sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre aquilo do racismo e das bananas

"Não sou macaca, sou negra, sou mulher, sou humana!

 Sobre o caso do Daniel Alves, não sei se é mais irritante alguém ter tido a audácia de jogar uma banana no jogador ou a reação da mídia de "bananalizar" um ato de racismo.
 Para quem não sabe, Neymar não se considera negro e a hashtag #somostodosmacacos é apenas uma campanha de marketing. Entrando no quesito marketing , aparecem Luciano Huck e Angelica, que em breve começarão a vender camisetas e lucrar com toda a situação. Sem esquecer a RBS, que diz ter repúdio a manifestações racistas, mas não tem colunistas negros- pelo menos eu nunca vi nenhum nas propagandas diárias do jornal. E um dos poucos repórteres negros que conheci nesses meus 19 anos foi o Manoel Soares , que fazia o momento povão do Jornal do Almoço, vocês lembram? Ele ia às favelas, escutava o povo no Centro de Porto Alegre, falava sobre o carnaval, sobre o SUS, afinal, negro é sinônimo de pobreza, festa e esporte, não?
 Esse discurso todo é pra mostrar a tamanha HIPOCRISIA que se cria quando se fala em racismo no nosso país. Não ser racista não é postar uma foto com uma banana e usar uma hashtag. Não ser racista é ter pensamento crítico e lutar para que a situação mude. Não ser racista é perceber que os negros ainda são marginalizados, perceber a quantidade de adolescentes-que como Neymar- tem vergonha de suas origens, perceber que não há negros nas colunas sociais, perceber que não há negros nos ambientes mais elitizados da sociedade, perceber a quantidade absurda de jovens negros que são assassinados diariamente nas favelas causando um genocídio silencioso da juventude, perceber que negro só é lembrando em época de carnaval, perceber que a maior parte da população carcerária no Brasil é negra, perceber que os negros ganham menos, perceber que negro só aparece como personagem pobre, bandido, corrupto e favelado na televisão, perceber que não há negros em propagandas de produtos sofisticados, perceber que em seu colégio particular, na faculdade ou em seu curso de língua estrangeira há raros alunos negros, é perceber quando se pega um vôo internacional, quase não há passageiros negros, perceber que intimamente VOCÊ ainda relaciona negro com marginalização – e se surpreende quando vê negros em ambiente refinado/ cargo profissional de destaque ou fica com medo ao ver um homem negro na rua tarde da noite. E mais importante, perceber que cada uma dessas situações leva ao racismo, pois legitima o pensamento de quem acredita que o negro é inferior."

Na página de facebook da Dezyree Rodrigues

8 comentários:

Prezado disse...

Ontem ao jantar, a conversa era assim:

- o que é aquilo das bananas?
- Parece que estavam a chamar o gajo de macaco.
- Era? Eu acho que era só a unica fruta que tinham à mão para lhe atirar. Não lhe atiraram um isqueiro porque não calhou. Se calhar são é todos racistas.
- Também não percebi onde é que foram buscar a cena de levar com uma banana na tromba é racismo.
- Eu nem tinha percebido que o gajo era preto.
- até nem é muito.

Maria Turner disse...

Excelente post

Rita Maria disse...

Ia responder-te mas ficou muito comprido e deu um post inteiro. Fica o resumo: uma campanha ter sido pensada por profissionais, assumidamente, não lhe retira valor nem ética automaticamente.

E eu acho a campanha muito bem feita e a hashtag bem escolhida, porque tira poder e violência a um insulto de forma muito eficaz.

Essa senhora acha que há formas de lutar mais eficazes, importantes ou relevantes? Fixe, pois que avance, nunca se fala o suficiente de racismo.

Já discutir se Neymar se considera negro ou tem vergonha da cor da sua pele e é um traidor da sua raça, parece-me uma coisa muito mesquinha.

Little M. disse...

Prezado, esta é uma prática comum em Espanha. Atiram bananas aos jogadores brasileiros, e em determinado jogo (penso, se não falha a memória, que o alvo era o neymar) estiveram em plateia a emitir os sons próprios dos macacos...o que torna claro o objectivo das bananas em campo. :( triste, infeliz preconceito. Triste e infeliz, também é a campanha à volta do assunto, onde o mais grave, ao meu ver, nem é a banalização do preconceito, mas sim os joguetes de marketing, e o falso propósito da questão. Esta já era uma prática banalizada, e no fundo, o Daniel Alves só chamou mais atenção para a questão, em termos globais. Se isto banaliza, sim, talvez. Mas de facto, o autor do crime foi detido e teve a carinha espalhada pelo mundo...o que de alguma forma, mostra que nem sempre gente deste tipo fica impune. Será que consegue enfraquecer movimentos racistas em estádios? Vamos ver. E sim, já estão à venda as T-shirts da marca Huck. :(

Miguel R disse...

Como disse no meu blog, faz tanto sentido como agora para promover a igualdade de sexualidades criarem a hashtag #somostodospaneleiros e andarem pelas redes sociais com ela. Exatamente o mesmo nível de ridículo, só muda o insulto.

Milú disse...

Eu por mim posso muito bem distribuir o contacto da empresa onde trabalho para quem quiser alinhar na coisa. Além de vender fruta, já estamos a pensar na versão portuguesa : #eunãosouummelão e toca de mandar melões brancos (não é racismo: o gajo chama-se mesmo assim) para campos e afins. É pena não termos já para o 10 de Junho e íamos todos fazer campanha para a Assembleia da República.

Espero conseguir educar a minha filha para não se categorizar assim.Não é preta, não é mulata, não é branca. É um ser humano. Tudo o resto é como chamar gordo, ruivo, dentolas, lixívia and so on. Não é bonito, mas não é racismo: é categorização.

gralha disse...

Mais grave, a meu ver, é a campanha de anti-racismo ostensivo (se é que a expressão faz algum sentido...) dos media nos EUA, onde não há reclame de champô, medicamento, automóvel que não tenha o seu protagonista sorridente African-American (mas africano do Sudão, isso já não vende). Já para não falar na enchente de pivots, protagonistas de novela, apresentadores de talk-show. Haja pachorra para a hipocrisia no tratamento do racismo mas eu, cá por mim, tenho muito orgulho nas minhas raízes simiescas e gosto bastante de banana.

Anabela Mendes disse...

Subscrevo o texto mas acrescentaria que racismo não existe só contra os negros, descriminação não existe só contra as mulheres ou contra os homossexuais, e o facto de existir mais ou menos, não desculpabiliza que nos esqueçamos disso... estive em África e fui vítima, mais que uma vez, de racismo ou descriminação, já viajei por muitos países em que fui vítima de descriminação, pela minha condição sexual, pela minha cor da pele ou simplesmente pela minha nacionalidade... mas não porque sou branca ou negra, mas sim porque, de todas as raças, condição sexual ou nacionalidade, existem seres humanos "maus", ou mesquinhos, ou ignorantes, ou mal formados... e são esses que temos que combater, sem os diferenciar. Só aproveitei realmente porque me pareceu uma boa oportunidade para relembrar. Existem muitas campanhas mas elas têm sempre os negros como vítimas, ou as mulheres ou os homossexuais, e eles não as únicas vítimas...
Quanto à campanha, sou também da opinião da autora, não gostei, parece-me feia a frase, "somos todos seres-humanos"ou "somos todos pessoas"... soar-me-ia melhor. Também não gostei pelo aproveitamento comercial.

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