segunda-feira, 2 de junho de 2014

Big Brother Def*

Três casas. Doze pessoas portadoras de deficiência. Uma enfermeira, uma terapeuta ocupacional e dois psicólogos. Nós. Uma ideia: capacitar os jovens e adultos com deficiência para uma vida autónoma. Uma vida real. Sem powerpoints, sem apresentações, sem manuais. 
Três casas. Doze pessoas portadoras de deficiência. Ensinar a planear uma refeição. Dividir grupos de quatro por cada cozinha. Ensinar a fazer coisas básicas: descascar uma batata, fazer um refogado, cozinhar arroz, cortar frutas para a salada de fruta, mais à frente, um esparguete à bolonhesa. Arrumar a cozinha a muitas pernas, tachos e canadianas empilhadas, bancadas que servem para preparar as refeições e ajudar no equilíbrio, almofadas que têm que se pôr debaixo dos rabos sentados nas cadeiras de rodas para se poder chegar aos fogões, canadianas que servem de pinças para se apanhar cascas que caiem ao chão. 
Ir às compras no supermercado. Contrariam a tendência de substituir cada um deles, porque assim os ajudamos, porque é mais fácil, porque é mais rápido. Ajudar só com ideias e estratégias verbais. Vê-los a tentarem encaixar cestos com rodas nas canadianas, não conseguem, vê-los a agarrarem em carrinhos de compras, colocarem as canadianas lá dentro e a usá-los como andarilhos, para além do transporte dos alimentos para o jantar. Os de cadeira de rodas a desistirem de empurrar carrinhos de compras altos e a trocarem-nos pelos cestos pequeninos ao colo. Vê-los, ao início, envergonhados a deambular pelo Pingo Doce, aborrecidos com os olhares curiosos de quem passa, perceber que vão ganhando confiança, que pedem ajuda, que levantam os olhos do chão, primeiro na direcção das prateleiras altas, inacessíveis a quem se desloca sentado, depois em direcção aos olhos de quem passa, sem medo, sem timidez, com a confiança de quem sente que consegue. De quem não acredita apenas que consegue, mas sim, de quem, comprova que é capaz.
Acabar o fim-de-semana como anfitriões, a receber a equipa do Mãos na Massa. Workshop culinário seguido de um último almoço. Desta feita, gourmet. Em breve o regresso, para o descanso dos guerreiros. 
De deficientes a eficientes: porque uma deficiência não tem que ser limitativa de uma vida normal. Ainda que com estratégias adaptadas. 
Este fim-de-semana, foram eles que me formaram, que me ensinaram, que me capacitaram. Foram eles que me lembraram de nunca mais dizer, em que circustância for, que não sou capaz. 
Obrigada, marmanjos! Por tudo, especialmente, pelo "sentido de humor*"!

7 comentários:

Na Mesma disse...

:)

saudosa disse...

Absolutamente Fantabulástico!!!!

Grande projecto!!!!


Parabéns!

Reflexos... disse...

Sempre gostei de pessoas"diferentes"
deram-me sempre grandes lições.

Bem haja pela dedicação aos outros.

Rita disse...

Já conheces o Wi-Go? https://www.facebook.com/wigoproject

Apostem os supermercados (e a sociedade) nele e esses (e outros) 'marmanjos' poderão fazer as suas compras de forma completamente autonoma :)

Terapia das palavras... disse...

Que imagem fantastica esta..

Que pena estes eventos /iniciativas nao se vejam nas 1ºas paginas dos jornais em prol desta palhaçada de selfie com meia duzia de macacos a usarem de espaço publico ..e a terem protagonismo,,

Estas sim deviam ser noticas de 1ª.

Parabens por hj ter começado o meu dia ainda a acreditar que a diferença faz diferença na vida de algumas pessoas,,na minha faz ha quase 20 anos..

Parabens!!!

Papoila disse...

Parabéns Casal Ursenildo. É tão bom ler estes textos.

Filomena Silva disse...

Bem hajas Polo!!!
Como mãe de um menino diferente e uma filha que está no meio de uma tabela que os que fazem as leis criaram e apesar de não ser o mesmo tipo de deficiência, dou muito valor a quem ajuda estas pessoas, a quem a sociedade relega para um canto. E louvo-te por sentires que aprendeste,pois é verdade que todos temos algo para ensinar e daí todos podemos aprender algo.
Beijinhos

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