domingo, 4 de maio de 2014

Feliz dia para todas as futuras mamãs

Alguém tem que te contar isto (às grávidas de primeira viagem, aos recém-pais, aos casais que estão em treinos para se tornarem pais)

1- Nunca mais vais dormir profundamente- E não, não é só nos primeiros dias, semanas ou meses: é para sempre. Eu tinha o sono de um trabalhador de um autódromo em dias de corrida de F1, eu não acordei com dois sismos de magnitude razoável, eu adormeci em cima de uma coluna de uma discoteca, eu assim que caía na cama entrava em estado de coma e agora... agora ao primeiro suspiro imperceptível abro os olhos em êxtase e fico em estado de vigília automático. Primeiro era porque ela era recém-nascida e prematura, depois porque era pequenina e podia-se bolsar, engasgar e morrer, depois porque a morte súbita existe, depois porque optámos pelo co-sleeping e tinha o som da respiração dela ali em sistema pal-plus, depois porque ela tinha ranho no nariz e tinha que o aspirar, depois porque palrava a dormir, depois porque estava com um sono demasiado silencioso, depois porque ela simplesmente existe e eu tenho medo que lhe aconteça alguma coisa de mal enquanto dorme e eu esteja a dormir tão profundamente que não a consiga acudir. A verdade é que ela tem o sono igual ao que eu tinha- maravilhosamente profundo- e já raramente acorda a meio da noite mas o meu cérebro habitou-se ao estado de vigília constante e está sempre alerta. E mesmo que ela durma na avó, a meio dessas noites, o meu sono REM está sempre numa rave constante.

 2- A tua casa nunca mais poderá aspirar a ser capa de uma revista de decoração- Não sou propriamente uma pessoa fanática da arrumação mas antes da criança nascer tinha lugares próprios para as coisas e as coisas devidamente nos lugares. Acontece que agora a minha casa é um jogo de caça ao tesouro constante: o patinho da banheira pode estar- húmido claro- em cima dos livros da parte de baixo da estante, os tupperwares da cozinha debaixo do berço, as chaves do carro podem estar no fundo da sanita e os brinquedos têm o dom da ubiquidade e estão em todo o lado. Literalmente. Para além de tudo migalhas de bolacha e bocados de côdeas de pão servirão de tapete a muito chão das diferentes divisões, print paint de restos de comida ornamentarão algumas paredes, os protectores com luvas do Mickey que se vendem no IKEA para proteger os cantos aos móveis não conferirão, propriamente, um aspecto de design à tua casa e... bye, bye Caras Decoração! 

 3- A palavra "cocó" fará parte das tuas conversas diárias- Primeiro é porque a criança é presa. Depois um dia tem diarreia e é um assunto de estado. No dia seguinte faz duro e também não se devia ter exagerado no Nestum de arroz, pá! Depois um dia não faz e é um drama. No seguinte, a cor é amarelada e será que é pertinente levar a fralda ao pediatra para a observar (à fralda). E todos os dias de manhã ela faz e hoje e ontem de manhã a fralda só tinha xixi, que estranho... E depois vai para a creche e tu não consegues controlar a frequência, a cor, a consistência e o cheiro (sim, é triste mas é verdade). E todos os dias, mesmo que não queiras, inequivocamente, sairá da tua boca uma questão que incluirá a palavra "cocó". 

 4- Nunca mais partilharás uma refeição ao mesmo tempo que o teu marido- Inicialmente parece que, propositadamente, a criancinha berra sempre que te preparas para comer, pelo que, dar colo e comer com uma mão apenas passa a ser a fruta da casa. Sendo que o ping-pong infantil passa a ser utilizado com frequência durante as refeições: "Ah, deixa estar, eu embalo-a! Ping.", "Olha, eu já comi metade do bife, passa-me aí que eu ponho-a a arrotar para tu comeres as batas fritas antes que estejam frias e moles a saber a blheca! Pong.", "Dá-ma lá outra vez para acabares de comer o arroz. Mas de caminho, ajudas-me aqui a cortar o meu panado que com ela ao colo não consigo utilizar a faca?" são discursos recorrentes e comuns. Com os bebés maiores a parte física e mecânica da coisa acalma mas a parte do convívio fica mais difícil: nunca mais conseguirás ter uma conversa à mesa, com princípio, meio e fim de seguida. As interrupções para acalmar o choro, parar a birra, limpar a boca, assoar o nariz, arranjar o gancho no cabelo, repreender, rir à gargalhada com a gracinha, fazer uma festinha, dar comida do teu prato à boca da menina que a reclama, enfim, as interrupções serão intermináveis e (temo que) para sempre. 

 5- O artigo no qual despenderás mais dinheiro no supermercado é detergente para a máquina de lavar roupa- A roupa multiplicar-se-á como se fosse cogumelos. Deixem-me corrigir: a roupa SUJA multiplicar-se-á como se fosse cogumelos. Ir ao supermercado, ainda que para comprar meia dúzia de tarecos tipo pão e fiambre e queijo, nem estamos a falar das compras do mês, incluirá sempre na pequena lista "uma embalagem de detergente para a máquina". E amaciador e tira-nódoas, já agora. A roupa suja-se muito e não, lamento, não é só a do bebé. As tuas camisas passarão a ter nódoas de leite, de bolsado, as calças do teu homem passarão a ter bocados de papa de bolacha maria incrustados e a ideia de asseio na roupa, imaculadamente limpa e passada, é uma visão utópica de um passado que fica cada vez mais enterrado. 

