quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu fiz um quarto de maratona (e quase não sobrevivi)

Fim-de-semana de team building. Eu sou a mulher dos Recursos Humanos da empresa mas nem tive oportunidade de piar quando o big boss vociferou que queria um fim-de-semana de team building. Ainda tentei sugerir programas top como drums circle ou yoga do riso. Para dizer a verdade, tentei tudo o que não implicasse exercício físico mas chegámos ao consenso de uma prova de geocaching.
Eu já tinha feito geocaching. Tenho a app no icoiso e tudo.
Para quem não sabe o geocaching é um desporto de ar livre no qual se utiliza um receptor de navegação por satélite ( GPS) para encontrar uma "geocache" (ou simplesmente "cache") colocada em qualquer local do mundo. Uma cache típica é uma pequena caixa (ou tupperware), fechada e à prova de água, que contém um livro de registo e alguns objectos, como canetas, afia-lápis, moedas ou bonecos para troca.
Claro que pensei fazer a prova numa lógica de caminhada na zona circundante do fantástico Clube de Campo de forma a podermos usufruir das fabulosas vistas. Pedi para acrescentarmos à lógica de goecaching uma versão de peddy geocaching paper e assim colocávamos perguntas sobre a empresa, o trabalho de cada departamento e pedidos vários e eu estava mesmo contentinha da vida com tudo o que tinhamos preparado. 
No dia da partida para sul, enviaram-me o mapa de percurso: 14 km. Catorze. 14 000 metros. Arregalei os olhos mas como eu não estava inserida em nenhuma equipa e ia circular de jipe por todo o trilho, não dei muita importância ao assunto. Mas a Anabela (sim, sim, esta Anabela) adoeceu e faltou ao fim-de-semana e, com uma equipa com menos elementos, adivinhem a quem calhou a fava de substitui-la? Yep...
Ganhei coragem, calcei uns ténis que tinha levado just in case (novinhos, que comprei aquilo para fazer desporto antes de engravidar e a Ana já quase que tem a menstruação e eu ainda não os tinha estreado) e pensei que não podia ser assim tão difícil. Ia cheia de pica: ah, ar puro, paisagens paradisíacas, equipa motivada, primeira cache encontrada. Mas os meus colegas de equipa começaram a entusiasmar-se e a acelerar o passo. E de uma caminhada já estávamos em marcha. E o big boss mede um metro e noventa e calhou que estava na minha equipa, pelo que, para cada passo dele eu tinha que dar uns dez aos saltinhos, sob pena de parecer a Maria Barroso, sempre um quilómetro recuada do Mário Soares, quando andam "lado a lado". Comecei a ficar cansada. 
Mas tentava motivar-me enquanto passava pela fauna local 






Mas depois os bichinhos são muito fofinhos e tal mas comecei a ficar com dor de burro. Depois um dos elementos do meu grupo decidiu que bom, bom, era fazer batota. Eu, que tinha que dar o exemplo, alinhei na hora. Quem quer saber da ética quando está em arritmia? E lá fomos todos atrás do atalho desprezando o belo ditado que advoga que "quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos" e, de repente, estava com lama até aos joelhos. Literalmente. E a pensar tantos palavrões que não vos passa pela cabeça. 
De repente passou um rato- que infame! imagine-se? um rato no campo...- a uns 10 centímetros dos meus pés. Depois um espécime destes


e aquela hora eu, Pólo Norte, com dor de burro, com lama até ao pescoço e a avistar bichos nojentos já não estava contente. E, como não podia dizer palavrões porque estava em contexto de trabalho comecei a maldizer a natureza. E quando passámos pela mina da Juliana, que assim de repente me pareceu uma metrópole, devia estar com um semblante tão desolador que uma senhora me dirigiu um "atão mana, queres sentar-te aqui no pial a descansar, que vou ali buscar-te pão e queijo e logo os apanhas?". Eu não faço ideia do que seja um pial mas naquela altura eu sentava-me em qualquer lado. Mas não, que era trabalho, que tinha que continuar. Sentia-me gelada, a transpirar com calafrios e a ver luzinhas. Achei que ia desmaiar. Infelizmente não e continuava a andar, a andar. 
Aos 5,5 Km vomitei. Vomitei as duas barritas energéticas e o kit kat que já tinha metido no bucho e pensei que ia morrer. Ainda fiz mais meio quilómetro, até ao jipe que já me esperava.
Assim que sentei o rabo no carro pensei porque raios não me passou pela cabeça um rally-paper e estive o resto do tempo a penitenciar-me. 
Como não queria dar parte fraca estive a congeminar uma desculpa para apresentar no debriefing ao grupo todo. Num metáfora que justificasse a minha péssima forma física e a minha vergonhosa aptidão para o desporto. 
A verdade é que assim que eu desisti, a minha equipa ganhou um ritmo mais rápido e eu lá respirei fundo pensando que o lema "muito me ajuda quem não me atrapalha" era o mote perfeito para mostrar como a minha desistência, no fim de contas, foi o melhor para todos. Em psicologia chama-se a isto redução da dissonância cognitiva. 
A verdade é que cumpri 6 km no último fim-de-semana. Não senti adrenalina nenhuma, bem estar nenhum nem nada de bom. Só uma forte dor de pés, dor de coluna, dor de burro, dor de estômago e dor de alma. E um bocadinho de raiva pela Anabela, a quem eu tive que substituir. 
Para o ano teremos karts. Ou um mini-safari de jeep. Ou uma aula de culinária. Mas exercício jamais!
A única coisa boa da caminhada foi o resultado da prova. A minha equipa ganhou. E a mim me pode agradecer que "muito me ajuda quem não me atrapalha". 
No fundo, não sou uma desistente: sou uma sacrificada em prol do desempenho da minha equipa. Uma mártir!
Não precisam de agradecer.

