais perdida do que a “Alice no País das Maravilhas”, mas aos olhos dos outros, eu faço-me de “Rei Leão”.
Tantas vezes lhe perguntei:
-“Porque gostas de mim?”
E ele, com a sua indiferença característica, sem tirar os olhos do que estava a fazer, respondia-me:
-“Oh, sei lá… Gosto porque tu és assim…”
E, se ele dizia, eu acredito.
Pronto, eu sou “assim”…"


A Paula tem um faceblog que eu convido todos a conhecer e deixou-se fotografar para a minha nova página "Loucos de Lisboa"

Conheçam-na aqui e depois aqui

5 comentários:

Maria Pinto disse...

Eh pá, fiquei com um caco do coração pequenino...
Dá vontade de querer saber e ouvir sempre mais de pessoas com histórias fortes como a Paula e não só é a história forte, ela também parece.

Ricardo disse...

A ideia da página está catita.

macaca grava-por-cima disse...

FODA-SE! desculpa, mas só consigo dizer isto!

Jo disse...

Estas histórias deixam-me sempre com o coração pequenino e o estômago embrulhado...

numbi disse...

comecei a ler o texto da paula e fiquei logo com a sensação de que conhecia este drama. o marido da paula foi meu colega na faculdade. não éramos amigos, provavelmente nunca trocamos uma palavra, mas lembro-me muito bem da marca que este episódio deixou no meu mundo. voltei a sentir tudo de novo ao ler este texto.
também me recordo de uma outra colega da faculdade me ter dito "não sei como é que ela se está a aguentar, eu não conseguiria."... eu também não conseguiria, paula. sem te conhecer, admiro-te profundamente! mesmo perdida és o rei leão!
http://numbi.blogspot.pt/2012/05/pra-morrer-basta-estar-vivo.html

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