quarta-feira, 19 de março de 2014

Um infeliz dia do pai para vocês

Muitos pais, mais do que me seria possível imaginar, demitem-se da função como um empregado farto de aturar a entidade patronal que bate a porta. Assim, confundem conjugalidade com parentalidade e divorciam-se: não da mulher, mas da família inteira. Dos filhos.
Eu tenho pena- muita pena- que muitos homens continuem a meter mulher e filhos no mesmo saco emocional e se despeçam das funções de pai ao mesmo tempo que as de marido, como se laços de sangue, de corpo, de cuspo se dissociassem com a mesma facilidade com que se cessa uma certidão de casamento e se tira uma aliança de ouro do dedo anelar. 
Continuo a não perceber pais que dividem o tempo com os filhos com o mesmo pragmatismo com que dividem bens, casas, carros e electrodomésticos e decidem acompanhar as suas vidas de quinze em quinze dias, como se a paternidade fosse um trabalho em part-time, ao qual se dedica menos tempos em troca de menor remuneração, ou só para se ganhar uns trocos, coisa miúda. Como se dois fins-de-semana por mês chegassem para saber o prato preferido e apurar o spaggetti à bolonhesa até ele ficar exactamente ao gosto do filho, para ajudar nas resolução das equações hoje e amanhã e todos os dias até serem aprendidas, para criar uma rotina de hábitos, de manhas e de tudo o que a paternidade tem direito por inerência. Para deixar a história à noite poder ser interrompida sem lamento, porque amanhã se pode retomá-la e não daqui a quinze dias. 
Continuo a não perceber as mães que confundem conjugalidade com parentalidade e usam os filhos como arma de arremesso, moedas de troca ou argumentos para chantagem emocional. Que ficam orgulhosas quando os filhos dizem que as preferem aos pais, que se sentem vitoriosas quando os pedidos de guarda parental partilhada são indeferidos, quando são rigorosas nas datas e mesquinhas nas horas em que "emprestam" os filhos aos pais e os recolhem. 
Os filhos são dos pais. De ambos. Não são filhos do divórcio, da zanga, nem do fracasso conjugal. São filhos de gente. Desde sempre e para sempre. E tenho muita, mas mesmo muita pena, dos homens e das mulheres que tendo filhos não sabem ser mães nem pais.
Porque ser pai não é uma profissão nem um saber-fazer: basta ser. Ser com amor. 
Para todos eles um infeliz Dia do Pai. 

12 comentários:

Mamã de Peep-Toe disse...

Tu és genial!

Eve disse...

concordo em pleno com tudo o que foi escrito

CARLA CASEIRO | FOTOGRAFIA disse...

Subscrevo tb tenho um q se divorciou de mim há 30 anos!

t disse...

tudo dito!
***

Ana Rendas disse...

"Ser com amor" é isto! Adorei e concordo :,)

I sarcastically disse...

... e por mais que se tente mudar as coisas, o Pai, o de sangue não percebe, e não faz nada para mudar os velhos hábitos, para estar com o filho mais tempo... Já o Pai, o de criação, sofre com cada distância, quando vai fora, em trabalho, ou quando o pequeno decide ser cruel, e lhe diz "sai..."
Não é só o sangue que dita o Amor incondicional... E apesar de todos os dias olhar para o meu filho e pensar que é o meu Ser mais precioso e voltava a fazer tudo igual, só para o poder ter na minha vida. Também tenho a certeza que me separar do Pai dele, foi a decisão mais acertada... E não me arrependo dela uma única vez!

Feliz Dia do Pai a quem merece...

Vânia e Mariana disse...

Sabes, concordo a quase 100% contigo ;) Mas mete-me muita confusão a guarda parental dividida.....porque não é confuso e complicado para uma criança viver uma semana com a mãe e uma semana com o pai? a mim (que nunca passei por isso) parece-me estranho e confuso para a canalha...Acho que a criança devia ter sempre uma casa, com um dos progenitores, devia era poder estar sempre que ambos (entenda-se a criança e o progenitor com quem não vive) quisessem, com o outro....ou o outro ir buscar ou levar a escola, e jantar 1/2 vezes por semana.....e não só ver de 15 em 15 dias....
Mas sei de historias horríveis, como as crianças não quererem passar a época festiva comum dos progenitores, e ser obrigada a passar só porque sim, só porque é o ano dele!!!
Nunca passei por um divorcio, mas sei que por muito que venha a odiar o meu marido nunca vai ser maior que o amor que sinto pelas minhas filhas!!!

Carina Rodrigues disse...

Concordo!

Cumpts,
viagemdoceviagem.blogspot.com

Storyteller disse...

Há pais que querem ser pais, não apenas no Dia do Pai mas durante todos os dias do ano, mas que as mães impedem-no. E fazem-no de uma forma mesquinha, rancorosa e vil. Conseguem pôr os filhos contra os pais apenas porque não suportam a ideia de que o casamento/relacionamento não resultou.
E quem sofre com isso? Em primeiro lugar os filhos, porque ficam divorciados do pai, não por vontade deste mas sim por incapacidade emocional (sim, considero ser uma incapacidade emocional o não aceitar que uma relação chegou ao fim e que há que fazer de tudo para estragar a vida ao outro) da mãe.
Em segundo lugar o pai, porque vê-se privado dos filhos. E não me venham cá com a conversa de que ser mãe é mais do que ser pai porque se carregou o filho no ventre. Balelas!
Em terceiro lugar a própria mãe, pois não acredito que uma mulher que aja desta forma seja feliz.

Adriana disse...

Concordo totalmente com Storyteller... Tenho um exemplo desses em casa. Um homem que já não amava uma mulher e pediu o divórcio apenas dela. As visitas aconteciam, e ela sempre na expectativa dele voltar. Quando ele casou novamente, cheia de rancor, ela fez de tudo para que ele não estivesse com as meninas. O clima era insuportável e ela fazia escândalos na frente das crianças (não conto detalhes, mas posso garantir que foi muito, muito mau). Ele se afastou, pois considerava que seria melhor para a tranquilidade das filhas. Nunca houve diálogo, nada... Ele achou (ingénuo) que, mais crescidas, elas poderiam entender... Nunca foi assim. E a primeira mulher ainda o procurou para pedir perdão por tê-lo afastado delas... Agora?!
Por isso é que acho que existem casos e casos... Mas, dá-me azia que hoje se fale em tantos pais ausentes, quando alguns não o são por vontade própria... E nem todas as mães são as heroínas que pintam...
De qualquer forma, sempre gosto dos teus textos, Pólo...

Suspiro disse...

Eu até queria escrever sobre isto, mas tu tens o dom de me tirar as palavras! ;)

Almofariza disse...

Brilhante!!!

Beijinhos e cadês

Almofariza

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