domingo, 29 de junho de 2014

Quando um post, só uns meses depois, fica completo

O post original dizia isto. Mas o post original só fica completo com este vídeo, enviado pela Mari (obrigada e beijinhos!). Aqui vai, para todas as mães:

"Recebi há uma hora um email de um ex-colega a querer saber de mim e o que tenho feito profissionalmente. Na troca de emails perguntava-me o que fiz nos últimos dois anos. Quando lhe disse que estive um ano, exclusivamente, a ser mãe respondeu-me qualquer coisa como "isso vai dar-te cabo do currículo, foi um ano deitado às urtigas onde não desenvolveste nenhuma competência..."


 

Querido Paulo, 

Uma vez que te senti preocupado com a minha vida profissional e certa que estou das tuas intenções na árdua tarefa de me ajudar a regressar ao que é importante, a fazer valer enquanto profissional, ocultando este percalço que foi o da minha maternidade e os constrangimentos que tal trouxe para a minha carreira, junto submeto o meu CV actualizado para tua análise e apreciação. 

Desde já obrigada. 

L."

CURRICULUM VITAE (actualizado)


INFORMAÇÃO PESSOAL
Pólo Norte - Mãe

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

Março de 2012 - Agosto de 2012
Grávida de alto risco


Descrição da tarefa: Vomitar 300 vezes ao dia no intervalo de 30 entrevistas de selecção, fazer boa cara aos candidatos, fazer xixi de 10 em 10 minutos e aguentar sem o fazer em reuniões de três horas com clientes, ministrar formação de pé durante oito hora seguidas e, com especial destaque, para o período pós-almoço quando o sono bate tão forte que é impossível manter as pálpebras abertas. Lidar com a notícia de que as coisas não estão a correr bem apesar do esforço em gerir a gravidez e a carreira, Vir da médica com indicação de repouso absoluto. Cumpri-lo, sem fazer qualquer esforço físico, a gerar um bebé, com uma alimentação rigorosa, sem poder sair à rua, confinada a quatro paredes, sofá, cama, sófá, sem poder deprimir que o bebé pressente essas coisas, a receber uns 343637 emails por dia com pedidos de relatórios, chamadas a perguntarem onde está o dossier y e em que pasta do pc está o ficheiro z que isto de procurar é uma maçada, lidar com uma total falta de respeito, desprezo absoluto e incapacidade natural de empatia da entidade empregadora face ao teu estado de saúde frágil e risco de perda do bebé. Ir a 500 consultas, aguentar sem chorar de cada vez que somos pesadas, decifrar a mensagem do semblante da médica de cada vez que faz um ecografia e mantém o silêncio, confirmar o sexo do bebé, comprar o enxoval, decorar o quarto, escolher o nome, aguentar noites de inónias, prisão de ventre, a impossibilidade de encontrar uma posição confortável par dormir,  o peso da barriga, as dores nas costas, infecções urinárias, piolenefrites, ecografias semanais. Ter medo, todos os dias, um a um, de perder um bebé que já é o seu filho, para sempre. 


Competências desenvolvidas: Responsabilidade. Disciplina. Rigor. Adaptação à mudança. Controlo e gestão de emoções. Resistência à frustração. Paciência. Resiliência. Gestão de prioridades. Pensamento holístico.

Agosto de 2012
Parturiente e mãe de bebé-recém nascido prematuro


Descrição da tarefa: Ser submetida a uma intervenção cirúrgica que resulta num ser vivo cá fora. Aprender a cuidar dele ainda com uma barriga cheia de pontos, ser firme e recusar visitas de cortesia na maternidade para além das da família de primeiro grau, firmar a posição de que não se quer amamentar contra tudo e todos, lidar com os olhares de reprovação, aprender a gerir a culpa de todas as decisões que se tomam em detrimento de todas as opções que foram preteridas. Aprender a dar banho, a actualizar medidas de biberão, a melhor posição para arrotar, que as chuchas de bebé têm tamanhos, que há NAN mas que o NAN confort é que é melhor para os intestinos do bebé, procurar onde se vende xarope de mação reineta para passar a prisão de ventre, encontrar o ângulo para deitar o bebé de barriga para baixo nos nossos braços de modo a passarem as cólicas, aprender a melhor forma para o adormecer, a ouvir quinhentos bitatites por dia divergentes sobre o melhor para o nosso bebé, decidir pela própria cabeça o que é melhor para ele,  lidar com a pressão e com a preocupação constante sobre se ele está bem, se respira, se está com dores, se tem fome, sono, fralda suja ou está só aborrecido tendo como único indicador um choro que, ao início, parece sempre com os mesmos acordes.  Aprender a ver o marido companheiro como pai, membro com iguais direitos e deveres que partilha as tarefas e não que participa como figurante nas mesmas. Reajustar o conceito de família e criar a sua própria dinâmica familiar.


