sexta-feira, 28 de março de 2014

Mulheres que escrevem bem para cacete

por isso esta guerra que há no mundo eu não percebo: entre mães que trabalham e são sempre acusadas de passar pouco tempo com os filhos e mães que ficam em casa e são sempre subestimadas por quem trabalha. digo-o com orgulho: quando me perguntam digo: sou mãe, estou em casa com os meus filhos. e às vezes ele chega a casa e eles correm à nossa volta e gritam e eu olho para ele e respiro fundo e digo que tivemos um dia difícil: houve birras, leite entornado, ninguém comeu a sopa, não consegui estender a roupa, ela bateu com a cabeça, não almocei. e depois calo-me. calo-me porque na minha cabeça ele teve um dia pior: porque eu também vi a maria a desenhar uma flor. vi o miguel a acordar da sesta e a esfregar os olhos enquanto sorria. vi-a a dançar de mão dada com ele e a darem gargalhadas muito alto. adormeci-a nos meu braços. ouvi-o dizer balão pela primeira vez. ouvia-a a perguntar-lhe: miguelito gostas de mim? abracei-a quando ela escorregou e bateu com a cabeça. ouvi-a dizer obrigada mamã. calo-me porque fizemos um bolo juntos e comemos uma fatia enquanto ainda estava quente. porque levei-os à janela para verem a chuva e eles estenderam as mãos. eles estavam felizes a sentir a chuva. calo-me porque lhes dei banho, enrolei-os numa toalha e levei-os, um de cada vez, encostados ao meu peito para cima da nossa cama. fiz tudo devagar: tinhamos todo o tempo ali, na nossa casa. calo-me: na minha cabeça ele teve um dia muito pior. na minha cabeça de doméstica. na cabeça de quem gosta disto de ser mãe a tempo inteiro. conto-lhe todas estas coisas e ele sorri: sei que ele gostava de cá estar. sei que ele não aguenta mais de três dias sem trabalhar. não somos iguais.
e eu admiro-as: as mães que trabalham. as mães que estão longe dos filhos a trabalhar para lhes dar o eles que precisam. o que elas querem conquistar: as que o fazem por eles, por elas. as que perdem momentos: momentos que elas não sabem que perderam. as que saem de casa e deixam os filhos ainda a dormir: as que não os vêem despertar devagarinho. as que comem sanduíches de perú desfiado em frente ao computador enquanto trabalham depressa para sairem mais cedo: as que não fazem o avião todos os dias ao almoço. as que chegam cansadas e têm de fazer tudo depressa: as que não passaram a tarde no parque a subir o escorrega num dia de sol. as que deitam a cabeça na almofada e sentem que passaram naquele dia pouco tempo com seus filhos: eu estive lá sempre. para mim elas são as maiores. digo-o sem problemas: eu tenho dias difíceis. trabalho muito: limpo, aspiro, carrego, passo: mas as mães que têm de trabalhar para mim são as maiores. os pais.


Ainda sobre aquilo das guerras das mães, um post brilhante da menina no seu "eu, ele, a maria e o miguel"

7 comentários:

Ombemua - Saoirse disse...

Ui, assim de repente quase fiquei em . lágrimas.

Adorei.

Ombemua - Saoirse disse...

Ui, assim de repente quase fiquei em . lágrimas.

Adorei.

Ana disse...

É dos meus blogs preferidos. Todos os posts chegam ao coração e já me arrancaram muuuuuitas lágrimas.
Fico feliz de dares a conhecer este blog.

Marta disse...

Lindo :)Parabéns.

ML disse...

Está no meu top este blog. Sincero. Transparente.
Este é mais um dos posts simplesmente brilhantes! Parabéns à "menina"!

Psyche disse...

Eu queria ser como ela. Comecei a trabalhar em Janeiro e ainda hoje sofro imenso e choro porque queria ser doméstica, ver o meu crescer. Tive quase 7 meses com o meu filho em casa, foi muito complicado deixar em casa dos avós e toda a gente diz que tenho muita sorte e ninguém entende o vazio diário no meu coração, a violência a que me sujeito por ter de deixar o bebé. Quase ninguém sabe o que sofro e ninguém me vê chorar todos os dias quando saiu do trabalho a correr para o meu filhote, de carro a 120 hora ou de transportes com os nervos em franja e a correr porque o tempo passa depressa e eu não quero perder tempo. Quero brincar.

menina disse...

obrigada pela referência.as pessoas dizem que normalmente as faço chorar, você pelo contrário faz-me rir muitas vezes. obrigada também por isso.
espero que a ana esteja melhor, bj

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