terça-feira, 11 de março de 2014

Hoje percebi a tristeza do fim

A minha melhor amiga perdeu o pai. A avó da minha melhor amiga perdeu, aos 99 anos, lúcida e com uma inteligência que nunca conheci em mais ninguém, o filho. 
A Calinhas é filha de judeus, pai polaco, mãe ucraniana. Nasceu há 99 anos em Portugal por obra do acaso. Ou da guerra, para dizer a verdade. 
Casou-se com um advogado cabo-verdiano anti-regime que acabou por ser deportado para a Guiné-Bissau por defender presos políticos. Na Guiné defendia os pobres, os anti-regime colonialista, o povo. 
Foi na Guiné que teve os seus três filhos que, depois do regresso dos pais a Portugal, se espalharam pelo Mundo: Portugal, Bélgica e Guiné-Bissau. 
A Calinhas está habituada a ter saudades com filhos e netos espalhados pelo Mundo. 
Sempre que a víamos reconheciamos-lhe um olhar de menina, um brilho nos olhos de quem ainda gosta da vida, ainda que com saudades, o sentimento português de quem a Calinhas sempre judiou. 
Nas férias, às vezes suspirava, quando sentia que o regresso dos filhos e dos netos estava próximo e que ficaria, novamente, mergulhada na soma dos dias com saudade. Nunca a vi queixar-se vida, nunca a vi dizer que já não estava cá a fazer nada, que queria morrer. Tem 99 anos. 
Hoje, enquanto a cumprimentava, olhou-me fundo, um olhar sem brilho, uns lábios que nunca mais saberão sorrir, com a saudade que nunca mais acalmará de um filho que não era suposto morrer, coroando os 99 anos da Calinhas com esta perda. Olhou-me fundo, com um olhar de vazio, de silêncio, um olhar de nada (logo a Calinhas que tinha um olhar de tudo, de dias seguidos de muita vida, muitas memórias, muito viver) e disse-me "Sabes o que é alguém estar farto de viver? Sou eu."
E eu acho que a vida deveria ter sido mais amiga da Calinhas, actriz principal de uma peça magnífica, deslumbrante sob o foco das luzes das vidas cheias. Eu acho que a Calinhas deveria sair de cena com o show esgotado, êxito de bilheteiras, toda a família e amigos na primeira fila a aplaudirem uma mulher como não há memória. 
Assim não.
Hoje percebi a tristeza do fim. Do fim que se deseja. 

2 comentários:

Formiguinha disse...

Passou-se o mesmo com a minha avó e daquele ser humano resta uma sombra... ainda assim, uma sombra serena que sabe que teve tudo o que desejou na vida e que os que partiram a levaram na melhor parte dos seus corações.
Naturalmente que não voltou a sorrir, ou melhor a rir, porque ao receber as migalhas que a vida lhe oferece sorri e brinda-nos com soslaios de entusiasmo...

Nenhuma mãe deveria passar por isso :( e só um ser humano enorme sobrevive - pode ser esse o caso da Calinhas...

Mandrin disse...

Como é pequeno o Mundo...o meu amigo perdeu o mesmo pai que a sua amiga perdeu...
Ninguém merece passar por uma dor tão dilacerante, muito menos aos 99 anos de idade!
Toda a força para a Calinhas!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...