quinta-feira, 5 de junho de 2014

A (minha) blogosfera é um bairro e hoje apetecia-me levar um bolo cheio de chantilly e frutos do bosque a esta vizinha

"No dia em que o cancro vai embora, tu ficas aliviada. Telefonas a toda a gente, anuncias que está tudo bem, enches o peito de ar e gritas (com ou sem som) 'Fuck cancer!'. Multiplicas-te em celebrações, pequenas ou grandes, tudo serve para comemorar. Respiras fundo. Sentes-te livre. Achas que já está, que ganhaste ao bicho, e que tão cedo não vais ouvir falar dele, certo? Errado. Primeiro dizem-te que nos próximos dois anos vais ter rédea curta, não engravidas, não estás oficialmente curada, amargas com análises todos os meses, consultas frequentes e exames q.b. E tu estás excitada com a novidade, análises uma vez por mês é melhor do que todas as semanas, do que quimioterapia e do que longas noites passadas com químicos a comer-te as veias. E tudo isso está certo, e é mesmo verdade, e é bom. Muito bom. Maravilhoso. É tudo o que ambicionaste durante seis meses. Mas ninguém te contou que até tu, diagnosticada com um mal de excesso de optimismo, ficas com um frio na barriga de cada vez que pões um pé dentro do IPO. Que tens um bocadinho de medo todas as vezes que vês o teu sangue a escorrer para a pipeta. Que o coração bate mais ligeiro enquanto esperas por mais uma consulta. Se achas que 'ter alta' vai fechar a porta ao cancro, estás enganada. Mas nada terá em ti o efeito de um "está tudo bem" a seguir ao outro. O meu segundo "está tudo bem" desde a 'alta' foi hoje. E foi bom."


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