Competências desenvolvidas: Resistência física. Assertividade. Não conformismo. Firmeza. Auto-confiança. Facilidade de aprendizagem. Multitasking. Flexibilidade. Atenção ao detalhe. Capacidade de observação. Resiliência. Resistência ao stress. Dinamismo. Criatividade. Capacidade de adaptação. Capacidade de tomada de decisão. Comunicação não verbal. Escuta activa. Atenção. Cooperação. Espírito de equipa. Capacidade de delegação e descentralização de tarefas. Adaptação à mudança.

Setembro de 2012- Fevereiro de 2013
Parturiente e mãe de bebé-recém nascido prematuro.
Mãe júnior.

Descrição da tarefa: Ver a sua casa ser assaltada e ficar sem quase nada. Lidar com o medo. Decidir mudar de casa e fazer mudanças, encaixotar e desencaixotar o que sobra, passar dias inteiros da licença de paternidade a comer pó, a limpar estores e janelas da casa nova, a arrancar papel de parede, e desmontar e montar móveis, a dispôr a mobília, a arrumar tarecos, a deixar a filha bebé na avó para que ela não coma pó e a sentir-se culpada por isso. Procurar uma pediatra, ir às primeiras vacinas, e às segundas, e às terceiras. Pagar consultas de 75€ mensais, fraldas aos magotes ao preço do whisky de 20 anos, latas de leite mais caras porque evitam as cólicas sem que o Segurança Social ainda tenha procedido ao pagamento do subsídio de maternidade. Reajustamento do orçamento familiar. Ter que confirmar no Hospital de Santa Cruz que o sopro no coração tinha, efectivamente, fechado. Receber na casa nova, ainda em mudanças, as visitas todas que queriam conhecer a miúda. Sentir-me com dores. Perceber que aquilo das hemerróidas no pós-parto não acontece só às outras. Superar o nojo de pegar, pela primeira vez, no Narihnel. Aprender a fazer vapores na máquina. Lidar com a relação bipolar da cria face ao banho (horror para entrar/horror para sair). Cozinhar as primeiras sopas. Decorar os ingredientes que se vão adicionando e estar atenta à possibilidade de alergias. Ter motricidade fina para dar a sopa e acertar na boca da miúda sem fazer um estardalhaço à volta. Não esquecer da vitamina A antes de dormir.  Prescindir da decoração minimalista de casa em detrimento das espreguiçadeiras, tapetes de actividades, livros com sons, mil telefones e afins que enfeitam todas as divisões. Fazer com que o dia renda o suficiente para fazer todas as tarefas imperativas e , ainda, não deixar que a roupa suja tenha um efeito multiplicador. Rejubilar com competências adquiridas como o virar, sentar, bater palmas. Sentir-se tonta de felicidade com coisas tão banais. 

Competências desenvolvidas: Gestão de prioridades. Combate ao materialismo. Trabalho sob pressão. Resiliência. Disponibildade para aprendizagem contínua. Espírito de iniciativa. Questionamento. Sentido crítico. Capacidade de empatia. Atenção ao detalhe. Capacidade de negociar e ceder. Gestão de tempo. Tolerância ao stress.

