quinta-feira, 2 de julho de 2015

Se há o juramento de bandeira, o de Hipócrates, porque não o juramento de mãe? (repost)

Juro, solenemente:

1- Aprender a fazer pompons- Acho verdadeiramente que pompons não têm utilidade nenhuma na vida mas todas as minhas amigas sabiam cortar a rodelinha de cartão, enrolar a lã à volta da rodela, cortar a porra da lã e voilá… como num acto de magia, um fabuloso e farfalhudo pompom saía das mãos de fada das moçoilas. Já eu tinha tanto jeito para fazer pompons como origami ou tudo o que implicasse a motricidade fina de um elefante. Mas agora estou determinada a ser uma mãe que sabe fazer pompons e a deixar de lado imagens como esta: pompom

 2- Passar a ter uma especialidade gastronómica- As mães que se prezam têm uma especialidade. A minha especialidade, basicamente, é discar os números de telefone da Telepizza e mandar vir uma Pizza Carbonara. Cozinho mal medianamente, não faço bem nenhum prato em especial e tenho tanto gosto em estar enfiada na cozinha como em dançar o corridinho algarvio. Quero deixar uma memória gastronómica no palato da minha filha e temo acabar por ter que comprar frango assado já feito com o molho especial da churrascaria aqui do bairro e mentir à família a dizer que o assei no forno e que o tempero é segredo de família… 

 3- Aprender a medir a febre com os lábios- Mãe que é mãe dispensa termómetro. Mãe que é mãe encosta os lábios à fronte do filho e sabe, exactamente, que ele está com 38,8 graus e, no segundo seguinte, consegue ainda fazer a respectiva conversão para a escala de fahrenheit. Eu, coloco os lábios na testa da miúda e só consigo aferir se está transpirada, pele lisinha, bem cheirosa, etc… Sou uma nódoa de mãe enfermeira e tenho que regular, asap, o termostato da miúda com os meus lábios sob pena de um dia ela me servir a vingança num prato frio. 

 4- Aprender a nadar- Vai dar jeito para quando ela for mais velha e deixar de acreditar que eu não a acompanho às aulas de natação não porque não me apetece ter sempre a depilação em dia mas porque, efectivamente, entro em pânico de cada vez que a água me chega à linha dos joelhos. Também vai dar jeito para podermos ir à praia e eu poder acompanhá-la a banhos em vez de ter que inventar que o almoço me caiu mal, que o nadador salvador não me oferece confiança e desculpas esfarrapadas afins… 

 5- Passar a usar saltos altos- Para ser-se mãe com dignidade deve ser conveniente, em muitas circunstâncias, parecer-se uma senhora. Tipo nas reuniões de pais e quando a for levar à catequese. Quando me apresentar o namorado e outras datas oficiais afins. Andar de saltos altos sem parecer uma escanchada desmazelada a desequilibrar-me em cima de sapatos como se fosse uma caloira do Chapitô a experimentar andas pela primeira vez é capaz de me dar um ar mais respeitável. Mais senhoril e, sim, maternal. 

 6- Aprender a costurar coisas básicas- Ok, não preciso de ter um curso de designer de moda infantil mas é urgente aprender algumas noções básicas de costura porque já sei que, mais tarde ou mais cedo, alguma educadora de infância espirituosa ou alguma professora amiga do ambiente vai desafiar os pais para fazerem uma máscara de carnaval com material reciclado ou costurarem uma roupa para a peça de Natal da escola e eu não quero ser a causadora de traumas. 

7- Fazer convenientemente a manobra de Heimlich- Dois workshops depois, já no último exercício e enquanto treinava o suporte básico de vida, fiquei a saber que sou tão meiga a tentar salvar pessoas que se o boneco fosse um ser humano tinha ficado com uma costela partida e um pulmão perfurado com a costela partida. Urge urgentemente saber soletrar a nome da manobra também, porque soa mal de cada vez que a digo sair qualquer coisa como “a manobra que eu hei-de aprender nem que me lixe”. 

 8- Maquilhar-me como-deve-de-ser- No seguimento do ponto 5 e para incorporar, em condições, a personagem maternal convém saber maquilhar-me decentemente. Não é preciso ser uma expert na matéria mas, pelo menos, aprender a não coçar os olhos depois de meter rímel e eyeliner sob pena de parecer um guaxinim desgovernado. E escolher uma cor de batom decente para não correr o risco de parecer a Belle Dominique. E se não sabem quem é a Belle Dominique não googlem, só naquela de permanecerem alegremente na ignorância. 

 9- Encontrar um sítio mais refundido na casa para guardar a minha lingerie e brinquedos de adultos afins- Da última vez que a minha sobrinha ficou a dormir cá em casa e como já é crescidinha deixei-a ir brincar para o meu quarto com a minha bijuteria: brincos, pulseiras, colares e demais acessórios. O que não contava é que a miúda se decidisse a explorar as gavetas do meu roupeiro como se tivesse a brincar a uma caça ao tesouro. Fiquei para morrer quando, envergando um OVFI (objecto vibratório facilmente identificável)l a funcionar, irrompe pela sala onde estávamos com os meus sogros e, com a manita a tremelicar, exclama num tom teatral “Ó tia, esta lanerna tem a luz fundida, não tem?”. Urge que a minha filha não repita a gracinha. 

 10- Inteirar-me de todas as especificidades das personagens que uma mãe tem que assumir ao longo da vida- Saber qual a quantia exacta que a fada dos dentes coloca debaixo da almofada quando cai o primeiro dente, se esse valor difere à medida que vão caindo os restantes dentes, saber o ângulo que os olhos devem arregalar para impor respeito à miúda quando lhe abrir os olhos sem parecer que acabei de fumar umas ganzas nem que sou um carneiro mal morto, saber o tipo de bolachas e de leite que o Pai Natal come para lhe deixar na varanda na véspera de Natal,treinar a cadência da expressão “em casa conversamos”, saber sempre o nome da melhor amiga actualizado para poder usar com legitimidade a frase “não penses que falas comigo como falas com a tua amiga Joana”, ter lenços de papel na carteira que aguentem saliva para poder limpar caras badalhocas da mesma forma que odiava que a minha mãe me limpasse a mim, saber o tempo médio de um castigo para não ser rígida demais nem branda em demasia, bater palmas com convicção na plateia de cada teatrinho da escola mesmo que ela tenha tanto jeito para o teatro como eu, dizer com ar convicto “não te deixo comer gelados de água que isso é uma porcaria, escolhe antes um de leite”, não me esquecer de reparar em como vai agasalhada e acrescentar, invariavelmente, um “não te esqueças do casaco!” e nunca me deitar sem ir à sua cama aconchegar os cobertores e desejar-lhe uma noite descansada, reforçando o quanto a amo, mesmo que às vezes, sem querer ou de propósito, a possa vir a embaraçar.


1 comentário:

mysupersweettwenty disse...

O 9 ganhou xD Foi quando me lembrei que já tinha lido isto!

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