(Eu queria mesmo era saber o que raio é um pial, pá!)

19 comentários:

av disse...

Ò Polinho, tens de vir comigo para as caminhadas, para ganhar estaleca, que isso de vomitar aos 5,5 km é coisa fraquinha :D
Beijinhos

Na Mesma disse...

Isto é que me faz vir espreitar este blog todos os dias. Também será isto que me levará ao despedimento por justa causa, insanidade, alegarão eles... " Sô Doutor Juiz do Tribunal de Trabalho, a funcionária ri-se sozinha sem motivo, atrás do monitor!!"

Carla disse...

6km corresponde a um sétimo de maratona.

Helena disse...

segundo o Hóme cá de casa, pial é um degrau, ou uma beira de uma escada ou murete

Filipa disse...

Ursa, é desta que os teus outros colegas de trabalho vão descobrir quem és!!!
Ou então são espécimes humanas desprovidas de inteligência, poder de dedução e lógica. :P

Ana Chagas disse...



O que me ri agora! Adorei o teu relato!
Compreendo-te perfeitamente, embora adore caminhadas, e teria ficado feliz com um evento desses. É que nunca me senti virada para o desporto, qualquer que fosse, desde sempre.

Pólo Norte disse...

Filipa,

Sabes que para aí 9/10 das pessoas que eu conheço (incluindo colegas de trabalho) não lêem blogs nem estão nem aí para blogs, certo?

disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
disse...

Epá, ao contrário do que a Margaridinha diz, há coincidências!
Em Dezembro também estive com uns primos no Vila Galé Clube de Campo. Numa solarenga manhã de Domingo, nós os quatro decidimos ir dar um passeio, sendo que só uma pessoa, a minha prima, foi de bicicleta. "Ah e tal vamos por aquele caminho, para não fazermos o mesmo percurso". Ok, eu e ela fomos à frente, os dois homens um pouco mais atrás. "Epá, isto está a afundar... Está mesmo a afundar...!!! AHHHHHHHHHH!!!!!". Resultado? As duas atoladas com lama até aos joelhos a rir à gargalhada por não conseguirmos sair! Ela ainda tinha a bicla para se apoiar, eu não tinha nada! Foram precisos paus, perícia, a ajuda incondicional dos boys e muita paciência para sairmos dali!
Pessoas que visitem o Clube de Campo: nunca tenham ideias brilhantes como atalhar caminho ou conhecer percursos diferentes. Just saying!

Cristina B. disse...

Moça, o pial é a entrada de uma casa, é o degrau que antecede a porta!

Vera Libanio disse...

Como te compreendo, este Domingo fiz 25km numa Causa Solidária da Oikos que serviu também para uma espécie de Team Building, não vomitei mas à noite senti dores em partes do corpo que eu própria não sabia que existiam. Só de me lembrar dói. Hoje já estou fina mas não me vou esquecer tão depressa. Mas consegui cortar a meta ;)

Ana Chagas disse...



Aconselho-vos os sticks de caminhada! Em termos de desporto, são os meus melhores amigos.
E a mochila térmica, para que nunca falte água fresca. Porque eu com sede, queixo-me com uns termos, que não lembram nem a marinheiros em doca seca :P

Drika disse...

Eu cá conheço é o poial :) e sou do baixo Alentejo. Adorei o texto!

MartaP disse...

Poial, a palavra correcta! Apesar de no Alentejo se lhe referirem como "pial".

Luna disse...

Aprendi há tempos com o amish: é um banco de pedra.

vanda disse...

Alentejana confirmando que "pial" é mesmo o termo usado por estas terras quentes para nos referirmos ao dito poial, degrau (normalmente à entrada da porta) onde gostamos de nos sentar nos serões de Verão a "apanhar" fresco! ;)

Eliana Pinto disse...

A minha avó diz `paial`, isto no algarve :)

precisodememoria disse...

Antes de haver estas cozinhas todas xpto capa de revista, na zona saloia um pial ou poial de pedra, era a bancada da cozinha, onde se apoiavam os alguidares de barro com massa leveda, junto ao forno.
Já agora uma sugestão, o mundo divide-se entre os que dizem pote e os que dizem penico.

Joana Alves disse...

No Alentejo dos meus avós (alto!) um pial é um degrau :)

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