segunda-feira, 31 de março de 2014

Coração ao alto, asa ao peito

Estava ali a uns cinquenta centímetros dela. Íamos a descer um lanço de três degraus de pedra, no quintal da "avó" Lina para nos juntarmos aos outros meninos que ali brincavam, o escorrega no horizonte.
A Ana não sendo uma miúda reguilíssima, não deixa de ser vivaça e... trapalhona. Maldito adn!Num segundo caiu, de cara ao chão, braço por debaixo do corpinho, voou os três malditos degraus e aterrou no chão de deck. 
Levantei-a num milésimo de segundo, ela sem chorar, a suster o choro e eu quase morta- juro!- com o coração ao alto, respiração suspensa, corpo gelado. Abanei-a e gritou, finalmente, tanto como se estivesse a sair outra vez de dentro de mim, e eu voltei a respirar como naquele princípio de tarde há um ano, 7 meses e 21 dias. 
Estava pálida num instante, depois estava com as veias salientes de tanto chorar, depois apática, cabecinha pousada naquele lugar tão dela, aqui entre a curva do meu queixo e o ondular do meu ombro, naquela latitude e longitude que só o gps da minha filha encontra com precisão, algures no meu pescoço. As lágrimas escorriam e a minha alma secava na mesma proporção, ao vê-la com dores, neste corpinho que fui eu que fiz, fui eu que gerei em mim, não é suposto estragar nada, tão linda, tão perfeita, a minha pequenina.
Nunca mais viverei descansada, percebi-o hoje, o Mundo é demasiado perigoso para a minha filha, tudo lhe pode acontecer, as quedas, os ossos que afinal são frágeis, o corpo que é uma flor muito fresca e mortal, o meu bebé que já anda, já corre, já assume o seu adn trapalhão e eu, impotente e tonta, sem conseguir ser mais rápida que os acidentes, os vírus, as bactérias, eu que já não a consigo proteger dentro do meu útero, da minha carne, da minha pele, alimentá-la com o meu sangue, amparar-lhe as quedas com líquido amniótico, eu que já sou externa, tão externa à minha pequenina, ser tão meu e depois já tão do Mundo e eu nunca mais viverei descansada, voltei a percebê-lo hoje.
Não ganhámos para o susto: ela com o despiste neurológico feito, braço com uma grande nódoa negra, osso fora do sítio, mãozinha inchada, humor rabujento; eu com o corpo dorido, como se um camião TIR me tivesse atropelado, doía-me tudo e mais que tudo doía-me a maternidade, este pedaço do meu ser que todos os dias ganha maior proporção, doía-me o útero, a barriga, o peito, a cabeça, a pele e a alma.  Doía-me muito, tanto, este ser mãe.
Mas voltámos, finalmente, para casa.
Eu de coração ao alto. O meu pintaínho de asa ao peito. 

11 comentários:

luisa l disse...

Já passei por aí. Mas a dor maior é quando as Anas vão estudar para longe de casa. E de súbito a casa fica estupidamente grande e sem qualquer sentido. O que vale é o GPS delas. Antes de se irem embora encontram o bocado do nosso pescoço que será sempre só delas e que só elas sabem onde é.

Isa disse...

Não consigo sequer imaginar o susto e o aperto no coração... Que ela melhore rápido e tu também! Coração de mãe sofre...

marina disse...

Uma dor que jamais deixaremos de sentir...
As melhoras da Ana...

Emília Castilho disse...

Não, de facto nunca mais se tem sossego... e quantas vezes gostariamos de sentir as dores por eles, mas é assim que eles crescem, a cair e a levantarem-se, por vezes com algumas mazelas. Mas quero acreditar,ou melhor, tenho a certeza que o facto de estarmos lá para lhes dar colo faz toda a diferença. Vai passar. Boas melhoras.

Inês Dunas disse...

ohhh... Tadinha da pequenicas... As melhoras dela...
É impossível ampararmos as quedas todas, mas cada vez que eles caem o nosso coração cai com eles... :(((
Um beijinho no dói-dói das duas, no do bracinho da Ana e na alma da mãe-Ursa.

Pedro disse...

As melhoras para ela

(pensavas que ser mãe era o quê, pá?)

Catarina disse...

Caramba Ursa, quando acho que já escreveste o teu melhor, PÁS, mais um texto de cortar a respiração. E não é só pela dor da Ana (beijinhos no braço dela, as melhoras rápidas), não é só por conhecer essas dores de Mãe (quase todas as mães conhecem, eu fiquei com o coração apertado a imaginar a minha princesa no lugar da Ana) mas pela escolha das palavras, é tudo tão certo e tudo tão certeiro. CARAMBA URSA, tens noção do teu dom????? Não te conheço e adoro-te! Quem escreve assim tem que ser uma daquelas pessoas "one in a million"....
Beijinhos também na tua alma... vá, e mais uma para a Ana dos cabelos loiros.
Catarina

O Sexo e a Idade disse...

Prepara-te Pólo, quase duas décadas depois e eu ainda não me habituei a esse viver fora do meu corpo...

Alexandra disse...

UI! Acho que quem é mãe se reviu no que brilhantemente escreveu e... é verdade! esse sentir não passa mais. Está-nos colado na pele. O meu já tem 23 anos e sempre me sobressaltada. Rápidas melhoras do bracinho da Ana e do coração da mãe. Bjs
Alexandra Anjos

Juanna disse...

Levo 11 anos e meio de maternidade e não há maneira de não me borrar toda quando a cria mais velha atravessa as passadeiras sozinha. Talvez por já termos sentido alguns carros em suave rasante é que sei que não voltarei a ter um dia sossegado na p*** da vida inteira. Pensava eu que o medo era que eles caissem em pequenos e partissem uma perna. Depois morreu a minha amiga aos 19 anos e percebi que os filhos podem morrer novos. Depois morreu o meu irmão aos 38 e percebi que podem morrer na maturidade. E há dias em que penso nisso (poucos, senão enlouqueço) e parece que tenho uma mão a sufocar-me. Odeio ter filhos. Às vezes.

Carla Borges disse...

Ter filhos é viver com o coração fora do corpo...As melhoras...

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