Março de 2013- Agosto de 2013
Mãe

Descrição da tarefa:  Ganhar hérnias discais. Ser internada com um problema grave de coluna. Ensinar gracinhas, músicas, danças. Ouvir em looping mil vezes a música do "come a papa, Joana". Assistir ao gatinhar. Resistir, incólume e valente, às primeiras quedas. Aprender o que é Arnidol. Decidir que, mesmo que de forma não popular, se assume que se vai prolongar a licença de maternidade, correndo o risco de ser ostracizada, posta de parte, preterida e ignorada pela entidade laboral quando se regressa. Correr o risco de não prescindir do direito contemplado na legislação. Fazer as primeiras papas, dar a provar os primeiros sólidos. Inscrever na natação. Derreter a vê-la de fato de banho. Deixar de ser uma figura central na esfera familiar e a passar a ouvir toda a gente perguntar pela "menina". Organizar um baptizado a milhares de quilómetros de distância. Não stressar quando os planos não resultam da forma como tinhamos pensado. Replanear. Ter capacidade de improvisar. Prescindir da sua identidade e relevar de cada vez que alguém a trata por "Mãe". Pesquisar tudo sobre percentis, deixar de pesar a miúda sem ser no médico para não stressar. Testar a resistência do coração da primeira vez que ela cai a sério. Apreciar a primeira ida à praia. Deixá-la experimentar o mundo. Ler histórias. Saber quem são os Caricas e saber de cor as coreografias. Preparar uma primeira festa de aniversário inesquecível. Cumpri-lo. Não se arrepender, um segundo que seja, do dia em que se quis ser mãe. Ser mãe, exactamente, assim.  Com tanto medo quanto amor. 

Competências desenvolvidas: Paciência. Resistência a actividades rotineiras. Auto-controlo. Sangue frio. Gestão de prioridades.  Gestão do risco. Destemor.Tolerância ao stress.  Resiliência. Gestão de conflitos 
Autonomia. Identificação de oportunidades. Planeamento.Capacidade de improviso. Replaneamento. Inovação. Persistência. Capacidade de se auto-motivar. Compromisso ético. Relacionamento interpessoal a longo prazo. Paixão. 

EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO
Auto-didacta.

COMPETÊNCIAS PESSOAIS
Língua materna- Português

Outras línguas:
COMPREENDER/ FALAR/ ESCREVER
Babylese- C1/C1/C1

Competências informáticas-  Esterilizador de biberons (nível avançado). Máquina de aerossóis (nível avançado). 

Outras competências- Especialista em adormecê-la em cinco minutos. Largo repertório de músicas infantis. Ouvido treinado para diferenciar 432 tipos de choro e seus significados. 

Carta de condução de carrinho com e sem ovo incorporado. 
Destreza no transporte de ovo só com o ante-braço.
Anca esculpida para transporte ao colo, sem qualquer risco de queda. 

INFORMAÇÃO ADICIONAL 

Referências - Ana - filha Tel.: +351 123 456 da Chicco ou contacto através de qualquer comando de televisão. De preferência do que funciona a sério, o de cá de casa. "



36 comentários:

disse...

Genial!!

PatriciaeMelguinhas disse...

Espectáculo !!!

Catarina disse...

Só 2 palavras:
Para o texto - BRILHANTE
Para ti - UM GÉNIO (A)

Bjs

Catarina

Isabel Maria disse...

Muito boa a tua resposta. Nunca conseguiria uma assim.

Carina Ramos disse...

Fiquei com vontade de atualizar o meu cv ... Muito bom!

talk_on_corners disse...

Ó pá, lindo!

Heidi disse...

Realmente considerar que um ano dedicado a um filho é um ano deitado às urtigas só pode vir de uma pessoa com valores semelhantes aos da tua entidade empregadora na altura. Esse tipo de "sensibilidade" serve para traçar logo o perfil do animal.

Excelente post!

Filipa Alexandra Marco Moita disse...

Brutal...quando conseguir parta de rir eu prometo que comento.....muito bom looooool

AL disse...

Oh pá devias ter perguntado, e tu que fizeste mesmo?
Algo que mude para sempre a vida de alguém hum?

Mamã Petra disse...

Tão, mas tão bom.

Adorei.

Inês Dunas disse...

Estou aqui a rir que nem uma doida há 10 minutos! E o melhor é que é tudo tão verdade!

marina disse...

Maravilhoso!!!!!

Carla Miguel disse...

