segunda-feira, 7 de abril de 2014

Alentejo em mim

A minha família [materna] é do Minho. Eu sou Minho, a minha alma é verde-Gerês, a minha energia é rica como os mexidos, a minha alegria é folclórica e a minha personalidade é exuberante como os brincos de raínha. Eu sou Minho.
A minha família paterna, da qual tenho poucas ou nenhumas inflluências é do Algarve.
Casei com os Açores. Sim, não casei com um açoriano, casei mesmo com os Açores, com a dolência das ondas, a imprevisibilidade das intempéries, das forças da Natureza, a generosidade do povo, a nostalgia do mar ser já ali.
Não tenho nenhuma raíz no Alentejo, nenhuma memória afectiva, nenhuma relação emocional, nada.
Este fim-de-semana, Albernoa recebeu-me de braços abertos. Tive direito a um quarto com vista para um ninho de cegonhas. Gastei, ou melhor, investi um bom tempo a observá-la. A observá-los: macho e fêmea dentro de um ninho gigante, berço de ramos pequeninos e delicados, ela a cuidar da cria, ele a fazer voos pacientes, um a um, ramo a ramo em cada viagem, ambos a encaixá-los com cuidado e numa lógica instintiva.
Uma caminhada de 6 quilómetros (don't ask!) com paisagens absolutamente deslumbrantes, passagem por aldeias esquecidas onde as pessoas me oferecerem o pial para descansar, vinho e queijo, vinhas a perder de vista, uma barragem que serpenteava por aqui e ali e só me apetecia ficar. 
"Ficar", esse verbo tão alentejano, tão sulista, entre o deixar-se estar e o pousar, entre o planar como um grou e fazer ninho como uma cegonha, entre a simplicidade do pão e o requinte do azeite. 
Volto em breve. Para ficar. Só mais um bocadinho. 
E voltar a sentir esta paz. 

 [Será que o Alentejo me adopta?]

12 comentários:

moi chéri disse...

A mim adoptou-me! Experimenta!
ana ademar

Ana Chagas disse...



Tenho uma costela alentejana. E agora fiquei com uma fome de Alentejo, que já ando a pensar em férias. Adivinha por onde?! ;)

rosa do deserto disse...

Credo!
Já morei em muitos sítios deste Portugal, em Trás-os-Montes, no Minho, na Beira Interior, nos Açores, no Ribatejo, no Alentejo,... Adorei Trás-os-Montes, Minho e amei os Açores. Mas os piores anos da minha vida foram mesmo no Alentejo. Experiência horrível, odiei mesmo! Passei 4 anos lá e senti-me numa prisão (coisa que nunca senti numa ilha pequena dos Açores). Gente horrível, paisagem enfadonha, não se passava nada, não havia nada e fui muito mal tratada no local de trabalho (claro, também conheci gente alentejana espectacular)...

Morei numa vila pequenina de interior, onde a cidade mais próxima ficava a cerca de 70 km... Não via a hora do tempo passar para poder sair de lá. No último ano imprimi um calendário e todos os dias fazia uma cruz em mais um dia que passava (tal e qual como vemos nos filmes os prisioneiros fazerem). Não tenho saudades de nada (bem, tenho de algumas pessoas).

Não gosto da paisagem, nem do cheiro, nem da comida, nem do clima, nem das casas, resumindo: detesto o Alentejo. (Pronto, gosto das cegonhas.) Mas admito que para quem viva numa cidade passar uns dias num local desses seja bom. Afinal de contas faz-se uma espécie de corte com o stress e descansa-se, afinal de contas no Alentejo não se passa nada... De todos os sítios onde morei gosto mesmo de Trás-os-Montes, do Minho e dos Açores. Para além de tudo estas paisagens são fantásticas e as pessoas são muito mais acolhedoras...

Posso ter tido "azar" com o sítio para onde fui e com grande parte das pessoas que conheci, mas continuo a não gostar do Alentejo como local...

(Pronto, foi o meu momento de me sentar no divã do psicólogo.)

Pedro disse...

Não tenho ligações familiares nenhumas ao Alentejo, mas é lá que me sinto em casa (e eu nem gosto de campo)

rosa do deserto disse...

Ahhhhhhhh esqueci-me de uma coisa! Shame on me! Há uma coisa que adoro no Alentejo! O vinho!!! Tinto! Adoro, mas longe de lá... :D

(pronto, para além das cegonhas também gosto muito do vinho tinto alentejano...)

Catia Carrilho Costa disse...

Gostei muito do texto :)

Cecíl disse...

Herdade dos Grous... mas esse não é o verdadeiro Alentejo, é o Alentejo turistico...

Cecíl disse...

Rosa do Deserto experimentou o Alentejo, não foi azar, é mesmo assim!

I sarcastically disse...

Opah.... O Alentejo adopta sim !!!!!!!!!!! É porra de bom, não é ?

Nunes disse...

Sendo eu alentejano, posso te dizer antecipadamente que sim, que te adoptamos. Sim, porque eu mando na minha rua e aqui a adopção é legal!
Calhando nã tens é onde ficar, mas há um parque de campismo aqui perto! :) O meu Alentejo é só praia, serve? ;)

JM disse...

O meu Alentejo é só campo, planícies sem limites, lonjuras muitas cores,de amarelo, de verdes, de castanhos.Da Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno.É claro que adoptamos!
Rosa do Deserto, tem a certeza que esteve no Alentejo? Nã!! Não no meu Alentejo! Isso foi um sonho mau! Mas partilhamos o gosto do vinhozinho. Tintinho que dá gosto! Com jeito ainda lá vai.

mãe disse...

Olha, eu já vou a caminho de 3 anos que me auto-adoptei ao Alentejo, ou seja, voltei para onde me puxavam as costelas, e por aqui, tudo se adopta... aliás, uma coisa curiosa, é o sistema das portas abertas, encostadas, ou, quando muito, no trinco, pelo que, básicamente, que entre quem vier por bem. E este ainda não é o meu Alentejo, da lonjura e do silêncio, ainda é o da cidade com tudo o que faz falta para criar 5 filhos à distância dos seus pequenos passos... mas já lhe sinto o cheiro, já me sei mais perto :) Em Montemor, tens uma casa às ordens, é só dizeres...

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