quinta-feira, 27 de março de 2014

Somos sempre mães mais lúcidas com os filhos dos outros

Nem sonhava eu que havia de estar grávida e irritava-me solenemente aquele ar de grávida sofrida que têm as grávidas. Mão no rim, mão na barriga, ar condoído e aquele semblante de desgraçada eram tudo coisas que me irritavam solenemente. Então se toda a gente dizia que gravidez não era doença para quê aquele ar de diva das mulheres prenhas? Para quê? Querem é atenção, é o que é.
Depois eram as recém-mamãs tão histéricazinhas a ver se os bebés respiram enquanto dormem, com a ajuda de um espelho. E que, sofridas, nunca mais pregaram olho com sonos profundos, Marias Madalenas, sempre numa aflição, sempre em sobressalto, sempre numa ralação. Ai, os bebés vão tomar vacinas e as mães choram mais que eles, lágrimas a sério, really? São vacinas, senhoras, é para o bem deles, deixem-se de salamaleiques!
Depois fui mãe e engoli, letrinha a letrinha, palavra a palavra, frase a frase, pensamento crítico a pensamento crítico tudo o que formulei acerca desta matéria.
Já grávida, doíam-me os rins, acariciava a barriga, achava-me o centro do Universo, tinha um ar desgraçado que dava dó. Gravidez não é doença mas no meu caso até foi. Claro, eu era a excepção, todas as outras eram só parvas, maricas, pieguinhas e tontas.
Depois pari e passei a primeira noite a velar a Ana a dormir com medo que ela se engasgasse, desse um pum, sufocasse, morresse de morte súbita e todo um cenário de preocupações materno-histéricas, e culpei as hormonas. Eu não era aquela mãe que eu criticava desde sempre e escondi os espelhos de bolso cá de casa. As vacinas eram o suplício e para me conter e não ficar mais chorosa que ela afastava-me e respirava fundo, "eu não sou dessas mães", repetia vezes sem conta.
A verdade é que sou. Gosto da minha filha da mesma forma que "ninguém gosta mais dos filhos do que eu gosto da minha" que todas as outras mães. Sou aflita, histérica, coração nas mãos, e ralada como todas as outras tontas que eu criticava, minha mãe e avó incluídas.
E hoje dei por mim a ler status de facebook de outras mães que levam os seus filhos pela primeira vez à escola. Primeiro pensamento: "primeiro dia de creche ou de escola, crianças num berreiro, mães a chorarem dentro dos carros, sem conseguirem arrancar com a primeira. Está tudo doido?! Escolaridade? Alfabetização? Helloooo?"
Depois, engoli em seco e auto-flagelei-me pelo pensamento "mania que és melhor c'as outras, pá!"
É que, no fim das contas, somos sempre melhores mães, mães mais lúcidas. Especialmente quando toca aos filhos dos outros.

7 comentários:

Boneca disse...

Deixar um filho na escola a chorar por nós, com os braços estendidos para que os peguemos ao colo e olhos de súplica, é de cortar o coração. Eu também engoli todas as palavras que disse acerca do assunto. Todinhas. E chorei muito, corredor da escola a fora, nesse primeiro dia.

Mara Lopes disse...

LOL, é bem verdade. Eu chorei muito com o 1º filho, ele ficava aos berros na escola e eu no carro lavada em lágrimas, mesmo sabendo que ele ficava bem e ao fim do dia não queria sair da escola. Ao 3º já é muito mais fácil, já sou imune às "lágrimas de crocodilo".

São João disse...

A mim o que me irrita são as grávidas que dizem que adoram estar grávidas, que é o máximo enjoar e vomitar e não se lembrarem do que comeram ao almoço e tão depressa terem prisão de ventre como cagarem de esguicho e ao fim de 5 minutos sentadas adormecerem, e que fazem tudo à mesma, alpinismo, surf, ir a pé a fátima etc, e que estão sempre com ar de frescas e fofas.
Eu sou uma cabra insensível mas uma coisa que sempre me fez impressão é ver crianças a chorar, é das coisas que me partem o coração. Freud explica.

Pipita disse...

Eu por acaso não sou nada de lágrima fácil, só estive mais chorona na primeira semana do rapaz! mas era as hormonas! De restou vou com ele às vacinas sem stress, estou lá para o consolar. Durmo bem na mesma, mas acordo com qualquer som que faça, mas dá para descansar sem problemas. Ele tem 3 meses, ainda é pequeno! Agora a questão da escola não tenho dúvidas, vai-me custar horrores e acredito que vá chorar.

Alexandra Ferreira Pinto disse...

Ao ler isto lembro-me sempre da velha máxima:

Quando os filhos dos outros choram e berram no restaurante, é má criação;
quando os nossos fazem o mesmo... é soninho!
;-)

Alexandra Ferreira Pinto disse...

Ler isto faz-me lembrar a velha máxima:

Quando, no restaurante, os filhos dos outros choram e berram - isso é má criação;
Quando são os nossos... é soninho!

;-)

talk_on_corners disse...

Já não é nada mau quando percebemos que não somos muito diferentes dos outros. A empatia é uma característica boa para se ter. Ah! e já agora
I <3 PÓLO NORTE

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