terça-feira, 13 de maio de 2014

E agora coisas com pés e cabeça

"Antes de haver União Europeia havia a Eurovisão. O festival da Eurovisão foi, durante décadas, o grande unificador europeu sem querer. Não é por acaso que foi a partir dele que os americanos inventaram a expressão Eurotrash - não se goza com o que não "incomoda". O facto do festival sempre ter sido de pop nivelado por baixo é significativo: é a cultura popular, popular mesmo, que cria pontes e identificações. Com as mudanças políticas do pós-muro de Berlim, o festival alargou-se a leste - báltico, balcãs, leste propriamente dito e até ao Cáucaso. De certo modo, à medida que o festival foi perdendo adeptos a Ocidente, foi-os ganhando a Oriente. Acontece que o festival sempre teve uma estética gay - hoje diriam queer, mas prontoS - no sentido auto-irónico da cultura gay, brincando exageradamente com os códigos de género, romantismo, drama e sexo. Ora, como a Leste, em geral, triunfaram oligarquias que unem o pior conservadorismo religioso com o pior puritanismo cripto-estalinista e neo-fascista, as performances queerizantes do festival (que passam justamente por serem "pirosas" e não intelectuais) são, sim, uma ameaça. Sobretudo porque é desde o Leste - em aliança com o Vaticano, as ditaduras pós-coloniais em África ou o fundamentalismo islâmico - que vem esta recente onda de transformar as pessoas LGBT no símbolo do mal e de um mal "com origem no Ocidente" (que não é odiado por ser capitalista mas por ser, supostamente, liberal). Com Conchita Wurst, as reações do público na cerimónia, as votações e a sua geografia, e as reações dos poderes a leste, tivemos, sim, um momento de política cultural - feita agora através da política sexual - muito importante. Não estou a brincar. É que as pessoas aqui no extremo-ocidente peninsular, no sul-europeu pós-católico, ou no corredor liberal de londres-paris-bruxelas-amesterdão-copenhaga-estocolmo às vezes não fazem ideia do que se está a passar a leste: não se trata de "restos" de um passado que ainda não se transformou, trata-se de uma coisa nova e revanchista que, aliás, já contamina os conservadores do "lado de cá". Tudo isto diz-nos muito sobre a centralidade simbólica da sexualidade nas discussões contemporâneas sobre modelo de sociedade. E deveria dizer-nos muito sobre a importância da política europeia."

Pelo Professor Miguel Vale de Almeida: no seu mural público de facebook aqui

1 comentário:

elisa disse...

Pólo, público, não é? Foi mural público que quiseste dizer;)?

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