domingo, 4 de maio de 2014

Para todas as que ouvem "entãããooo, e quando é que mandam vir um bebé?" um feliz dia também

Maternoevangelizar 

 "Oh, tens que experimentar: é mesmo bom!"- dei por mim a dizer a uma amiga que não tem filhos e que me perguntava como estava a correr a experiência. E a seguir assisti a sair da minha própria boca um sem número de argumentos de venda da maternidade que deixaria frustrado qualquer vendedor de cartões de crédito de corredor de shopping e que apelidaria de "amadora" qualquer vendedora da Bimby. 
 E fiquei zangada comigo mesma por não resistir a esta tendência de querer "maternoevangelizar" os demais que tanto me irritava nos outros antes de ser mãe. Ser mãe é bom, ok? Ser mãe é muito bom, melhor do que qualquer expectativa que eu pudesse ter acerca do assunto. Mas, lá está, é para mim, neste tempo e neste espaço e neste conjunto de circunstâncias. Que sei eu da vontade dos outros? Não ser mãe também é bom, não se pense que me deu uma amnésia e me esqueci da minha vida há dois anos. Tem muitas regalias e só não uso aqui a palavra "vantagens" porque hoje, em termos comparativos, não as escolheria. "Hoje", lá está.
 Não ser mãe permite ser mais despreocupado e genuíno. Lembro-me de mámen me apanhar à sexta-feira no escritório e perguntar se queria ir passar o fim-de-semana ao Alqueva, sem sacos com roupa, sem nada, assim por impulso, no caminho passamos por um "Modelo" e compramos roupa interior, uma escova de dentes e pasta e o que mais achámos preciso. Claro que nunca mais aconteceu isso porque quando nos dão desejos desses temos toda uma logística parental que nos obriga a ir a casa buscar 5 mudas de roupa, bodies da miúda, o termómetro e o arnidol, chuchas suplentes, três pacotes de fraldas e os quinhentos biberãos. 
 Não ser mãe permite mais tempo para o ócio. Nunca mais consegui ter o mesmo ritmo de leitura de livros, fazer uma refeição na companhia da Ana sem ver as minhas conversas serem interrompidas de minuto a minuto e sem conseguir ter um discurso corrente e fluído com quem me acompanha na refeição e nunca mais dormi como uma pedra, aquela coisa boa de "morrer" para a vida. Estar na praia deitada na toalha mais de 2 minutos ininterruptos sem levar com baldes e pás na pinha, comer com moches da Ana e impedi-la de 30 em 30 segundos que coma mais areia que um camelo no deserto, passou a ser uma tarefa impossível. 
 Não ser mãe permite ter uma vida social mais activa, e já nem falo de ir beber copos para o Bairro Alto todas as sextas mas, sei lá, de almoçaradas e jantares mais frequentes, programas simples como ir às compras com as amigas sem condicionantes como sestas, horas de dormir, de comer, interrupções para mudas de fralda, para dar colo, para calar birras e afins. Não ser mãe tem coisas muito boas, atenção, não pensem que fazem uma lobotomia a todas as recentes mães. Acho é que às vezes o cansaço (sim, é cansativo, quem disser o contrário mente!) é tão grande que as novas mães tendem a esquecer-se dessas coisas boas, da liberdade de só termos que nos preocupar com a nossa pele, para poderem ganhar alento, uma espécie de redução da dissonância cognitiva para poderem ter força anímica para continuar. Ser mãe é bom- digo eu!- mas não é propriamente piece of cake. Como escrevi, um dia "ser mais é fácil, difícil é ser tudo o resto".
Por isso quando oiço alguém maternoevangelizar outra pessoa, como eu ontem com a minha amiga, tenho tendência a dizer-lhe "Ó pistoitira, passa lá a parte maravilhosa e conta lá o filme todo, se faz favor, para que ninguém vá ao engano! E pára lá com essa tendência estúpida de comparação de que ser mãe é melhor do que não ser e que temos que recrutar essa fiel para o lado de cá, onde já se viu, tão bom ar, vê-se mesmo que tem o sono em dia, roupa sem nódoas de bolsado- que infâmia!, escapadinhas românticas a dois todos os fins-de-semana- que grandes vidas!-, trá-la mazé para a equipa das mães que aqui é que é bom e não ser mãe deve ser cá um vazio, não me lembro, não me lembro, do bom que também era quando eu também não era mãe, afinal! Agora acalma aí os teus cavalos, dá tempo para que apeteça à pobre ser mãe, sem a tentares convencer para vir para o lado do bem e mete os materno-argumentos sobrevalorizados no copo, velocidade 10, temperatura 100, sim?"

1 comentário:

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

Adorei este texto...identifico-me muito com ele e não sou mãe (mesmo a galopar para os 40, mesmo com uma relação de 16 anos...).identifico-me pq é-me mais facil a mim ver os dois lados do que as minhas amigas q são mães e que querem á força que eu tb seja...tal cm dizes, pode-se ser feliz das duas maneiras!

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