Sublime!

Cris Loureiro disse...

Acho que o trabalho vai ser teu! Fantástico. Parabéns!
A mãe do teu ex-colega deve estar "orgulhosa" do filho que tem :/

Vee disse...

Nunca comentei mas não podia deixar passar esta "pérola".
Não consigo deixar de sentir tristeza quando encontro pessoas com prioridades trocadas. Este tipo de valores que considera um ano dedicado à maternidade como um ano inútil, uma pessoa tão insensivel que não consegue ver valor nesta dedicação. Triste por saber que não é o único, que uma mãe dedicada ainda é vista profissionalmente como uma incapaz, como um perigo.

cantinho disse...

Li tudo.
Parabéns.

Beijinho

Bigodes de Nata disse...

Simplesmente maravilhoso! E que curriculo tão bom que tens! :)

Suspiro disse...

O melhor curriculo de sempre! ;)

Vanda Fidalgo disse...

Com três palavras apenas se descreve este cv, lindo! Lindo! Lindo!
Dále ursa!

Nani disse...

hahahaha muito bom!!

Just a Lady disse...

Currículo impressionante!!!
Só é pena que tenhas que ter tido o trabalho de o fazer, quando devia ser óbvio... ;)

AMChantre disse...

BRAVO!!

tata disse...

eheheh! e resposta houve?

CM disse...

entendo tão bem este post.
trabalhei 12 anos numa empresa de R&S, com foco na área de TT, na minha segunda gravidez, grávida de gémeas fui informnada pela mdica que teria de vir para casa, pois as bebés estavam em risco e eu também... a minha superior da altura achou que eu estaria a mentir, só para puder ficar em casa... ainda tive de ir várias vezes ao escritório e dar formação também, até telegfonemas, sobre como se mudava o tonner da fotocopiadora recebi... qdo as meninas nasceram.... nem uma visita, ou uma prendinha!!! Nada!!!
Ao contrário de ti, após 6 meses voltei para trabalhar com as mesmas pessoas... mas também e graças a todas as novas competências que adquiri nesse tempo... eu era uma nova mulher, e nunca mais me deixei afectar por essa área de trabalho, que por vezes nos consegue sugar até o ânimo!

Nikki disse...

Genial! E aposto que agora ele vai perceber como o teu currículo ficou mais completo.

Filomena Silva disse...

Amei!!! Cada vez gosto mais de te ler (se isso for possivel) :-)

Jorge Coimbra disse...

Creio que temos uma vaga para o seu perfil! Parabéns!

Ana disse...

Excelente :)

Marlene Mendes disse...

Apenas preciso de acrescer fazer tudo isso, com o pimpolho de 3 anos agarrado às pernas ( agora com 5).

:)

Fiquei 9 meses em casa com o meu sol, e achei tão pouco!!

Dina disse...

Brilhante !

mariana disse...

brutal!

decimaterceira disse...

A única coisa a fazer nestes casos é mesmo responder à letra.
Ou pode dizer-se simplesmente algo como "meta-se na sua vida".
O importante é não deixar de responder, de falar, de expor a importância do que é SER MÃE porque, por este andar e com esse tipo de mentalidade, este país deixará de ter crianças nos próximos anos.

Ana Pereira disse...

De facto, quando numa entrevista de emprego me puseram imediatamente de lado por ser mãe pensei: "Puta que pariu.....Da-sssssssssse!!!!""""

República da Bicharada Clínica Veterinária disse...

já tinha adorado o teu texto de resposta a esse teu ex-colega.
Mas esse vídeo é a pontuação final por excelência. Conjugam mto bem e um dá força ao outro
Beijinhos

Ana Vilhena disse...

Ursa, (estranho dirigir-me assim a alguém ;) )

Tomei a liberdade de COPIAR o teu post no meu blogue porque a visão que dás "à coisa" é deliciosa...

http://ele-ha-cada-uma.blogspot.de/

Obrigada e não te esqueças que ser mãe é a capacidade de fazer multi tasks... coisas que não estão ao alcance dos pais, que fazem tudo, mas uma coisa de cada vez...

Tania Santos disse...

Muito bom 😂😂😂😂😂

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