 6- Se fosses um super-herói depois da maternidade serias a mulher/homem invisível- Abres a porta e ninguém te cumprimenta nem com um "olá". Irrompem-te pela casa ao mesmo tempo que gritam "E a menina? A menina está acordada? Onde está a menina? Aaaaaannnnnnaaaa?". Os teus sogros ligam-te pelo skype e assim que vêem a tua cara, franzem o sobrolho e acrescentam um "O que é que estás aí a fazer? Vai mazé buscar a menina para a podermos ver..." Sempre que alguém te quer dizer alguma coisa manda recado pela menina como se tu não estivesses presente "Diz à mãe que vamos ali ao parque, diz! Já disseste à mãe que a avó te comprou um carrinho de bonecas? Pergunta ao pai onde é que ele meteu as toalhitas" A parentalidade traz-te o dom da invisibilidade. 

 7- "Culpa" será "your middle-name"- Desde que passas a ser mãe/pai sentes culpa por tudo o que diz respeito ao bebé. "Dou-lhe mama: será que ele come suficiente? Como posso saber que o estou a alimentar bem se não consigo medir a quantidade de leite ingerido? Não dou mama: será que o leite adaptado fornece todos os nutrientes necessários para que ele cresça saudável? Será que vai ter vinculação comigo ou me vai espetar num lar quando eu fizer 50 anos? Fico com ele em casa até perfazer um ano: será que seria mais importante o contacto com outras crianças e socializar? Será que eu o estimulo cognitivamente tão bem como uma educadora que estudou 4 anos para o saber fazer? Ponho-o na creche: será que têm tempo para lhe dar toda a atenção individual que precisa? Será que o contacto com os outros miúdos lhe vai trazer micróbios e vírus e me vai ficar doente? Dorme na caminha dele: será que se sente sozinho e abandonado? Será que está quentinho e confortável? Optámos pelo co-sleeping: será que nunca vai ser autónomo e independente? Será que corremos o risco dele nunca mais querer sair da nossa cama? " Ser mãe/pai é ter um medo constante em fazer escolhas e tomar as decisões certas para os petizes e, por causa disso, sentir culpa. Muita culpa. 

 8- Saberás de cor coisas estranhíssimas, como por exemplo, o 808 24 24 24- Que é o número da saúde 24 para onde ligarás mais vezes do que o razoável e por razões tão estúpidas como "ele nunca dá puns, devo levá-lo ao hospital?". Saberás que não é indiferente colocar primeiro a água e depois o pó no biberão. Saberás que os choros são toooodos diferentes e o que significa cada tom de "buáá". Saberás que o supositório de benurom não se introduz como um foguetão mas sim com a parte não afunilada primeiro. E que arrotar não é, propriamente, obrigatório. Saberás que comandos de televisão são o melhor brinquedo do Mundo. Que os dentes a romper provocam assadura no rabo. E quem é a Anita, embora odeies o seu tom de voz. Que o narrador do Pocoyo diz sempre "oh céus!" em todos os episódios. E que os Caricas são, ainda assim, do mais suportável e - pior que tudo!- saberás de cor a coreografia da taça. 

 9- O teu carro assemelhar-se-á ao carro de renas do Pai Natal- No banco dianteiro do teu carro encontrarás malas com fraldas e roupa sobressalente. E livros pequeninos. E pacotes de bolacha Maria. E rocas. E bebés-nenucos. E tantos telefones que poderias abrir um baby call center. E asas de borboletas para lhe colocares nas costas. E ganchinhos perdidos, muuuuiiiiiitos ganchinhos perdidos. E maracas. E comandos de televisão velhos e também o da ZON, que andava perdido. E peças que se encaixam em caixinhas mas sem as caixinhas: só as peças. E coelhinhos. E todo um manancial de brinquedos. 

 10- Apesar disto tudo, muitas vezes te questionarás como raios te poderias considerar feliz antes do bichinho nascer. Olharás em volta e- não te vou mentir!- vais sentir falta de dormir que nem uma pedra, de teres a casa arrumada, de não falares sobre cocó todos os dias, de teres a leitura em dia, de uma noite boa ser uma noite de copos com os amigos e não uma em que durmas oito horas seguidas, de teres o carro limpo e ordeiro, de entrares numa loja e pensares no que te faz falta no teu guarda-fatos e não ires direitinha em direcção à secção infantil, de não teres estrias na barriga (não, o creme Barral não faz milagres!), de teres a roupa lavada e passada em dia, das bolachas Maria não serem o alimento mais rapidamente consumido na tua casa, de achares que o Panda é um animal que existe na China e não o dono de um bairro, de partilhares uma refeição em amena cavaqueira com o teu marido, de tomares decisões com ânimo leve, de seres importante, a mais importante, para a tua mãe e família, de não te tratarem por mãe nos sítios, de viveres despreocupada e com leveza; mas no fim do dia, mesmo que o bebé seja recém-nascido, vais ser impossível pensares como era a vida sem ele e vais perguntar como raios te poderias achar plenamente feliz antes dele nascer e como não trocavas a maternidade por nenhum outro desafio no Mundo, afinal.

1 comentário:

Unknown disse...

É que é isto mesmo. Obrigada pelo texto!

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